O poeta do povo

O cineasta Pedro Cezar fala sobre o documentário Só Dez Por Cento É Mentira, que mostra a obra do escritor Manoel de Barros
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Manoel de Barros
Reprodução/Site oficial
por Por Patrícia Colombo
23 de Jan. de 2010 às 14:54

"Originalidade, absurdez, infantilidade, síntese, mas principalmente esse absurdo verossímil que a gente vê no mundo infantil, mas com muita estética." É dessa maneira que Pedro Cezar, diretor do documentário Só Dez Por Cento É Mentira, descreve a obra de Manoel de Barros. O longa-metragem sobre o poeta estreou nesta sexta-feira, 22, em São Paulo, onde está sendo exibido no Unibanco Arteplex Frei Caneca.

"Ele é muito coerente na obra dele", disse o diretor, em entrevista à reportagem do site da Rolling Stone Brasil. Produzido entre 2005 e 2008, o filme, que levou o prêmio de melhor documentário na segunda edição do Festival Paulínia de Cinema, em 2009, além de apresentar alguns versos da obra do poeta e comentários de leitores, tem como principal aspecto o depoimento do próprio Manoel de Barros, que é conhecido justamente por evitar exposição na mídia.

Pedro Cezar reconhece que conseguir convencê-lo a dar entrevista para a realização do filme foi bastante difícil - cerca de quatro dias seguidos na orelha do poeta. Argumentos racionais do tipo "admiro seu trabalho", "preciso de pelo menos um registro seu para o documentário fazer sentido" não pesaram na decisão de Barros. Em troca, Cezar ouvia: "sou um ser letral", "não gosto de ter meu pensamento registrado", "o melhor de mim é a minha obra e ela está à sua disposição". O que o fez mudar de ideia? A palavra "sonho".

O diretor disse que, ao pedir incessantemente por um depoimento, começou a se sentir desconfortável, como se estive extrapolando e se aproveitando da atenção dada por Barros. Foi quando, em uma conversa, falou: "Manoel, deixa essa história toda pra lá. Isso era um sonho, mas posso viver sem isso." O lirismo e a sensibilidade do poeta o fez responder com um simpático "Não, Pedro, pega as tuas tralhas e vem aqui amanhã que eu falo." E assim, o documentário fez-se por completo. "Foi muito generoso. Ele se despiu desse orgulho de querer ser perfeito por escrito", emociona-se Cezar.

Desacostumado a falar publicamente, a tarefa a princípio não foi fácil para o poeta. "Depois, descobri que ele teve que tomar um remédio para não ficar nervoso durante a entrevista", revela o diretor. Segundo Paulo Cezar, o trabalho agradou - e muito - a Manoel, que, no final das contas, acabou gostando de se ver falando no filme, tendo o assistido duas vezes. "A sensação é a de que ele tivesse pensado: 'Pô, ainda bem que ele insistiu. Até que não doeu tanto.'"

Ao contrário do que possa parecer nas linhas acima, Manoel de Barros não possui o perfil de um homem arredio à sociedade e aos seus fãs - e quem afirma isso é Pedro Cezar, um admirador assumido da obra e da pessoa de Barros. "Ele não nega contato com as pessoas. Só não gosta de ser registrado oralmente", explica. "Ele sempre recebe gente em sua casa, conversa numa boa. Só pede para que não seja gravado."

Um novo registro com o autor será difícil de ser realizado. Manoel, que está com 93 anos de idade, já vinha mantendo contato com Cezar há anos, o que facilitou na hora de aceitar participar do documentário sobre sua história. Tal fato inegavelmente agrega mais valor ao filme, tornando-o uma boa oportunidade para conferir a trajetória de um dos grandes representantes da literatura nacional. Por mais que não tenha adquirido a popularidade de nomes como Carlos Drummond de Andrade (que chegou a declarar que Manoel era o maior poeta brasileiro), agregou poesias simples - no melhor sentido da palavra - à vida daqueles que não desgrudam de bons livros. "Ele nunca teve versos musicados por grandes nomes da MPB, por exemplo. Mas quem conhece o trabalho dele, pira, fica encantado", diz o diretor.

Com produção do próprio Pedro Cezar, ao lado Kátia Adler e Marcio Paes, Só Dez Por Cento É Mentira chegará ao cinemas do Rio de Janeiro no próximo dia 29.