Rio das Ostras Jazz & Blues Festival 2015 quebra paradigmas e apresenta ao público o gênero zydeco

A 13ª edição do já tradicional festival no litoral fluminense teve que enfrentar a crise que assola as cidades que dependem dos royalties do petróleo
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por Antônio do Amaral Rocha, de Rio das Ostras
25 de Ago. de 2015 às 19:39

Sem aportes de verbas oficiais e recebendo apoio apenas da Prefeitura, os produtores tiveram que arcar com os custos da empreitada desta edição do Rio das Ostras Jazz & Blues Festival. Isso era visível já a partir de outdoors espalhados pela cidade anunciando o evento e ressaltando que todo o festival estava sendo bancado pela iniciativa privada. No caso, obra do compromisso do produtor Stenio Matos. Com a grana mais curta, o festival teve o número de palcos reduzidos, de quatro dos anos anteriores para três nesta edição. Mas o fato pouco foi notado pelas 50 mil pessoas que passaram pelos espaços durante os três dias de festa, regada a blues-rock, soul, jazz (menos presente) e até o gênero ainda não popularizado no Brasil, o zydeco.

Matt Schofield e Cris Crochemore foram os destaques de quinta-feira, 20

Na abertura, dia 20, a Kuarup, orquestra local, criada há 10 anos, e dirigida pelo maestro Nando Carneiro, tocou os clássicos de MPB de seu repertório e homenageou Nana Albuquerque, clarinetista, falecida recentemente. Em seguida, o gaúcho Cris Crochemore com uma reunião denominada Blues Groovers (Otávio Rocha do Blues Etílicos na guitarra, Beto Werther, baterista e Ugo Perrotta, baixista da Big Allanbik), apresentou um set de blues-rock, todo cantado em inglês a partir dos seus três CDs já lançados, numa apresentação envolvente. Fechou sua participação com a canja da “três s”, “saltitante, sapeca e simpática” de sobrenome famoso, Luisa Casé, que fez releituras de clássicos do blues.

O guitarrista inglês Matt Schofield, um dos grandes nomes desta edição, fechou a programação do primeiro dia em mais um set de blues-rock, na verdade uma fusão que inclui jazz e funk, também em formato trio com bateria e órgão. Além de guitarrista preciso, Matt tem voz marcante e carisma e agradou bastante ao público presente no palco Costazul, o que se pôde medir pelas ovações recebidas. Esse é mais um nome que o público brasileiro não especializado dificilmente conheceria se não fosse através de festivais do tipo de Rio das Ostras. A primeira noite fechou em alto astral.

Clone de Janis Joplin foi surpresa na sexta-feira, 21

A segunda noite, sexta 21, teve como uma espécie de “esquenta” a apresentação da banda Segundo Set Instrumental, quarteto (baixo, bateria, teclado e sax) vencedora do concurso de bandas promovida pelo festival no ano de 2014. O quarteto fez um som fusion que mixa ritmos brasileiros, blues e black music. Em seguida foi a vez do já experiente vocalista Gabriel Silva e banda, que começa a despontar depois de sua participação no The Voice Brasil.

O público eclético presente ao espaço Costazul, depois destes dois sets, teve a oportunidade de conhecer um dos mais carismáticos artistas escalados para esta edição do festival: o baterista sorridente Omar Hakim, que veio acompanhado de banda com dois teclados (Rachel Z e Scott Tibbs), guitarra (Nick Moroch), sax/flauta (Bob Franceschini) e baixo (Jerry Brooks). Só para situar, basta dizer que Omar é o baterista que trabalhou num dos discos mais tocados da história da música pop, o Brother in Arms do Dire Straits. A performance arrebatadora de Hakim se caracterizou pelo mais autêntico fusion e causou certa surpresa o fato de todos os músicos tocarem lendo partituras. No momento das apresentações, já no final do show, ele chamou os seus músicos de “Hakim Boys” e surpreendido pela acolhida calorosa, agradeceu diversas vezes, visivelmente emocionado.

Corria à boca pequena que um possível clone de Janis Joplin ia tomar o palco Costazul. E assim ficaram conhecendo Carolyn Wonderland, uma figura doce e bonita, de longos cabelos ruivos, com forte sotaque texano e dona de um estilo muito próprio de tocar e cantar. Tocando guitarra e slide guitar e acompanhada por uma banda mínima de teclado e bateria, Carolyn fez um set agradabilíssimo de rock, blues, soul, country e baladas e foi escolhida pelos jornalistas presentes como o melhor show desta edição do festival. Pela reação de Carolyn, ela mesma deve ter sentido que foi um dos melhores público que ela já teve, tamanha a sinceridade de seus agradecimentos, que fez apontando na altura coração com os olhos fechados.

O quinto e último show da noite foi um prêmio à carreira prodigiosa do jovem bluseiro Artur Menezes. Na edição de 2012 deste mesmo festival, Artur tocou num dos palcos menores, o da Praça São Pedro e três anos depois ao ser escalado para fechar uma noite no palco principal demonstra uma evolução surpreendente. E isso ficou claro no seu desempenho neste show, acompanhado de Wladimir Catunda na bateria, Nino Nascimento no baixo e Mateus Schanoski nos teclados, cuja figura lembra o tecladista Leon Russel, com cabelos longos e longo cavanhaque. Artur fez o repertório autoral de Drive Me, seu terceiro disco e também lembrou B. B. King e terminou por arrebatar o público de 15 mil pessoas desta concorrida noite.

Conheça Dwayne Dopsie e o estilo Zydeco, atrações do sábado, 22

No palco da Praça São Pedro, Omar Hakim repetiu sua apresentação ao meio-dia para um público menor e conseguiu uma interação muito maior pela proximidade com as pessoas que o espaço proporciona. No horário da tarde, no palco da Lagoa do Iriry, Artur Menezes e Matt Schofield fizeram uma segunda apresentação. Esse espaço não é frequentando pelo grande público, mas pelos aficionados, pois fica distante do centro da cidade e neste dia teve o público aumentado em comparação com as edições anteriores. Artur (com canja do gaitista Jefferson Gonçalves) e Matt mais uma vez arrebataram a plateia.

A música instrumental brasileira foi escalada para abrir a terceira noite com o show do experiente gaitista Gabriel Grossi, acompanhado de violão (Caio Marcio), baixo (Bruno Aguilar) e bateria (Cassius Theperson). Grossi fez temas de Hermeto Pascoal (suíte “Norte, Sul, Leste, Oeste”), Villa Lobos (“Trenzinho Caipira”) e também temas autorais, uma delas, “Toca Raul” que homenageia Raul Seixas e Raul de Souza. Como estava previsto, Gabriel chamou ao palco o multi-instrumentista Arismar do Espírito Santo e juntos, com Arismar na guitarra, fizeram uma impressionante versão de “Lamento Sertanejo” (de Dominguinhos e Gil), além de músicas de Arismar (“Chutando o Coco” e “Cadê a Marreca”). Numa performance impressionante e de tirar o fôlego, a dupla proporcionou ao grande público um show superlativo em todos os sentidos.

E a festa continuou com mais um show bastante esperado. O guitarrista Robben Ford, seguramente um dos 100 maiores em qualquer lista, que já esteve em Rio das Ostras em outras edições, veio acompanhado do baixista Brian Allen e do baterista Wes Little. Robben é um músico que não faz concessões ao fácil e neste show encerrava cada um dos seus temas de blues-rock abruptamente, sem as poses características de um guitarrista performático. Como fazia uma temperatura baixa no momento de seu show, trocava de guitarra a cada música e se obrigava a afinar novamente o instrumento, sempre pedindo desculpas, aparentemente falando consigo mesmo. Não sendo daqueles músicos expansivos, Robben corria o risco de passar a ideia falsa de um virtuose frio, mas com o correr do show o público foi tomando contato com seu canto (nada marcante), mas com uma das formas de tocar mais limpas e precisas que já pode ver. Próximo ao fim do show, Robben deixou o palco nas mãos do baixista e do baterista que travaram um típico duelo e logo depois só o baterista. Com a volta dos três, o show continuou impecável até o final.

O britânico Jean-Paul ‘Bluey’ Maunick é o último remanescente da banda Incognito que ele fundou e lidera desde 1979. Mesmo mudando os membros, a característica de um grupo de soul, funk e acid jazz não se perdeu. Nesta apresentação a Incognito lotou o palco com dois guitarristas (Jean Paul e Francisco Sales), trompete (Sidney Gauld), saxofone (James Hunt), trombone (Alistair White), baixo (Francis Hylton), bateria (Francesco Mendolia), teclados (Matthew Cooper), percussão (João Caetano), além de três vocais (Tony Momrelle, Vanessa Haynes e Katie Hector). Ao todo, doze elementos que proporcionaram uma massa sonora de arrepiar, em temas que reproduzem as características e influências de Steve Wonder, Marvin Gaye, Earl, Wind & Fire, Koll & the Gang etc. e convidam à dança, como se fosse um grande baile. “Brazilian Loves Affair” (de George Duke) foi um tema que chamou bastante a atenção da plateia talvez até pelo uso de instrumentos brasileiros na percussão e de passagens que tenta ser um samba. Além de liderar os trabalhos no palco, Jean-Paul também foi responsável por um emocionado discurso que terminou afirmando que “a música é a linguagem do coração”, encerrando a penúltima atração da noite.

Mas ainda nesta noite de sábado, 22, já passando da 1h30 da madrugada, o público não tinha a menor ideia do que estava por vir e nem o que esperar do último show programado, o do acordeonista Dwayne Dopsie e seu estilo zydeco. A apresentação começou só com a banda The Zydeco Hellraisers no palco (duas guitarras, baixo e bateria), logo acrescida de washboard e minutos depois aconteceu a entrada triunfal de Dwayne e seu acordeon. O que se viu a partir daí foi algo inimaginável para um festival de jazz e blues, diriam os puristas. Durante duas horas e repetindo a exaustão neste tempo não mais que cinco temas (entre eles, “No Woman, No Cry”, “Everytime you go, everytime you stay...”) e perguntado “Rio de Ostras vocês estão prontos?”, o sanfoneiro fez a maior parte do seu bailão fora do palco, no meio do público, dando um trabalho redobrado aos seguranças. Mas nada impediu que Dwayne se arriscasse e expusesse ao perigo. Rolou no chão tocando o acordeon, gritou, esgoelou-se, correu, pulou, suou em bicas e perdeu peso, dividindo o perigo com seu músico de washboard. Em dado momento, chamou seis meninas ao palco, número que chegou a quinze na primeira vez e repetiu a mesma convocação outra vez, sempre incentivando a dança, o que era desnecessário. Enfim, uma grande festa de encerramento que só os produtores sabiam, de antemão, o resultado. Felizmente ou infelizmente não houve bis, pois o show já foi um grande e demorado bis. Dwayne fez uma apresentação como se fosse a última de sua vida.

O encerramento oficial desta edição de 2015 se deu no domingo, 23, no palco da Praça São Pedro com o show da banda Incognito e à tarde no palco
da Lagoa do Iriry com a apresentação de Robben Ford.

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