Mano Brown sobre estreia solo: “Estou fazendo música romântica? Mas com o espírito da rua”

Com lançamento agendado para dezembro, Boogie Naipe é inspirado pela música funk, soul e R&B do fim dos anos 1970; MC dos Racionais comenta política e a série The Get Down
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por Lucas Brêda
1 de Dez. de 2016 às 09:32

Dois mil e dezesseis é o ano em que Mano Brown enfim chega ao extremamente aguardado primeiro disco solo, Boogie Naipe, inspirado pelo funk, soul e R&B do fim dos anos 1970 e começo da década seguinte. “É aquilo misturado com o que tem hoje”, diz o MC dos Racionais, que investe em uma abordagem mais íntima, mas sem mudar o ponto de partida. “Estou fazendo música romântica? Mas com o espírito da rua.”

Produzido há pelo menos cinco anos, o álbum traz prolífica participação do cantor e compositor Lino Krizz, atual backing vocal do Racionais e conhecido também pelo “Rap da Abolição”, sucesso no fim dos anos 1980 da dupla Os Metralhas, que formava com o irmão gêmeo, DJ Dri. Além dele, contribuem Seu Jorge, Ellen Oléria, Hyldon, o ídolo – norte americano, parceiro de Marvin Gaye – Leon Ware, Don Pixote, DJ Cia (RZO), William Magalhães, Dado Tristão, Carlos Dafé e Mara Nascimento, entre outros.

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Consagrado pela voz grave e pelas rimas secas, Brown também se arrisca cantando melodicamente na estreia solo. “Fiz muitas músicas que não eram para mim, mas para outros cantores”, explica. “Só que, chegou na hora, os próprios caras começaram a querer que eu cantasse: ‘Porra, é da hora, você tem um jeito particular, que até mesmo um cara mais afinado não tem’.”

Falando à Rolling Stone Brasil por telefone, o MC comentou a série da Netflix, The Get Down – ambientada em época equivalente à das maiores influências de Boogie Naipe –, e as surpreendentes eleições em São Paulo, que teve o tucano João Dória como vitorioso no primeiro turno. “Acho que foi uma rejeição em massa à sigla do PT”, analisa, referindo-se à derrota do petista Fernando Haddad. “Tudo que foi ligado ao PT perdeu.”

Abaixo, leia a íntegra da entrevista com Mano Brown.

Boogie Naipe é influenciado pelo soul, funk e R&B do fim dos anos 1970. Dá para dizer que é um disco saudosista?
Mano Brown:

Não é saudosista, é outra situação. Mistura químicas de uma era com químicas de agora e vira uma outra coisa. É uma “nova droga no mercado”. Não é aquilo que era. É aquilo misturado com hoje e com o que pode ser amanhã.

Mudou alguma coisa na dinâmica de compor para um trabalho solo?
Foi a mesma dos Racionais: sempre com um grupo de amigos, umas cinco – tinha dias que éramos 20 – pessoas no mesmo ambiente, conversando, interagindo, ouvindo música. É dali que eu tiro minha inspiração. Nos Racionais é a mesma coisa, sempre fiz as músicas no meio do pessoal. Nunca fui um compositor recluso, de escrever escondido, de madrugada, sozinho. Sempre compus de dia, no meio do fluxo, no meio do ‘auê’. O bagulho a milhão e eu fazendo música.

E em relação aos 1980 – mudou?
A grande diferença é que eu nunca tinha uma batida para cantar em cima. Eu fazia a letra e depois ia procurar a batida. Era difícil. Nesse disco [Boogie Naipe], eu já comecei com um instrumental que me agradava para, a partir dali, desenvolver uma ideia. Isso muda o estilo da música, muda muito. Quando você tem uma roupa feita para você é diferente: é uma roupa que foi criada para você, não uma que qualquer um usaria.

Além de rimar, você também canta melodicamente no álbum – algo relativamente inédito para você. Como aconteceu?
Eu costumo compor para outro cara vir e executar. Fiz muitas músicas que não eram para mim, mas sim para outros cantores, outros intérpretes. Só que, chegou na hora, os próprios caras começaram a querer que eu cantasse: “Porra, é da hora, você tem um jeito particular, que até mesmo um cara mais afinado não tem”. Então acabei deixando algumas vozes lá. Mas, assim, eu “cantarolo”, não sou um cantor. Só que como eu compus, eu sei o DNA da “criança”.

Os singles “Amor Distante” e “Felizes (Heart to Heart)” saíram e, como era esperado, vieram críticas pela suposta falta de “crítica política” nas rimas. Você teme essa cobrança?
Na verdade, o que tem me movido hoje em dia é isso, cara. Então tem umas ideias que já deixaram de ser úteis, pelo tempo, pelo desgaste, pelo uso demasiado da palavra e do argumento. As ideias se renovam, as pessoas exigem outro tipo de coisa. Elas não lutam mais por cesta básica, como era em 1990. Hoje, com cesta básica na favela, você não vai resolver o problema de ninguém – vai dar um agrado. Não faz a mesma diferença que fazia em 1990. Sou um cara que estou na rua, com o povo. Não moro no alto de um prédio, nem entro na sala do diretor. Meu barato é na rua. Estou fazendo música romântica? Mas com o espírito da rua. O espírito gangsta não morre. Eu estou vendo tudo, as coisas pequenas e as grandes, não só as coisas épicas. Qualquer coisa que fica congelada por 25 anos numa ideia é porque está lucrativa e essa história de “não pode falar disso aqui porque senão não vende”, para mim, não serve, morô, mano? E eu também não vejo coração em fazer isso.

Assisti a The Get Down e fiquei imaginando como o hip-hop aconteceu no Brasil. Consegue traçar um paralelo com a sua história?
Passamos nossas aventuras da época aqui, mas tinha um atraso de tempo. Get Down começa em 1977, eu tinha sete anos. Lembro daquilo tudo, mas de longe, pela televisão, que às vezes passava uma coisa ou outra, e através da onda da discoteca, Éramos crianças e absorvemos toda a música norte-americana. O rap para eles começa naquela fase, mas, para mim, já é em 1980 e poucos. E, no Brasil, não se chamava de rap ou hip-hop. Era funk e na periferia se falava “balanço”. Tipo: “Esse balanço é da hora”. Não existia o slogan, a denominação rap.

Vocês também riscavam os vinis para marcar e usar as batidas em loop?
Sim, o KL Jay marcava os discos com fita adesiva, segurava o instrumental com a fita. Então, durante muito tempo, a gente rimava naquele pedaço instrumental curto, só que marcado, aí não dava erro. A gente não tinha o próprio instrumental, então cantava em cima de base de funk, de loop. Às vezes ainda fazemos isso nos shows dos Racionais, com discos originais.

Aquele é o hip-hop mais essencial, mas em Cores & Valores vocês conseguiram atualizar com muita propriedade o som com foco no eletrônico.
Aquele é o rap mais cru, mas a vertente eletrônica também é muito forte. E você sabe que fomos muito criticados, né?

Não é um pouco de purismo e conservadorismo das pessoas?
Tem conservadorismo para os dois lados, porque se o cara diz que gosta de hip-hop, ele tem que procurar saber como nasceu, de onde veio, conhecer todas as cores, todas as vertentes, todos os derivados. O cara se apega ao estilo de música no rádio e todo mundo tem que ser igual àquilo? É uma ditadura da música, morô? Eu não gosto de ditadura nem de um lado nem de outro, nem política, nem religiosa, muito menos musical, parceiro. Não quero doutrinar ninguém. Não quero induzir ninguém a nada. Nem a tomar cerveja e nem suco verde. A pessoa tem que responder pelo que faz, da mesma forma que eu respondo. Se eu erro, sou exposto em praça pública.

Você já usou esse discurso de “não doutrinar” para falar de política e tivemos uma eleição surpreendente em São Paulo. Como você acha que funcionou esse jogo de influências?
[A eleição] Foi totalmente influenciada pela Rede Globo, pela vontade dos ricos. O Brasil tem um espírito colonial, precisa de um patrão, do “senhor da casa grande” para dar as ordens. Estão sempre procurando um coronel. Os espíritos rebeldes são minoria. A maioria quer isso: primeiro atira, depois pergunta. Quer pizza, internet e polícia na rua. E ficar trancado com cadeado. O povo que passou a ser a famigerada classe C hoje quer botar a polícia para defender o que conquistou, entende? Diferença de classe sempre haverá. Então o pobre que não é mais pobre vai agir como rico. “Pobre”, aliás, nem deveria ser usado mais. Depois tem que procurar outra coisa, porque essa palavra já tá arrastando. Pobre é outra coisa, não é dinheiro não.

Muita gente criticou as políticas do Fernando Haddad (PT) nas periferias, pontuando como principal motivo para ele ter perdido. Você concorda?
Não acho. Acho que foi uma rejeição em massa à sigla do PT. Os adversários do Haddad fizeram questão de aliar ele ao nome “PT” e aproveitar o fato de ser uma sigla demonizada no Brasil. Tudo que foi ligado ao PT perdeu. Pode ver que nas eleições o maior perdedor foi o PT. Não vi ninguém ponderar sobre a administração do Haddad, a questão do trânsito. Vi as pessoas querendo tirar ele porque ele é do PT, mano. Só por isso. É muito louco: tudo que o Brasil tem de errado é o PT, porque a Globo falou. A rádio Jovem Pan AM passou um, dois anos, falando isso. O tempo todo induzindo a população a aceitar o que estava acontecendo: um golpe, morô? Você tirar um governo que foi eleito por esse povo? O voto não valeu nada mesmo. O Brasil é um país confuso, mas ao mesmo tempo previsível.

Previsível?
Quando a Globo quer uma coisa, ninguém segura.

E material novo dos Racionais, quando vamos ver?
Tem umas pedradas dos Racionais guardadas para depois do meu disco.