“Prefiro não lê-lo”, diz Arnaldo Baptista sobre autobiografia de Rita Lee

Ex-Mutantes é uma das principais atrações do festival Coquetel Molotov, que acontece este fim de semana no Recife
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Arnaldo Baptista
Fabio Heizenreder/Divulgação
por Lucas Brêda
20 de Out. de 2017 às 15:18

Arnaldo Baptista vai voltar ao Recife, e um aspecto bastante peculiar da viagem está deixando-o animado. “Estão marcando [para eu ficar] no mesmo hotel!”, ele conta, empolgado, recordando da última vez em que esteve na capital pernambucana e de que havia, no tal hotel, “passarinhos que descem na mesa”. O ex-Mutantes é uma das principais atrações do festival Coquetel Molotov, que ganha nova edição no próximo sábado, 21, e ele está aquecendo para a ocasião: “Espero que seja interessante para todo mundo”.

Desde que voltou aos palcos, em 2011, ele apresenta o show Sarau o Benedito?, uma espécie de apanhado de músicas solo, algumas coisas do Mutantes e outras covers. A apresentação até tem um setlist previsível, mas Baptista, que toca piano no palco, funciona de um jeito espontâneo – não há um roteiro e há espaço para covers. Um dos personagens mais importantes na história da música nacional, ele não costuma se apresentar com frequência, e até por isso o Molotov ganha caráter de ocasião rara com a escalação. “É um amor antigo, ele não fazia shows em festivais, mas amou tanto a experiência no Psicodália que topou fazer aqui também”, conta Ana Garcia, produtora e principal nome por trás do evento pernambucano.

O nome de Arnaldo Baptista é também curioso na escalação geral, uma amostra do que está sendo feito de mais relevante na música brasileira contemporânea: Rincon Sapiência, Linn da Quebrada, O Terno, Giovani Cidreira, Curumin, Kiko Dinucci, Kalouv, E a Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, Alessandra Leão, Luiza Lian, NoPorn, Attooxxa, AfroBapho e até a festa paulistana Mamba Negra. A banda norte-americana DIIV e o grupo espanhol Hinds ainda completam o line-up. Baptista não só é o mais velho, com 69 anos, mas sua produção solo mais importante aconteceu há mais de três décadas: os discos Lóki? (1974) e Singin' Alone (1982).

Entre os dois álbuns, ele prefere o mais recente. “Eu ainda estava tateando um modo de me expressar musicalmente”, recorda de Lóki?, pérola triste e histórica que encampou o sentimento de depressão pós-era hippie e, no caso dele, pós-saída do Mutantes. “No Lóki?, eu toco o melhor que podia, mas só no teclado – e com antigos integrantes do Mutantes. No Singin' Alone, eu fiz tudo sozinho, não tinha mais envolvimento com pessoas, ritmos, personalidades. Acho que, nesse sentido, eu sozinho, em termos instrumentais, é melhor”. Singin' Alone saiu no mesmo ano em que ele foi internado novamente em um hospital psiquiátrico – o Hospital do Servidor Público, em São Paulo – e acabou saltando do 3º andar do edifício, em um período difícil da vida dele.

Com uma rotina muito mais abrasiva, Baptista vive com a companheira Lucinha Barbosa entre Juiz de Fora, em Minas Gerais, e Belo Horizonte. Na capital mineira, acompanhou e se encantou com o show mais recente de Paul McCartney. “É muito interessante: um show de 3h e ele conseguia manter uma atenção. Tocou contrabaixo, piano, órgão. Adorei os fogos de artifício. O Paul foi muito interessante e o pessoal todo cantando junto”, conta. “Era muito longe, o Paul era um formiguinha [risos]”. Ele também vende desenhos e pinturas e trabalha em um novo disco, chamado Esphera, supostamente produzido por Fernando Catatau (Cidadão Instigado) há alguns anos, mas que não tem previsão de lançamento.

Há muito tempo, Baptista é obsessivo com alguns assuntos: amplificadores valvulados, carros elétricos, vegetarianismo e ETs. Qualquer assunto, seja sobre política, vida pessoal ou música, acaba esbarrando em algum desses tópicos. Desta vez, contudo, ele tinha algo novo a comentar: a autobiografia da ex-mulher e companheira de banda, Rita Lee, que saiu no ano passado recheada de comentários rancorosos sobre ele e Os Mutantes. “Interessante essa pergunta [sobre ter ou não lido o livro], mas eu prefiro não lê-lo”, ele diz, rindo. “Só soube de coisas das quais não me interessaria saber, então não quero ler. Eu não quero mais nada a ver com a Rita.”

Coquetel Molotov 2017
Cada vez mais firmado como um dos festivais mais antenados e relevantes no circuito brasileiro, o Coquetel Molotov, este ano, muda de lugar e chega ao Caxangá Golf Club, que, segundo Ana Garcia, “nunca foi ocupado da forma como estamos fazendo”. “Nem o público de Recife presenciou um festival com tanto verde – lá é quase uma selva com lagoas, árvores gigantes e muito verde”, ela acrescenta. “Teremos um público bom, vamos limitar as vendas, porque já entendemos que o Coquetel Molotov é um festival para realmente ser experienciado e, se tumultuar, não é possível enxergar as intervenções artísticas e curtir os espaços direito.”

Sobre o line-up, Ana conta que tentou reunir tanto artistas em ascensão nacional (Rincon Sapiência, Linn da Quebrada, Luiza Lian) quanto pedidos do público (Attooxxa, NoPorn), além de nomes internacionais interessantes (DIIV e Hinds) e até experiências de outros lugares do Brasil (a festa paulistana Mamba Negra). “Fiquei com a sensação de que todos os artistas que rodaram os festivais este ano passaram pelo Coquetel Molotov em 2016, então foi um desafio enxergar, já no começo do ano, quem estaria com material novo e em ascensão perto do fim do ano”, ela explica.

Ana também comemora que as atrações já tenham desenvolvido algum tipo de relação com o Recife. “Amo ficar sabendo que as bandas já começaram a fazer conexões com a cidade, Linn convidando Nega do Babado para participar do show, Rincon convidou Lia de Itamaracá [a nossa rainha], Kalouv convidou Benke [Ferraz], do Boogarins, e fiquei sabendo agora que Alessandra Leão convidou Kiko Dinucci”. Os ingressos para o Coquetel Molotov estão à venda no terceiro lote (R$ 100, com opção de meia-entrada ou entrada social, por R$ 80) no site do Sympla.

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