Relembre a trajetória de Cássia Eller, que faria 50 anos nesta segunda, 10

Um furacão em cima do palco, cheia de timidez nos bastidores, a cantora deixou uma marca inconfundível na história da música brasileira
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por Guilherme Bryan
10 de Dez. de 2012 às 14:29

O texto abaixo foi publicado na edição 63 da Rolling Stone Brasil.

O mundo ficou muito mais careta depois que Cássia Eller morreu.” A frase da servidora pública Maria Eugênia Vieira Martins, que foi companheira da cantora durante 14 anos, pode soar exagerada, mas talvez não seja. Basta observar a influência de Cássia sobre artistas de vozes atuais, com timbres graves: de Paula Fernandes a Ana Carolina, nenhuma delas é tão ousada, criativa, libertária e tem tamanha potência vocal. Enquanto mostrava o seio, coçava os genitais e cuspia no chão, Cássia Eller dava um toque bem pessoal a canções tão variadas quanto às gravadas por artistas como Edith Piaf, Chico Buarque, Nação Zumbi e Beatles. Porém, longe dos palcos, ela surpreendia pela timidez e pela dificuldade em lidar com o crescente assédio dos fãs.

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“Eu sinto orgulho de ter convivido com essa pessoa que dá vida nova às músicas que canta. Sinto muita falta da voz e do cheiro da pessoa com quem eu dividia a vida”, emociona-se Maria Eugênia, que ainda mora no apartamento no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro – o mesmo da música “All Star”, composta por Nando Reis para Cássia. Ela vive com o filho da cantora, Francisco, o Chicão, 18 anos, de quem possui a guarda definitiva desde 2002. “O começo foi bem difícil, por ter que conviver com a tristeza dele pela ausência da mãe, somada a angústia e incerteza de ficar com ele”, conta.

A mãe de Cássia, Nanci, recorda que o dom da filha começou a se manifestar quando ela tinha 1 ano e 2 meses, quando aprendeu a cantar ouvindo músicas com a babá. “Aos 14 anos, o pai comprou um violão de presente para ela. Pensei em colocá-la numa escola, mas ela não quis. Morria de vergonha, e me pediu para comprar o método número 1 de violão”, relata Nanci. “Achei que não fosse aprender, mas, na semana seguinte, ela me pediu para comprar o número 2.” Em Belo Horizonte (MG), onde mora, Nanci prepara uma missa em homenagem à filha, morta no dia 29 de dezembro de 2001.

Como a mais velha de cinco irmãos, cássia Rejane Eller – nascida no Rio de Janeiro em 10 de dezembro de 1962 e batizada em homenagem a Santa Rita de Cássia – adorava assustá-los. “Ela sempre foi muito levada. Tinha mania de batucar em móveis e panelas, e quebrar copos para fazer barulho. Imitava Maria Bethânia e Ney Matogrosso muito bem, com os gestos e botando cabelão”, relembra, nostálgica, a irmã Cláudia Mara. Nanci acrescenta uma memória que exemplifica o jeito único, misto de personalidade travessa com uma inseparável timidez, uma das marcas de Cássia. Já famosa, a cantora foi se apresentar com Zélia Duncan, Adriana Calcanhotto e a própria Bethânia, a qual começou a imitar nos bastidores, sem saber que era observada pela verdadeira, que, escondida das vistas de Cássia, se acabava, aos risos. Quando descobriu, Cássia morreu de vergonha e quase não subiu ao palco.

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