João Rock 2017: show político de Emicida e retorno de Pitty levam emoção ao festival

Autenticidade na estreia de Alceu Valença também foi destaque em meio a line-up já conhecido pelo público do tradicional evento de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo
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por Anna Mota, de Ribeirão Preto
12 de Junho de 2017 às 10:38

O tradicional festival João Rock ultrapassou a marca dos 15 anos para chegar a 16ª edição no último sábado, 10. Ocorrendo novamente no Parque Permanente de Exposições de Ribeirão Preto, o evento, que teve os 55 mil ingressos esgotados semanas antes da ocasião, contou com 17 atrações ao longo das dez horas de maratona musical. Estas, assim como na última edição, foram divididas em três palcos, mas com uma novidade entre os espaços: além do João Rock e do Fortalecendo a Cena, o Brasil – Edição Nordeste, estreou com a proposta de celebrar os ritmos da região mais quente do país.

O palco nordestino contou com apresentações de Zé Ramalho, Lenine, Nação Zumbi e o estreante no evento Alceu Valença. No palco principal, Pitty fez o show que marca a retomada da carreira, após um tempo parada, Emicida enfrentou o frio com um número politizado e algumas figuras carimbadas retornaram, como CPM 22, O Rappa, Nando Reis e Capital Inicial. Já no Fortalecendo a Cena, dedicado a artistas emergentes e de pequeno a médio porte, se apresentaram Medulla, Selvagens à Procura de Lei e Haikaiss, entre outros.

Assim como no ano passado, o evento adotou um sistema de moeda própria, a “baqueta”, de valor equivalente ao real (1 baqueta = R$ 1). O método, apesar de já conhecido por parte do público, ainda gerou filas e algumas confusões nos caixas físicos, onde era possível recarregar cartões personalizados com créditos. Ainda assim, a grande quantidade de bares, com preços característicos de festivais (uma lata de cerveja custava 8 baquetas), fez com que a compra de bebidas não fosse tumultuada.

A locomoção pelo parque, passeio que podia incluir uma visita às diversas atividades do festival – como uma pista de skate, um balão de gás e um “tattoo truck”, em meio à suficiente praça de alimentação – também foi tranquila na maioria do tempo. Como exceção, o bar localizado no centro da plateia do palco Brasil atrapalhou a passagem, fazendo com que a mobilidade entre o espaço perto ao palco e a saída para outros ambientes pudesse demorar alguns minutos.

Houve ainda alguns problemas de logística notáveis. Os palcos não foram sinalizados com os nomes, o que deixou parte do público confusa, principalmente quanto aos espaços menores, localizados nas pontas esquerda (Brasil) e direita (Fortalecendo a Cena) do parque. Outra questão foram os banheiros, que ficavam próximos ao palco principal, com acesso conturbado para quem estava em áreas menos movimentadas.

A voz do Nordeste
Em vez de investir em nomes populares dos anos 1990 – como aconteceu na edição de 2016, na qual o palco 2002 reuniu os artistas do ano de estreia do festival –, a organização decidiu apostar em um espaço para homenagear a produção nordestina. A mudança abriu o leque de possibilidades sonoras do festival, ao trazer um espaço com um line-up ditado por influências diversas. Os nomes escolhidos, contudo, já eram em parte conhecidos pelo público do João Rock. Isso causou uma impressão de realocação de Zé Ramalho, Lenine e Nação Zumbi para um espaço onde atingiram uma fatia menor do público.

O maior destaque do palco Brasil, também um dos momentos mais memoráveis da edição, foi a estreia de Alceu Valença. O pernambucano fez com que o público o acompanhasse em uma performance energética, que mesclou letras emblemáticas da fase psicodélica, como “Anjo de Fogo”, com hits populares, como “Girassol”. Ainda que o jovem público não estivesse familiarizado com todo o repertório, ninguém conseguiu tirar os olhos de Valença enquanto ele rodopiava, contava histórias e fazia pedidos especiais à produção. “Parem com isso de apagar e acender as luzes. Eu não preciso de luz, a luz é meu público.”

O cantor mesclou versos de “Embolada do Tempo” com um trecho do livro de poesias dele, O Poeta da Madrugada (2014) e, após permanecer deitado no chão em êxtase, abriu a última parte do show com “Morena Tropicana”, que engatou um discurso político clamando por “diretas já”. Valença ainda filmou a plateia com o celular enquanto o coro entoava “fora, Temer”.

O tom político também foi predominante no show dos cearenses do Selvagens à Procura de Lei, que abriram a programação do Fortalecendo a Cena. Apesar do público ainda estar chegando quando começaram os primeiros acordes de “Brasileiro” – iniciada com um “primeiramente, fora Temer”, enunciado pelo vocalista Gabriel Aragão – a banda fez uma apresentação consistente, com o conhecido repertório autoral. Medulla, 3030, Cidade Verde Sounds e Haikaiss também passaram pelo palco, com um público significativo durante todo o dia.

Novidades
Nando Reis foi um dos poucos nomes do palco principal a mostrar novidades no setlist. O cantor abriu a apresentação com dois hits do último disco, Jardim-Pomar (2016), “Infinito Oito” e “Inimitável”. Para balancear, tocou em seguida duas da época dos Titãs, “Marvin” e “Os Cegos do Castelo”. Depois, as backing vocals trouxeram de volta os novos sons, com “Só Posso Dizer”, e deram um show à parte na interpretação de “Nos Seus Olhos”, “Dois Rios” e “Relicário”. O coro da plateia foi forte nas clássicas “All Star”, “Sutilmente”, “Por Onde Andei”, “O Segundo Sol” e “Do Seu Lado”.

Menos ousado do que Reis, o vocalista do CPM 22, Badauí, quase se desculpou por apresentar faixas do álbum mais recente, Suor e Sacrifício (2017). “A gente vai tocar umas músicas novas, mas não vão ser tantas” disse, e, antes que o público pudesse ter qualquer reação, continuou: “mas agora vamos voltar para 1998”, antes de “Regina Let’s Go”. A apresentação contou com a participação especial do filho do guitarrista Luciano Garcia, Arthur, que assistiu ao show de cima do palco e roubou o microfone de Badauí para cantar parabéns para ele mesmo, encantando o público.

Clima confortável
Um show solo de Humberto Gessinger era o que constava na programação após a performance de Armandinho, mas o que aconteceu foi um tributo aos maiores sucessos do Engenheiros do Hawaii. Doze anos depois de subir ao palco do festival com a banda, o cantor se manteve confortável ao celebrar os 30 anos do disco A Revolta dos Dândis, com hits como “Infinita Highway”, “Refrão de Bolero” e “Terra de Gigantes”.

A única canção apresentada que não era do Engenheiros do Hawaii foi “Olhos Abertos”, composição de Gessinger em parceria com Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial, que subiu ao palco para dividir os vocais da faixa.

Ouro Preto manteve a segurança e conforto de Gessinger na apresentação do Capital, com o já conhecido tributo ao Aborto Elétrico. O show também trouxe o hino político que parece nunca sair do repertório do João Rock, “Que País É Esse?”, do Legião Urbana, após o vocalista pegar uma bandeira do Brasil da plateia e comandar gritos de “ei, Temer, vai tomar no...” contra o presidente. A apresentação contou com a participação de Thiago Castanho, ex-guitarrista do Charlie Brown Jr., que tocou um trecho de “Proibida Para Mim”. A homenagem à banda de Chorão continuou com uma cover de “Me Encontra”.

Com ares de despedida, O Rappa – que anunciou em maio uma pausa por tempo indeterminado, a partir de fevereiro de 2018 – continuou o clima nostálgico no palco principal. Com o maior público da noite, a banda comandou um grande karaokê com sucessos de toda a carreira. Não faltaram os hits “Pescador de Ilusões” e “Me Deixa”. “Auto-Reverse”, do disco Nunca Tem Fim (2013), antecedeu o discurso político contra Temer. “Saibam que a gente não tem político de estimação e não fecha com nenhum deles, jamais, nunca fechou”, disse o vocalista Marcelo Falcão sob aplausos.

O retorno
Após uma pausa na carreira para dar luz à primeira filha, Pitty retornou aos palcos justamente no João Rock. A baiana não deixou dúvidas de que transformou toda energia guardada em performance, ao fazer uma das apresentações mais marcantes da maratona musical. “Depois de tudo, depois de tanto, estamos aqui de novo”, afirmou, emocionada.

Única mulher a subir ao palco do João Rock 2017 (assim como em 2015), a roqueira usou vocais fortes e guitarras pesadas para comandar um repertório que, apesar de trazer apenas um lançamento recente – ”Dê Um Rolê”, cover dos Novos Baianos lançada como single em 2016 –, veio carregado de saudade e sintonia entre a cantora e público. O show começou com “Admirável Chip Novo”, incrementada de maneira inédita com o refrão de “Sociedade Alternativa”, clássico de Raul Seixas, adicionado ao fim. “Memórias”, “Teto de Vidro” e “Equalize” foram as mais aclamadas pelo público.

Papo reto
Emicida entrou no palco depois d'O Rappa com dez minutos de atraso, causados pela apresentação anterior. Apesar do frio de oito graus, que foi motivo de um esvaziamento precoce, a apresentação essencialmente política e plural do rapper foi um dos pontos altos do festival, em meio a uma série de repertórios vastamente conhecidos e reproduzidos no João Rock durante os anos.

Introduzido por manchetes que falavam da morte e da prisão de jovens negros no telão, o rapper começou com “5 Moleque Tipo Nóiz”. Os versos “ninguém chora por cinco moleque tipo nóiz”, escritos em crítica à comoção social seletiva, foram complementados por “já viu eles chorar pela cor do orixá?”, de “Boa Esperança”, música cantada em seguida, parceria com o primeiro convidado do show, o jovem rapper Coruja BC1.

Antes de começar a popular “País do Futebol”, Emicida fez uma pausa para falar sobre a falta de visibilidade da seleção brasileira feminina de futebol, e dedicar a faixa a todas as jogadoras, “mas principalmente à Marta”.

Emicida ainda cantou “I Love Quebrada” e um trecho de “Os Mlk É Liso”, do MC Rodolphinho, para depois chamar Pitty de volta ao palco e dividir os vocais em “Hoje Cedo”. Vanessa da Mata também participou do show, sendo imensamente aplaudida ao apresentar, ao lado do rapper, a melódica “Passarinhos” e, depois, ser protagonista em “Não Me Deixe Só”.

Explorando a pluralidade musical dentro de um só show, Emicida chamou também Drik Barbosa, Rico Dalasam, Muzzike e Raphao Alaafin para cantar “Mandume” (além de Coruja BC1, que substituiu Amiri), que integra o álbum mais recente dele, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa… (2015), e escancara a denúncia do racismo nos versos.

Diversidade sonora, atualidade e urgência no discurso, características principais do último show do evento, estiveram refletidas em pontos isolados espalhados pelo festival (que, com 5 mil presentes adicionais em relação a 2016, é de importância inegável para Ribeirão Preto e adjacências). Em 2017, assim como nas edições mais recentes, o João Rock continua mirando mudança e renovação, mas ainda segue calcado em receitas tradicionais.

*Anna Mota viajou a convite da organização do João Rock

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