João Rock 2018: homenagem à Tropicália e protestos marcam 17ª edição do festival

O evento em Ribeirão Preto recebeu 60 mil pessoas e 24 atrações, entre elas Pitty, Gilberto Gil, Skank, Planet Hemp e Caetano Veloso

Fernanda Talarico, de Ribeirão Preto Publicado em 12/06/2018, às 12h10 - Atualizado em 15/06/2018, às 15h57

Gilberto Gil durante show do Refavela40 no João Rock 2018

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Ribeirão Preto já entrou para a rota dos festivais mais tradicionais do país, já que pela 17ª vez a cidade recebeu o cada vez melhor João Rock. O evento aconteceu no último sábado, 9, e, segundo a organização, atraiu cerca de 60 mil pessoas (ou seja, teve lotação máxima). O local escolhido foi o já conhecido Parque Permanente de Exposições de Ribeirão Preto, que recebeu 24 diferentes atrações divididas em quatro palcos. Até o ano passado, eram três palcos, o principal, chamado João Rock e o único com pista VIP, o Fortalecendo a Cena e o Brasil, mas este ano houve o acréscimo de mais um, o palco Red Bull Music, especial para músicos novos e independentes.

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O line-up do festival é inteiramente brasileiro, então um palco chamado Brasil deveria ter um propósito maior do que apenas unir artistas do país. E tem: ele abrigou uma homenagem aos 50 anos da Tropicália, com importantes nomes do movimento subindo ao palco, como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé e Os Mutantes. Já o palco João Rock recebeu nomes atraentes da cena musical, como Cordel do Fogo Encantado, Supercombo, Raimundos, Skank, Pitty, Natiruts, Gabriel O Pensador, Criolo e Planet Hemp, além do Napkin, banda de Joinville, Santa Catarina, vencedora do concurso que escolheu a atração que abriria os shows do palco principal.

Homenagem à Tropicália

Em 2017, o Palco Brasil investiu em “vozes do Nordeste” como uma maneira de homenagear a produção da região brasileira, com shows do Lenine, Zé Ramalho, Nação Zumbi e Alceu Valença. Este ano foi a vez do movimento Tropicália ter sua importância reconhecida, afinal, em 2018 ela faz 50 anos.

Quem iniciou as apresentações foi Sérgio Dias, único integrante remanescente d'Os Mutantes – formado por ele, Arnaldo Baptista e Rita Lee. A performance foi descontraída, com um setlist que incluiu “Panis et Circenses”, “A Minha Menina” e “Top Top”. Dias chegou a agradecer a cidade de Sorocaba pela receptividade e deu risada ao perceber que estava falando do local errado do interior paulista. Para fugir da gafe, puxou um coro de “Fora Temer”. Deu certo, o público acompanhou.

Já no final da tarde, foi a vez de Gilberto Gil subir ao palco Brasil. O baiano levou ao festival o projeto Refavela40, uma homenagem ao disco dele próprio lançado em 1977, e tocou ao lado de Moreno Veloso (seu afilhado), o filho Bem Gil, Chiara Civello, Anelis Assumpção e Mestrinho. O show foi emocionante, com lágrimas fazendo parte da apresentação o tempo todo. Foram cantadas “Sandra”, “Babá Alapalá” e “Não Chores Mais”, versão de “No Women No Cry”, de Bob Marley. A proposta tropicalista de misturar diferentes gêneros musicais, tribos e culturas esteve mais do que presente e toda a performance foi muito bonita.

Depois, chegou a vez do Ofertório, integrado Caetano Veloso e os filhos, Tom, Zeca e Moreno. Foi um show completamente intimista, com a sensação de que se está em um pequeno teatro, não em um festival a céu aberto. O setlist incluiu “O Leoãozinho”, “Um Canto de Afoxé”, “Reconvexo”, “Força Estranha” e o funk “Alexandrino”.

Para encerrar a noite do palco especial, foi a vez de Tom Zé, que fez uma apresentação bastante política, com músicas pouco conhecidas do público, mas que foram acompanhadas atentamente.

Música e Protesto

Das bandas que se apresentaram no palco principal, apenas o Cordel do Fogo Encantado ainda não tinha estado no João Rock, mas esse não pareceu ser um problema para a banda, que fez um show incendiário. O público, que ainda não era muito grande, mas era cativo, dançava e cantava com empolgação, principalmente “Chover”, sucesso de 2001 que apareceu na reta final do show.

O espírito de união da cena regeu a performance do Supercombo, que recebeu a vocalista do Francisco el Hombre, Juliana Strassacapa, para cantar a faixa “Amianto”. Já durante do show do Francisco, no palco Fortalecendo a Cena, Juliana convidou Carol Navarro, baixista do Supercombo, e a cantora LaBaq para cantar “Triste, Louca ou Má”.

Seria impossível passar por um festival como o João Rock sem protesto políticos, e os manifestos vieram de quase todos que se apresentaram. Durante o show do Planet Hemp, era possível ouvir Marcelo D2 xingando todos que pudessem votar no candidato a presidente Bolsonaro: “Não é possível que alguém realmente faça isso, vai se foder!”, dizia o rapper entre uma música a outra. Digão, do Raimundos, depois da plateia puxar “Fora Temer”, gritou: “Fora não só ele, como todas as raposas da nossa política!”

Quando chegou a vez da Pitty, o protesto veio de outra forma: mais uma vez ela seria a única mulher a subir ao palco principal do evento se ela mesma não tivesse levado Tássia Reis e Emmily Barreto (Far From Alaska) para estar com ela. As três cantaram “Contramão”, novo single da roqueira, e um mash-up de hits da Elza Soares, Rita Lee e Beyoncé. Nos momentos em que Pitty não dividiu palco, ela comoveu o público com o que chamou de “bloco da sofrência”, com “Me Adora” e “Na Sua Estante”.

Criolo se apresentou pela terceira vez ao João Rock e, um pouco antes, em entrevista à Rolling Stone Brasil, disse estar muito feliz de ir mais uma vez a Ribeirão Preto. “Rock é uma atitude, é isso que fica impresso. É uma grande honra, a gente sempre sente uma gratidão muito grande, afinal, é um reconhecimento”.

Estrutura

Como já é costume há três anos, o João Rock usa o sistema de moeda própria, a “baqueta”, no qual o valor é equivalente ao real (1 baqueta = R$ 1). Este método, usado também no Lollapalooza, por exemplo, serve para diminuir as filas. Mas mesmo com caixas ambulantes, além dos físicos, dando um suporte havia muita confusão para recarregar os cartões. No entanto, a quantidade bares era bem grande e, para os que estavam dentro da privilegiada pista VIP, o tempo de espera era ainda menor. Os famosos “copos souvenires”, uma moda entre os adeptos a festivais, vinham em vários modelos, dependendo da bebida fosse escolhida, mas quem quisesse colecionar todos deveria desembolsar uma boa quantidade de baquetas, afinal a cerveja de 300ml, item dos mais básicos do cardápio, já custava R$ 11.

Passear pelo evento era possível até, pelo menos, metade da tarde. Quem quisesse conhecer as ativações – como uma pista de skate, uma tirolesa e uma parede de escalada – deveria fazer isso enquanto o sol ainda estava visível. Depois, ficava bem difícil transitar. Além da grande quantidade de gente assistindo aos shows ou em filas, a localização do camarote atrapalhava muito quem tentava atravessar de um lado para o outro do João Rock. Para comer, o visitante poderia escolher entre a estação de food trucks ou os guichês de comida, que ficavam distantes um do outro, facilitando a vida de quem quisesse fazer uma refeição com calma.

Crescendo

O palco Fortalecendo a Cena recebeu nomes como Kilotones, Dônica, Sinara, Rael, Froid e Francisco el Hombre, que não foram prejudicados pelos grandes shows que aconteciam simultaneamente nos outros palcos. Sempre tinha bastante gente assistindo às performances por ali, não importa quem estivesse atuando nos outros espaços. Rael, Froid e Francisco El Hombre, especialmente, chamaram atenção pela quantidade de fãs e pelo reconhecimento que receberam do público.

O palco Red Bull Music, uma das novidades, recebeu bandas novas selecionadas por concursos universitários. O Marujos, de São Paulo, o Motriz, do Paraná, o Enveros, de Minas Gerais, e a cantora e youtuber Mari Nolsaco passaram por lá.

Se o evento continuar desta maneira, a tendência é que siga crescendo e mantendo a relevância dentro do tão importante circuito de festivais nacionais, mesmo que, na contramão dos outros, ele reúna os fãs de rock longe das capitais do país.

*Fernanda Talarico viajou a convite da organização do João Rock