Moby: uma conversa sobre hedonismo, música e direitos dos animais

O artista norte-americano lançou há poucos meses a ótima autobiografia Porcelain - Memórias e acaba de criar seu próprio festival
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por Bruna Veloso
13 de Out. de 2016 às 11:11

Há alguns anos, o compositor, cantor, DJ e produtor norte-americano Moby trocou uma existência de excessos ao redor do mundo por um dia a dia pacato em Los Angeles. Lá, ele trabalha na divulgação do veganismo (estilo de vida que busca abolir o uso de alimentos e produtos que envolvem a exploração de animais) e em música quase que diariamente. Mas o artista resolveu recordar os tempos de perrengues, bebedeiras e sexo fácil no livro Porcelain - Memórias, a primeira parte de uma autobiografia em duas partes lançada há poucos meses no Brasil. Entre a infância pobre, o boom da cena eletrônica nos Estados Unidos e passagens curiosas - como o dia em que ele conheceu David Bowie -, o modo como Moby narra a própria vida é cândido e cativante, prendendo o leitor do início ao fim da história.

Pouco antes de anunciar o lançamento do disco These Systems Are Failing em parceria com o The Void Pacific Choir, que chega ao mercado nesta sexta, 14, Moby falou à Rolling Stone Brasil sobre a experiência de se debruçar sobre a própria trajetória, música e direitos dos animais, suas duas paixões. Ambas estarão reunidas no festival vegano Circle V, do qual ele é um dos criadores e que ocorrerá em 23 de outubro, em Los Angeles, para arrecadar fundos para a ONG Mercy for Animals.

Depois do lançamento do livro, você se sentiu estranho ao pensar que agora as pessoas teria acesso a todo tipo de informação sobre sua vida? Como por exemplo quando você fez o papel de um dominador BDSM durante uma noite.
Sabe o que é engraçado? Enquanto eu estava escrevendo o livro, achei que seria muito estranho ter todos esses aspectos íntimos da minha vida vindo a público. Mas depois que o livro saiu, o sentimento foi de curiosidade, mais do qualquer outra coisa. Curiosidade em relação a como as pessoas reagiriam a esse nível esquisito de honestidade.

Para você, a reação foi positiva?
No geral, sim. Eu não leio resenhas e tento não ler comentários. Mas a resposta que recebi baseada nas entrevistas a jornalistas ou em eventos de leitura nos quais pude conversar com as pessoas... Sinto que a gente vive em um mundo no qual as pessoas, sejam elas públicas ou não, tentam se apresentar de uma maneira bem desonesta. E não digo isso para afirmar que as pessoas estão mentindo. Mas elas estão tentando esconder as coisas das quais se envergonham e mostrar apenas o que fazem elas parecerem melhores. Acho que há quase um frescor ao não se fazer isso. Foi esse o retorno que tive - quase que um alívio pelo fato de não ser um livro no qual eu tento me apresentar de um jeito glorioso ou algo assim.

Já sabe quando sai o próximo livro?
Estou tentando escrevê-lo no momento. O livro 1 é bem peculiar, digamos - bom, começa comigo praticamente sem teto, vivendo em uma fábrica abandonada. Muitas coisas inesperadas e estranhas ocorrem no decorrer do livro 1. O problema com o livro 2 é que ele é muito convencional: começa em 1999 e termina em 2009 e é basicamente uma história sobre fama, alcoolismo e problemas mentais. Sinto que essa história já foi contada antes um monte de vezes. A história de se conseguir muita satisfação emocional por meio da fama e do álcool é muito antiga, e eu ainda tenho que descobrir como contá-la de um jeito novo e interessante.

Apesar de ser uma narrativa conhecida, ainda ganha a atenção das pessoas justamente por ser algo com que elas podem se relacionar, não é?
Sim, especialmente porque vivemos em uma cultura que é obcecada pela fama e pela riqueza. As pessoas acreditam que quando você tem as duas coisas, todos os seus problemas estão resolvidos. Mas se a gente olhar para as evidências, quando o indivíduo tem fama e riqueza, é mais do que comum ele acabar se destruindo. A minha esperança com o livro 2 é ser o mais honesto possível, mas sem deixá-lo muito repetitivo, porque o que acontece é muito repetitivo. No entanto, eu gosto da ideia de mostrar o que acontece de verdade com uma pessoa, do ponto de vista psicológico, quando ela é exposta a muita fama.

Em Porcelain, vemos que quando você alcança algum sucesso, acaba assumindo um estilo de vida bem hedonista. Isso em algum momento te entediou?
O hedonismo?

Sim. Ter tudo à mão ou pessoas te bajulando, como na passagem em que você narra ter recebido sexo oral de uma garota de maneira quase inesperada.
Eu não diria que me deixou entediado. Há duas razões para ser hedonista. A primeira: por você simplesmente achar que é divertido. A segunda: porque você está tentando sublimar necessidades emocionais. No caso da primeira razão, o hedonismo é ótimo. Mas, no meu caso, era a segunda opção, e eu acabei me afundando em tristeza e desespero depois de um tempo. Eu procurava aquelas festas para me curar, para curar partes de mim às quais eu nunca tinha dado atenção de fato. E o hedonismo não é bom para isso.

Descobrimos no livro que, quando sua mãe morreu, você perdeu o velório dela e logo depois foi para uma festa. Só um tempo mais tarde você chorou de fato, sozinho em um quarto de hotel. Essa memória já era presente ou foi algo que você acabou acessando para escrever o livro?
Acho que a natureza de se escrever um livro de memórias é tentar lembrar de todo tipo de coisas do seu passado - algumas vezes, são lembranças mais "enterradas". Mas essa memória em particular não era algo escondido ou que eu tinha enterrado. Eu pensei sobre isso inúmeras vezes.

Em uma passagem, você narra um momento em que se deu conta de que queria trabalhar pelos direitos dos animais. Logo depois, você vai pra um encontro cristão, vê o cardápio todo baseado em produtos de origem animal e fica profundamente consternado pelo fato de as pessoas ali estarem supostamente pensando em um bem maior, mas deixando completamente de lado questões envolvendo o bem-estar de outros animais que não os humanos. Você ainda experimenta a raiva que sentiu naquele momento em situações semelhantes?
Sim, e por muitas razões. Especialmente quando o assunto são as pessoas que se dizem progressistas. Por exemplo: li um artigo sobre um encontro do Green Party (partido verde) dos Estados Unidos, e nele não houve nenhum debate sobre pecuária e a indústria da carne em geral, ou vegetarianismo, ou veganismo. Acho isso muito estranho e muito triste: o fato de que tantos "progressistas", tanta gente que faz ioga, tanta gente do partido verde, tantos democratas ainda apoiam a pecuária. O fato de que apoiam um processo que mata bilhões de animais e também destrói as florestas tropicais, que contribui para as mudanças climáticas, para a resistência das bactérias aos antibióticos, para a obesidade, o diabetes, doenças do coração. Faz sentido o Donald Trump amar o McDonald's, tem relação com a pessoa que ele é. Mas, para mim, não faz sentido pessoas e políticos progressistas apoiarem essa indústria que não cria nada além de destruição e sofrimento.

Há ativistas que acreditam que um dia a sociedade olhará para o modo como tratamos os animais da mesma maneira que olhamos para a escravidão. Você acredita que isso vai acontecer um dia?
Acho que se a raça humana estiver por aqui daqui 100 anos, vai se referir à pecuária... Olha, a escravidão foi uma coisa horrenda, terrível, nojenta. Mas se falarmos do ponto de vista do meio ambiente, a criação de animais em escala industrial tem o agravante ambiental. Acho que quando as pessoas olharem para isso no futuro, não vão pensar apenas no sofrimento absurdo causado aos animais, mas também no sofrimento causado aos humanos.

Algumas pessoas tendem a acreditar que uma abordagem ao estilo de Gene Baur* é mais efetiva para fazer as pessoas pensarem sobre o sofrimento animal do que uma abordagem como a de Gary Yourofsky**. O que você acha?
Sou vegano há 28 anos e ativista pelos direitos dos animais há 30 anos, e entendo as duas abordagens. Às vezes você quer gritar com as pessoas, às vezes você quer mostrar a elas uma foto adorável de um bezerro. Acho que o importante é ter uma estratégia flexível. Quer dizer, estamos tentando convencer as pessoas de algo. Algumas vão responder à abordagem do Gene Baur, outras à do Gary. Mas é praticamente um desserviço à causa usar a estratégia errada para a situação errada. Se gritar com alguém e vociferar sobre o fato de que essa pessoa não deve comer carne e essa pessoa simplesmente ficar com raiva de você, então claramente essa não é uma estratégia boa para o momento.

Mesmo hoje em dia, tem gente que tira sarro de ativistas que trabalham pelos direitos dos animais citando justificativas estúpidas, como uma suposta cadeia alimentar. Você se deparou ou ainda se depara com muito disso?
Sim. Quer dizer, trabalho com isso há muito tempo, então já me deparei com inúmeras pessoas dizendo todo o tipo de coisas sem sentido sobre o ativismo pelos animais. É frustrante, porque lá no fundo você sabe que 99% das pessoas não querem fazer mal aos animais, mas elas construíram barreiras na cabeça delas que permitem a elas, como disse a Melanie Joy, amar seus pets mas comer outros animais [Melanie é autora do livro Por que Amamos Cachorros, Comemos Porcos e Vestimos Vacas]. É hipócrita e é um paradoxo, mas de algum jeito as pessoas ainda se agarram a isso. Há uma triste crença que as pessoas no mundo ocidental têm, que está matando a gente de diversas maneiras: é a crença de que se algo é legal do ponto de vista judicial, é porque é seguro. As pessoas tiram essa conclusão a respeito de substâncias, de produtos de origem animal, de tantas coisas... Elas tiram a conclusão de que se elas podem comprar algo no supermercado o governo declarou que é seguro, então deve ser seguro mesmo. E simplesmente não é verdade. O governo trabalha para as grandes corporações, e as grandes corporações querem vender coisas baratas e tóxicas. Vendem tabaco, produtos de origem animal, remédios controlados. Mesmo as pessoas mais progressistas ainda mantêm essa filosofia ingênua de que se elas estão comprando, é porque foi testado e é seguro. Isso é a parte mais triste. Temos gente nos ridicularizando pelo ativismo em prol dos animais, mas o triste é que além de tentar salvar os animais, também estamos tentando salvar aqueles que estão nos ridicularizando.

Acredito que também há outra questão: as pessoas tendem a tentar evitar o sofrimento próprio: "Se não vejo como esses animais são tratados, minha consciência não sofre, não fico sabendo de nada e continuo comendo-os sem me questionar".
Sim. As pessoas vivem praticamente em um estado de ignorância por escolha própria, evitando qualquer coisa que possa lhes causar desconforto. Parte do nosso trabalho é apresentar a elas informações que podem fazê-las sentir desconforto, mas que poderão levá-las a fazer escolhas melhores.

Você disse que o show no Circle V será provavelmente o único que fará em 2016. Não pretende mais fazer turnês?
Eu realmente não gosto de sair em turnê. Teria de pensar em uma razão muito boa para sair em turnê e atualmente eu não sei qual seria. Porque se a razão para sair em turnê fosse o fato de eu amar fazer música... posso ficar em casa e fazer música. Não quero ser um músico de meia idade que faz turnês apenas para fazer um dinheiro extra. Prefiro ficar em casa e fazer música, trabalhar na questão dos direitos dos animais e sair para caminhadas. Sinto que posso ser mais criativo e fazer um trabalho mais efetivo ficando em casa do que estando na estrada.

Ficando em casa, com que frequência você produz música?
Eu diria que diariamente. Escrevo de 200 a 300 músicas por ano, só que não lanço todas.

Cheguei ao final do livro sem saber se você, naquele ponto, ainda acreditava em deus. Você acredita em deus hoje?
Ah... Acredito, mas não sei o que isso significa. Não tenho uma crença que se relacione com nenhum dogma ou nenhuma denominação. Tenho uma crença pessoal e subjetiva de que há uma entidade divina, mas não sei o que é nem onde está; não sei se é uma coisa ou uma pessoa, ou se são trilhões de coisas. Não tenho ideia do que seja o divino, mas ainda assim acredito nele.




*Gene Baur é autor, ativista e fundador da ONG Farm Sanctuary, que, entre outras ações, mantém fazendas para animais resgatados da indústria nos Estados Unidos. Ao participar de programas de TV, como no Daily Show com Jon Stewart, mostrado abaixo, busca chamar atenção para a causa de maneira conciliadora.

**Gary Yourofsky é ativista e palestrante pelos direitos dos animais. Já foi preso inúmeras vezes e causa polêmica com discursos considerados "ofensivos" ou por dizer que veganos são moralmente superiores a não veganos. Diz que a indústria envolvida em abusos de animais é responsável pelo maior holocausto já realizado (na entrevista abaixo, ao ser confrontado pela apresentadora sobre o uso do termo, afirma que ele é quem se sente ofendido com a comparação do holocasto animal ao holocasto humano, já que o primeiro "é muito maior, e ocorreu antes, durante e continua ocorrendo após Auschwitz").