Pantera Negra é um marco cultural impactante para o mainstream, além de um deleite para fãs de HQ

Nova produção é o primeiro filme solo de um herói negro dos Estúdios Marvel
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por PAULO CAVALCANTI
13 de Fev. de 2018 às 18:18

Criado por Stan Lee e Jack Kirby, o personagem Pantera Negra não foi o primeiro super-herói afro-americano. Mas pelo fato de ter sido gestado pelos chefões da influente Marvel, acabou se tornando o mais icônico e conhecido deles. A primeira aparição do herói aconteceu em julho de 1966, dentro de uma revista do Quarteto Fantástico. O Pantera Negra surgiu em um tempo de inquietude dentro da sociedade norte-americana, quando o Dr. Martin Luther King liderava a luta pelos direitos civis e pela igualdade racial. Ironicamente, poucos meses depois de ele surgir nas bancas de jornais, nasceu o grupo radical Panteras Negras – ninguém sabe com certeza se o nome foi inspirado ou não no personagem da Marvel. No começo da década de 1970, quando os Panteras Negras começaram a ser acusados de participação em atos de violência urbana e de envolvimento com tráfico de drogas, o personagem mudou o nome brevemente para Leopardo Negro. Com o tempo, ele reverteu para a denominação original.

Infelizmente, dentro do universo dos quadrinhos, a trajetória do Pantera Negra foi marcada por altos e baixos. Ele nunca teve a popularidade e o reconhecimento merecidos. Mas isso está para mudar.

O chamado Universo Expandido da Marvel é um das franquias cinematográficas mais bem sucedidas de todos os tempos. Para criar novas histórias, o estúdio procura usar todos os heróis e personagens que tem em mãos. O Pantera Negra, alter ego do então príncipe T'Challa (Chadick Boseman), foi introduzido na tela grande em 2016, em Capitão América: Guerra Civil. Quando o filme solo do Pantera Negra foi anunciado, certas dúvidas surgiram. O filme poderia ser apenas uma espécie de “tapa buraco” até a chegada de Vingadores: Guerra Infinita, em abril.

Dirigido por Ryan Coogler (que é afro-americano), Pantera Negra transcende o quesito entretenimento, embora, naturalmente, seja muito divertido e repleto de emoções esperadas neste tipo de produção. É um marco cultural. Trata-se de um filme que poderá se mostrar tão impactante para o mainstream da cultura afro-americana quanto foi a série de televisão Raízes (1977). Como filme de herói, é uma viagem de montanha-russa. Mas a consciência política e social inerente ao roteiro e narrativa despertam uma miríade de indagações, debates e provocações.

Na história, T'Challa retorna para Wakanda, um país fictício localizado na África Central, com a intenção de assumir o trono. Wakanda é um grande mistério. O resto do mundo acha que se trata de mais uma nação pobre do terceiro mundo, que subsiste da agricultura e do artesanato. Na verdade, é o país mais avançado do planeta, repleto de inovações e de maravilhas criadas pela ciência, e às quais somente os moradores de lá têm acesso. A fonte do poder do local é o vibranium, um metal que teria sido trazido por alienígenas. Wakanda poderia facilmente dominar o mundo, mas seus governantes optam por permanecer distantes dos conflitos criados pelo homem branco. O não envolvimento é a chave da felicidade para eles.

T'Challa é um jovem sensível que hesita ao assumir o trono do país, já que ele acha que não conseguirá chegar perto da sabedoria do pai, o rei T'Chaka, assassinado em um atentado terrorista em Capitão América: Guerra Civil. Tudo isso acontece justamente em tempos de crise. Ulysses Klaue (Andy Serkis), um traficante de armas sul-africano, consegue se apossar de uma quantidade de vibranium e começa a procurar compradores. Para piorar, Erik “Kilmonger” Stevens (Michael B. Jordan), primo desconhecido de T'Challa, está envolvido com Klaue. Killmonger nasceu nos Estados Unidos, rodou o mundo como agente do governo e viu todo o sofrimento e injustiça infringido aos afro-americanos. Ele quer assumir o trono do país e, assim, usar todos os recursos de Wakanda para armar seus irmãos negros e instaurar uma revolução mundial. Pode soar radical para alguns, mas Killmonger tem seus motivos. Os questionamentos deles são críveis. Ele é mais um anti-herói trágico do que um vilão descartável e caricatural.

Uma das melhores coisas do film, é que, excetuando algumas cenas que mostram o passado de Erik Killmonger, a ação fica bem longe dos Estados Unidos. No começo há uma sequência de ação na Coreia do Sul, mas o resto se passa em Wakanda, uma localidade africana que dá vontade de visitar um milhão de vezes. O afrofuturismo, que é um conceito que junta a herança cultural dos negros e suas raízes africanas com a tecnologia e um visão triunfal do futuro, permeia Pantera Negra. O filme toca em temas como racismo, colonialismo e escravidão, mas sempre com muito tato. O orgulho negro aliado à diversidade e representação cultural carregam o filme. Filosoficamente, o longa traz um embate entre as ideias de Martin Luther King Jr. e de Malcolm X, dois grandes expoentes da cultura negra. Estão em jogo uma solução pacífica ou a tomada das armas. E também a discussão de até quando é possível levar uma rotina sem se envolver com o que acontece ao redor.

O notável elenco, quase todo constituído por artistas negros, é também um dos motivos do êxito do longa. O Pantera Negra não é só um herói. Ele é um monarca, um estrategista e diplomata. Cool, charmoso e sempre convincente, Boseman é excelente e será difícil enxergar um outro ator interpretando o herói. Mas ele não é o único a dominar a cena. Quem sair do cinema vai acabar se lembrando também do elenco feminino. Danai Gurira é a guerreira Okoye, líder da guarda imperial chamada Dora Milaje, constituída apenas por mulheres. A personagem também estará no próximo Vingadores e o filme já vai valer por isso. A inglesa Letitia Wright é Shuri, irmã de T'Challa. No filme, ela tem apenas 16 anos domina a tecnologia, fornecendo armas e acessórios para o irmão (Shuri também tem as melhores piadas). A sempre ótima Lupita Nyong’o é Nakia, espiã e antiga namorada de T'Challa. A veterana Angela Bassett vive Ramonda, madrasta dele.

Os dois únicos atores brancos são Martin Freeman, como o agente da CIA, e Andy Serkis, na pele de Ulisses. Coincidentemente, os britânicos também pertencem ao universo cinematográfico de Tolkien, tendo vivido respectivamente Billbo e Gollum. A trilha sonora, com curadoria de Kendrick Lamar, também impressiona. Pantera Negra é um dos filmes mais esperados da temporada e seu sucesso será mais do que merecido.

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