Mais Black Sabbath, menos Libertines

Charles Cave, baixista do White Lies, que toca em São Paulo nesta sexta, 10, fala sobre o valor da arte, videoclipes, o conceito de indie e do disco novo do grupo, Ritual
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por Por Stella Rodrigues
10 de Dez. de 2010 às 12:44

"Para ser sincero, a gente não liga muito para o motivo de irmos ao Brasil, simplesmente estamos felizes de estarmos indo para o país, para São Paulo, é um lugar onde nunca estivemos", comenta o baixista Charles Cave, do White Lies, que se apresenta junto a seus companheiros nesta sexta, 10, no Hotel Unique. O trio será a atração principal do evento beneficente Design for Humanity, promovido pela marca de roupas Billabong. "Mas parece ser um evento importante com o qual se envolver", complementa ele ao confessar que, até pouco tempo antes desta entrevista, não sabia da natureza do show. A iniciativa da empresa, que pela primeira vez realiza o Design for Humanity no Brasil, cobra como entrada uma doação mínima de R$ 95. O dinheiro é revertido para a Plataforma de Centros Urbanos da Unicef, que dá assistência a crianças e adolescentes habitantes de comunidades carentes nas grandes cidades.

Em entrevista por telefone ao site da Rolling Stone Brasil, Charles revelou que ficou surpreso de ter sido escolhido para protagonizar, em sua primeira visita ao país, um evento ligado a uma marca de surf, afinal, o esporte aquático e sua cultura não são exatamente - com o perdão do trocadilho - a praia dos londrinos. Mas Charles diz que se empolga com o desafio de tocar para um público que não é o seu, seja em um festival, em que as pessoas podem não estar lá exatamente para ver a sua banda, seja em um evento como esse.

O White Lies desembarca por aqui em um momento bastante particular da carreira. Depois do sucesso com o disco de estreia, To Lose My Life Or Lose My Love, Harry McVeigh (o vocalista de voz baixa e intensa), Jack Lawrence-Brown (baterista) e Charles se preparam, agora, para o lançamento de Ritual. O show no Brasil, que encerra a turnê do álbum, promete ter um aspecto (de ritual?) de passagem.

"Temos tocado em vários países nos quais nunca estivemos antes [durante a entrevista, a banda estava na Macedônia, em plena turnê pelos Bálcãs] e achamos que o timing foi muito bom, porque poderemos tocar as favoritas do público do primeiro álbum, mas também, essas pessoas serão as primeiras a ouvir muitas das músicas novas. Os outros países não vão escutar as faixas do disco novo por alguns meses, mas o Brasil, com certeza terá um set list exclusivo", promete.

Ritual, que tem data de lançamento marcada, no Brasil, para o dia 26 de janeiro de 2011, tem a difícil missão de entrar em cena após um primeiro disco que chegou ao topo da parada do Reino Unido. Desta forma, o novo trabalho deveria colocar pressão suficiente em qualquer banda novata, mas Charles parece não se assustar com "a maldição do segundo disco". Acredita que o segredo está em não pensar em exagero e simplesmente colocar a mão na massa. Sobre o resultado do sucessor de To Lose My Life..., comenta: "Eu acho que é da natureza do segundo disco de qualquer banda ser ambicioso. O primeiro álbum que qualquer banda faz é a conclusão de uma longa existência, você tem muito tempo para prepará-lo. Mas, para o segundo disco, você está imerso em sentimentos e emoções que são muito presentes e atuais", afirma o baixista. "Com uma banda que teve um primeiro disco de sucesso, você fica em uma posição de ter o tempo que quiser para fazer o segundo. Eu acho isso muito prejudicial, isso muitas vezes acaba destruindo bandas."

Charles conta que Ritual foi escrito e gravado ao mesmo tempo, no período de cinco semanas de trabalho árduo, mas bastante criativo. "Fomos mais ousados, experimentamos um monte de ideias e não nos restringimos nem um pouco. Isso transparece no álbum, cada música tem uma pegada muito diferente, não tem duas músicas que tenham a mesma atmosfera. Isso porque estávamos tão desesperados para não ter amarras... Foi muito mais agradável do que fazer o primeiro."

Mesmo depois de excursionar extensamente pelo mundo, o que inclui uma turnê pelos Estados Unidos ao lado do Kings of Leon (banda que faz o tipicamente britânico Charles abandonar sua postura mais séria e se derreter em elogios) e ter participado de alguns dos principais festivais da Europa - dentre eles Glastonbury, Reading e Leeds, Roskilde e T in the Park -, o White Lies por vezes ainda cai dentro do bolo de "bandas do indie". Mas não ouse apontar essa característica para Charles. Educamente, o artista explica: "Eu acho que o termo indie music é usado para representar bandas que não têm ambição. Para mim, a palavra indie não tem nada a ver com pop e temos muito respeito pelo pop e tentamos incluir esse lado da música nas nossas canções. Eu realmente não acho que a gente seja uma banda indie. Nos sentimos mais como uma banda de rock, no sentido que as pessoas davam para o termo na Inglaterra nas décadas de 70 e 80. Eu compararia a gente mais com uma banda como o Black Sabbath do que com o Libertines".

"Bigger Than Us"
O primeiro single do disco Ritual, a faixa "Bigger Than Us", já conta com um clipe que inicia a segunda fase do White Lies. Com uma videografia composta por trabalhos interessantes, Charles afirma que gosta da oportunidade de transformar suas letras em imagens - apesar de não lhe agradar "o aspecto extremamente propagandista dos clipes" - por enxergar como "uma forma muito fácil de formar uma colaboração com outro artista. Eles não são músicos, são cineastas, e é interessante ver o que a nossa música os inspira a criar no meio deles. É um bom clipe [o de "Bigger Than Us"], parece estar sendo discutido bastante, que é o que toda boa arte deve fazer". Assista abaixo:

Tradicional moderninho
Apesar de a canção acima ter estreado antes do disco, Charles garante que a banda é tradicional, no sentido de fazer álbuns pensados para se escutar na íntegra. Os trabalhos trazem, inclusive, encartes e arte de capa caprichados e bem acabados, seja em suas versões originais ou nos relançamentos em vinil que a banda adora - mais old school, impossível. "Mas sou, pessoalmente, completamente aberto e abraço as táticas de promoção e venda mais modernas de música. Eu adoraria que as pessoas também conseguissem ter pinturas e filmes de graça o tempo todo", revela. "Eu acho que, talvez, toda arte poderia se tornar gratuita e aí poderíamos decidir de novo o quanto vale cada coisa. Por que um CD custa US$ 12 e outro US$ 5? O primeiro tem música de mais qualidade? O mesmo vale para outras obras. Por que eu tenho que pagar milhões e milhões de libras por uma pintura de David Hopkins, mas só tenho que pagar 200 libras por uma pintura que um garoto gênio de 15 anos da Itália fez? Eu acho tudo isso muito, muito errado", reflete o músico, que conclui a ideia afirmando que "a internet fez coisas incríveis pela arte."

White Lies no Billabong Design for Humanity
10 de dezembro, às 23h
Hotel Unique (Av. Brigadeiro Luís Antônio, 4700)
Doação mínima a partir de R$ 95
Pontos de doação: lojas Billabong e Star Point - SP (veja aqui os endereços)

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