A reinvenção de David Guetta: monstro da EDM fala sobre a nova sonoridade dele

O DJ de 47 anos relembra as raízes underground e discute o disco o Listen
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David Guetta
Reprodução/Facebook
por NICK MURRAY
13 de Nov. de 2014 às 16:01

Comendo sushi no escritório da Atlantic Records em Manhattan, David Guetta não poderia estar mais animado: 30 anos após começar a tocar em festas e cinco anos depois de ter mudado o pop com hits de EDM como "I Gotta Feeling" e "Sexy Bitch", o DJ de 47 anos interrompeu a produção do último álbum dele, Listen, para que conseguisse incluir mais uma faixa – uma balada. “É uma música com uma mensagem”, diz ele de maneira orgulhosa, enquanto veste um colete de couro cheio de zippers. “É um pouco surpreendente um DJ produzir uma balada assim.”

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Após três anos de trabalho, grandes revisões e um divórcio bastante público da esposa e sócia Cathy, Guetta diz que ele queria criar o mais – e talvez o primeiro – disco introspectivo da carreira dele, começando com “algumas histórias pessoais” e as transformando em músicas. Almoçando lentamente, ele revelou a inesperada nova direção, explicando a crise existencial que o levou a isso e lembrando como o duo Daft Punk conseguiu o primeiro contrato dele com uma grande gravadora.

Como o disco mudou ao longo de três anos? O produto final era o álbum que você queria fazer?
Sim. A razão pela qual levou tanto tempo é que eu queria fazer algo que ainda não havia sido feito e eu queria me reinventar. One Love me tornou famoso pela combinação do urbano com o dance - que era nova na época, mas já foi feito muitas vezes. Eu realmente queria fazer algo diferente e foi um momento na minha vida e na minha carreira em que eu parei para pensar: Que tipo de vida eu quero? Eu quero fazer algo seguro, usar a minha receita e pensar, “OK, estão dando o meu melhor?” e olhar para a geração mais nova e me sentir inseguro. Eu não quero uma vida destas, sabe?

Quando você está no topo, o que resta se não o medo de cair? Eu nunca quero me sentir assim, então percebi que a melhor maneira de evitar isso é começar do zero. Até hoje eu estava começando com a batida e então escrevendo a música a partir dela. Desta vez estou começando com o piano, voz e guitarra, e então produzindo a música. Eu realmente mudei tudo, como a maneira em que eu estava trabalhando, as pessoas com quem eu estava trabalhando – tudo. Estou muito feliz, porque o resultado disto é que estou aqui com você, fazendo esta entrevista e estou animado.

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O que você aprendeu com este processo?
Eu passei bem, bem mais tempo compondo. É provavelmente o meu álbum mais pessoal. Até hoje eu estava fazendo muitas músicas sobre felicidade, amor, sexualidade e festas – que era basicamente a minha vida, sabe? Ultimamente, a minha vida pessoal esteve um pouco mais difícil, então reflete no disco, nas coisas sobre as quais estamos conversando, no tipo de acordes. Eu nunca fiz isso, porque para mim era sobre fazer as pessoas dançarem.

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Isso vai afetar o seu show ao vivo ou você vai tocar remixes e manter a mesma atmosfera?
Este disco seria incrível se reproduzido com uma banda ao vivo, mas não é exatamente o que eu quero fazer. Eu sou um DJ e acho que muitas, muitas pessoas são melhores do que eu no quesito de se apresentar com uma banda, então eu não quero competir com estas incríveis bandas de rock que sabem fazer melhor do que eu. Eu não faria algo mediano. Eu não vou dizer, “Ah, quero ser um artista, não quero mais ser DJ”. Eu passei a minha vida trabalhando como DJs para ser respeitado como artista, então agora que tenho sucesso, não vou dizer, “Ah, agora que sou grande, deixarei de ser DJ”.

Como a atitude das pessoas em relação aos DJs mudou desde que você começou?
Eu sou DJ desde antes da house music. Eu estava tocando funk e disco, New Wave. Eu era um dos DJs mais indies, mas ninguém numa balada sabia o nome do DJ. O conceito de DJ famoso nem existia, muito menos um DJ ganhando dinheiro. Nenhum de nós estava ganhando dinheiro. Eu sempre senti que a nossa música não era respeitada da maneira que deveria ser e eu sempre fiz de tudo para mudar isso. Acho que faço parte das pessoas que fez isso mudar, mas nunca achei que seria tão grande.

Você ainda estava em Paris quando o Daft Punk surgiu?
Na realidade, Thomas [Bangalter, do Daft Punk] é provavelmente a razão pela qual estou aqui hoje. Eu era DJ residente uma balada chamada Queen in Paris e eu criei um conceito que era completamente novo. É bem louco quando penso sobre isso: a ideia era chamar DJs convidados, que é algo bem comum hoje em dia, mas na época era totalmente revolucionário. Eu chamava pessoas como Danny Tenaglia, Louie Veja, David Morales e DJ Pierre – todas estas pessoas eram de Detroit. E Thomas e Guy-Manuel [do Daft Punk] sempre estavam lá também.

Em 2001 eu fiz um disco e disse, “Thomas, posso te mostrar algo?” Ele era um grande fã. Ele ouviu e disse, “Isso é muito bom”. Ele chamou o presidente da Virgin na França – que era o selo dele – e, disse “Ei, estou aqui com um amigo”. Na época, era Deus ligando para o presidente da companhia. Foi uma loucura. Ele era um dos artistas mais quentes no mundo. E foi muito engraçado porque eu não fiz músicas por anos e depois de ter voltado, exatamente dois dias depois eu um disco pronto. Um dia antes eu estava no escritório da companhia e não consegui falar com ninguém. Mas, como era o Thomas ligando, consegui um contrato no mesmo dia.

Quando você se encontra indo em direção ao pop?
Tudo aconteceu ao mesmo tempo. Primeiro, eu estava trabalhando em um novo álbum e eu estava tocando quando Kelly Rowland apareceu. Ela me perguntou de quem era a faixa que estava tocando e eu disse que era a minha própria música. Ela disse, “Uau, adorei! Posso tentar algo?” E para mim aquilo foi uma loucura – e fizemos “When Love Takes Over”.

Na mesma semana, recebi uma mensagem do Will.i.am. dizendo “Eu amo Love is Gone. Você consegue produzir algo semelhante para mim?” e eu fiz “I Gotta Feeling”. Quando eu estava tocando “When Love Takes Over”, com a Kelly em Londres, Akon ia se apresentar logo depois de mim. Ele disse, “Cara, eu amo sua música”, e eu respondi, “Vamos trabalhar juntos”, acabamos fazendo “Sexy Bitch” na mesma noite.

Então estas três músicas aconteceram quase no mesmo mês. E eu acho que aquele foi um momento definitivo para mim e para a música pop, porque estas canções foram aceitas no rádio, coisa que não acontecia antes, e abriu muitas portas para muitos DJs. Este foi o momento e, de novo, quando fizemos “Titanium” – foi algo que mudou minha carreira. E eu acho que “Dangerous” também teve o mesmo efeito, pelo menos para mim.

Você sente falta do seu set anos 1990, quando tocava coisas como funk e música underground?
Às vezes sim. O lance é que agora toco em shows enorme ou em festivais. É muito raro eu tocar para menos de 10 mil pessoas, então, obviamente, seria difícil tocar algo como deep house que não é muito popular. Isso não poderia ser tocando em grandes festivais – não funcionaria.

O que você anda escutando?
Hozier, "Take me to Church" – eu amo isso. E todo o trabalho da Sia. Mas se estou em casa escuto Marvin Gaye e Stevie Wonder.

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