Portugal. The Man antecipa novo disco com clipe interativo em prol de causas sociais

O vídeo para o single "Feel It Still" indica 30 ações que podem ser feitas para promover a mudança e lutar contra a apatia
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por Julia de Camillo
20 de Março de 2017 às 13:32

O Portugal. The Man havia passado mais de dois anos anos produzindo um disco chamado Gloomin + Doomin antes de descartar o trabalho e começar outro praticamente do zero. Para uma banda que lançou um álbum por ano entre 2006 e 2013, um hiato criativo era algo novo. “Eu pensei que estivéssemos trabalhando em direção a algo”, explica John Gourley, vocalista e guitarrista. A banda tinha por volta de 60 músicas, das quais a maioria estava pronta ou perto disso, mas não conseguia reduzi-las a um grupo de 12 ou 14 faixas que fossem coerentes juntas e se encaixassem.

Enquanto ainda insistia em Gloomin + Doomin, Gourley fez uma viagem à cidade natal dele, Wasilla, no estado norte-americano do Alasca. Ao ser questionado pelo pai sobre o andamento do projeto, Gourley teve uma espécie de epifania: “Percebi que nunca havia sido tão difícil para nós”. Foi então que tomou a “difícil decisão” de começar um disco novo. O grande sopro de inspiração aconteceu quando encontrou o ingresso do festival de Woodstock do pai. “Considerando tudo que está acontecendo agora no nosso país e no mundo, eu senti que havia muitas similaridades entre a geração dele e a minha”, Gourley lembra. Despontava a vontade de abordar de verdade o estado do mundo ao seu redor.

Com nome definido – Woodstock – e conceito traçado, Gourley e os colegas Zachary Carothers (baixo e backing vocals), Kyle O'Quin (teclados, sintetizadores, guitarra e backing vocals) e Jason Sechrist (bateria) debruçaram-se sobre o novo projeto. “O álbum, no fim das contas, é uma mistura de artistas e gêneros musicais. Eu quero que pareça um festival”, o frontman desenvolve. O grupo reproveitou algumas músicas de Gloomin + Doomin, abordando-as de maneira diferente. O processo de composição também foi longo, sendo que os novos acontecimentos na política norte-americana – "algumas das coisas mais loucas que eu já ouvi foram ditas durante essa eleição", ele explica, em referência à disputa presidencial entre Hillary Clinton e Donald Trump – forçaram Gourley a voltar e reescrever certas letras. “Nós não podíamos lançar um disco ‘fácil’. Agora, isso não quer dizer que todo o álbum seja político. Há músicas mais profundas, é claro, e eu acho bom que tenha algum entretenimento também, algo que não seja muito pesado.”

A primeira prévia de Woodstock é o single “Feel It Still”, uma faixa de electro pop dançante. Para acompanhar a música, o Portugal. The Man desenvolveu um clipe interativo que funciona como uma espécie de “caixa de ferramentas” contra injustiças sociais. “Toda a vibe de ‘Feel It Still’, ser um ‘rebelde apenas por diversão’, pareceu funcionar muito bem com o estado das coisas no momento”, explica Gourley.

No vídeo, o vocalista caminha por um mundo quase pós-apocalíptico enquanto “easter eggs” clicáveis vão aparecendo na tela. A cada clique, surge uma ação que uma pessoa pode tomar para promover a mudança e lutar contra a apatia. Quando o clipe chega ao final, as 30 ações são reunidas e redirecionam para sites em que se pode contribuir. Há desde uma conexão direta com a Casa Branca, um kit de estêncil para a realização de grafite de resistência e cartazes de protesto customizados até links para sites de doação a organizações como Planned Parenthood, Black Lives Matter e ACLU (União Americana pelas Liberdades Civis).

Após o lançamento, o clipe não passou despercebido pela mídia, e não exatamente de uma maneira favorável. Em uma parte do vídeo, um homem aparece lendo um jornal com o nome Infowars e em seguida o arremessa no fogo. Infowars é o site de Alex Jones, considerado um dos disseminadores da chamada fake news ("notícias mentirosas"). O "easter egg" que aparece nessa cena é justamente um que redireciona o espectador ao site da AdStrike, uma organização que combate esse fenômeno, além de discurso de ódio e desinformação. O resultado foi um texto no Infowarsem que Alex Jones diz que o vídeo é "pró-comunista" e está cheio de "propaganda marxista". Gourley se diz surpreso pela reação: "As pessoas entenderam como se fosse uma posição política e realmente não é. É, na maior parte, o que consideramos que são questões sociais", explica Gourley.

Feito em parceria com a agência de criação Wieden+Kennedy, o vídeo foi dirigido por Ian Schwartz e a equipe fourclops, da empresa Prettybird. “Eu acho que a ideia é apenas tentar contribuir, tentar ser parte do mundo e ajudar as pessoas que respeitamos”, Gourley define. Assista ao clipe abaixo e veja a versão interativa aqui.

Em Woodstock, o Portugal. The Man trabalhou com John Hill, Danger Mouse e Mike D (ex-Beastie Boys), sendo que os três já haviam sido produtores em outros álbuns da banda, além do colaborador de longa data Casey Bates, que esteve presente desde o debute. Em termos de parcerias com outros artistas, Gourley revela que a música favorita dele no disco foi gravada com Fatlip, do grupo de hip-hop Pharcyde – e produzida por Danger Mouse. “Ele é um rapper que nós ouvíamos na juventude”, Gourley conta. “Foi muito parecido com os nossos anos de formação tocando música, quando nós começamos a gostar de hip-hop e música no geral.”

O oitavo disco de estúdio do Portugal. The Man ainda não tem data de lançamento definida. “O álbum está pronto, acredito que deva sair no meio do ano”, diz Gourley. “A melhor coisa de me dedicar a isso e trabalhar como uma banda é que realmente parece que estamos lançando nosso primeiro disco”, ele acrescenta. “Parece ser uma banda nova.”

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