"Aquela era a história que eu estive procurando por toda minha vida!", diz autor de HQ sobre Johnny Cash

Graphic novel do alemão Reinhard Kleist ganhou versão em português nesta segunda, 19, em Porto Alegre; autor prepara quadrinhos sobre Fidel Castro
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por Por Adriana Douglas
19 de Out. de 2009 às 16:48

Traduzir 70 anos de uma vida intensa em pouco mais de 200 páginas. Essa foi a missão de Reinhard Kleist na HQ Cash - I See A Darkness, que retrata a vida do cantor Johnny Cash (1932 - 2003). Três anos depois de ser lançada na Alemanha, a publicação ganhou versão em português nesta segunda, 19, pela editora gaúcha 8Inverso, sob o título Cash - Uma Biografia. Para o lançamento nacional da obra, o quadrinhista desembarcou no Brasil (nesta terça, 20, ele ministra, em Porto Alegre, a oficina Como Realizar um Projeto de Não-ficção em Quadrinhos). Pouco antes de entrar em um avião rumo ao país, há cerca de duas semanas, Kleist falou, por telefone, ao site da Rolling Stone Brasil.

Com ajuda das próprias canções do artista, Kleist aborda os episódios mais marcantes da trajetória daquele que transformou a música country - e contribuiu, também, para o que hoje se conhece por rock 'n' roll. Mesmo sem ser um grande fã de Cash antes de começar o trabalho, Kleist assumiu o desafio.

Ele conta que, a princípio, planejava fazer quadrinhos "sobre música e como torná-la visível na HQ". Mas o projeto tomou um rumo diferente quando o escritor alemão Franz Dobler lhe mostrou a biografia de sua autoria sobre Cash, intitulada The Beast in Me. "Eu não estava convencido até ler o livro. Um cantor country? Como isso seria interessante?", lembra. "Depois do livro fui fisgado. Aquela era a história que eu estive procurando por toda minha vida! Ela tem drama, romance, melancolia, violência, drogas... e um fim satisfatório."

Pouco depois de terminar os esboços dos desenhos e do roteiro, Kleist se viu diante do que poderia ser um problema: o lançamento da cinebiografia Johnny & June, em 2006. O quadrinhista explica que pensou que a produção poderia superar seu trabalho, principalmente no quesito do conteúdo sobre o personagem. "Não sei o quanto as pessoas sabem sobre a vida dele. Eu sabia muito pouco", afirma. "Acho que o filme mostra muitas coisas que não são conhecidas, mas o que me interessa mais é a história por trás dos fatos." Após assistir ao longa estrelado por Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon, o artista percebeu que sua função seria diferente: tratar de episódios mais obscuros e enigmáticos, mostrados essencialmente na autobiografia de Cash (Cash: The Autobiography, sem versão em português ).

Trilha para HQ
Kleist optou pela narração a partir das composições de Cash. Ele conta que, apesar do empecilho em conseguir os direitos das músicas, o maior problema do trabalho inteiro foi decidir "onde deixar a história mais curta". "Tive de fazer certos cortes. O maior é no final, onde pulo cerca de 40 anos [da vida de Cash]. Mas isso funciona, porque as coisas mais significantes são ditas e bem no finalzinho deixo Cash fazer algo como um resumo", afirma.

Algumas canções aparecem como pequenos episódios na HQ, dividida em três capítulos, baseados na evolução da carreira de Cash. Um dos pontos principais da história, segundo Kleist, está na parte sobre o lendário show feito pelo cantor na penitenciária Folsom Prison, em 1968. É de lá que o quadrinhista retirou o narrador do livro, o músico country - e encarcerado, à época, em Folsom - Glen Sherley (autor de "Greystone Chapel", interpretada por Cash).

A imersão no universo do músico rendeu alguns prêmios expressivos ao quadrinhista. No mesmo ano do lançamento no mercado alemão, a publicação levou o título de melhor livro em quadrinhos na Feira do Livro de Munique. Em 2007, recebeu a mesma honraria na Feira do Livro de Frankfurt. Desde então, a revista ganhou versões em outros idiomas (espanhol, francês, italiano, grego, croata e inglês) e foi premiada com o Max und Moritz de Melhor Graphic Novel alemã, em 2008. Finalmente, neste ano, a edição francesa, batizada de Cash - Une Vie, foi agraciada com o Les Prix Des Ados, no Festival Literário de Deauville, na França.

Sobre a edição brasileira, Kleist a considera o "efeito colateral" de um convite que havia recebido do Goethe Institut de Porto Alegre para visitar o país como participante de um evento voltado para HQs alemãs. A ideia inicial da organização, responsável pelo intercâmbio cultural entre Alemanha e Brasil, era trazê-lo para um workshop na capital gaúcha. No entanto, Augusto Paim, organizador do evento, "pensou que seria uma ideia brilhante ter o livro no Brasil e começou a procurar uma editora". "Ele então encontrou a 8Inverso e iniciou a tradução do material", diz Kleist.

Elvis e Fidel
Depois de finalizar Cash - Uma Biografia, o quadrinhista ainda pegou carona no cenário musical e entrou no projeto de uma série de HQs sobre Elvis Presley. "Comecei o livro com um amigo de Berlim, Titus Ackermann, que é membro da equipe Moga Mobo, um projeto que publica quadrinhos gratuitos. Nós escrevemos o roteiro sobre a vida de Elvis, o dividimos em dez pequenas histórias e as demos para diferentes quadrinhistas alemães", explicou Kleist. "É algo como um show de alguns de nossos melhores artistas. [O livro] saiu no ano passado na Alemanha e na França. Não fez muito sucesso, porque foi feito por artistas diferentes. As pessoas não querem que o estilo mude muito quando elas lêem a história. Eu entendo isso."

Atualmente, o alemão trabalha em uma HQ biográfica sobre Fidel Castro, prevista para o segundo semestre de 2010. "Será bem mais longa que a de Cash, porque Castro é um personagem bem mais, digamos, controverso que Cash", define Kleist.

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