Show de Roger Waters em SP reflete a polarização do atual cenário político brasileiro

Acirrado clima político fez da apresentação uma guerra entre #EleNão e #ForaPT

Paulo Cavalcanti Publicado em 10/10/2018, às 09h28

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Camila Cara

Roger Waters não é o tipo de figura que foge de uma boa polêmica. No final de 2017, ele passou as férias no Brasil e aproveitou para dar algumas entrevistas, já com a intenção de promover a turnê que se inicia agora no país. Naquela época ele sabia que tocar aqui em época de eleição seria como estar no olho do furacão, mas talvez não tivesse ideia de quanto o clima estaria tenso. A inquietude e polarização predominantes na sociedade permearam a apresentação da turnê Us + Them, ocorrido na última terça, 9, no Allianz Parque, em São Paulo.  

Desta vez, o ex-baixista do Pink Floyd, aos 74 anos, resolveu não prestar homenagem a um álbum especifico de sua antiga banda, como já havia feito antes com The Dark Side of The Moon e The Wall. Na verdade, Us + Them se assemelha a um “grandes sucessos” do Pink Floyd, com algumas faixas solo do músico plantadas no meio. De qualquer forma, Waters conseguiu criar um espetáculo conceitual, um libelo globalista, anticapitalista e com uma posição contrária à política norte-americana, colocando o presidente dos Estados Unidos Donald Trump como o principal alvo. Ao logo da apresentação, o músico também fez alguns discursos defendendo a causa da palestina e também deixou claro seu posicionamento “antifascista” e contra a polícia e o militarismo.

Mesmo carregando conceitos um tanto quanto vagos e maleáveis, o show funcionou principalmente devido à parte cênica impecável. A produção do espetáculo é exemplar, Waters usa todos os recursos tecnológicos possíveis para cativar a plateia. Assim como aconteceu nas turnês anteriores, o gigantesco telão de alta definição foi a grande estrela, proporcionado um delírio cinematográfico, repleto de imagens contundentes e animações surreais que complementavam as mensagens das canções. No meio disso, luzes pulsantes e cortinas de fumaça ajudavam a reforçar o clima teatral da apresentação.

Por volta das 21h20, a apresentação teve início com a dobradinha “Speak to Me” e “Breathe”, ambas do Pink Floyd, faixas lançadas no álbum clássico The Dark Side of The Moon (1973). A partir desse momento, Waters e seu batalhão de instrumentistas virtuosos (incluindo as cantoras da banda indie Lucius, de Los Angeles) se mostraram musicalmente impecáveis, emulando à perfeição o som clássico do Pink Floyd durante as mais de duas horas que se seguiram.

O músico tocou também algumas relativas obscuridades do Pink Floyd como “One of These Days” (do álbum Meddle, de 1970) e “Welcome to the Machine” (de Wish You Were Here, de 1975) além de outros hits de sua antiga banda como “Time” e “The Great Gig in The Sky” (ambas também de The Dark Side of The Moon). Do projeto solo, Waters apresentou algumas faixas do disco mais recente Is This the Life We Really Want?, como “Déjà Vu” e “The Last Refugee”, entre outras que, apesar de pouco conhecidas, não chegaram a atrapalhar o fluxo geral da apresentação.

A primeira parte do set de Waters teve como ponto alto as canções “Wish You Were Here” (homenagem ao antigo líder do Pink Floyd, o trágico Syd Barrett) e a sequência “The Happiest Days of Our Lives” e “Another Brick in The Wall Parts 2 & 3” (de The Wall, de 1979), que foram recebidas com enorme entusiasmo pelo grande público presente. Neste momento, subiu ao palco um grupo com cerca de uma dúzia de crianças da periferia paulistana, vestindo macacões laranjas de presidiário. Depois de fazerem coreografias e marcharem ao som das letras de combate à militarização, os jovens tiraram as vestimentas e revelaram camisetas exibindo a palavra “Resist” (Resista).

Quando a canção terminou, a palavra permaneceu no telão. Sem perder tempo, a plateia, principalmente aqueles que estavam nas cadeiras, começaram a entoar #elenao, a hashatg usada por quem se opõe ao candidato à presidência Jair Bolsonaro. Mas isto não durou: houve uma reação rápida e à altura, quando parte do público começou a berrar “fora PT” e “mito”, fazendo alusão a Bolsonaro. Mas iria piorar. Houve um intervalo de dez minutos, e neste tempo o telão seguiu exibindo palavras de ordem. Em um dado instante, apareceram projetados nomes dos países que Waters considera como apoiadores do fascismo, e o Brasil estava na lista, com o nome de Bolsonaro em destaque. Foi mais um momento para os oponentes do ex-militar erguerem a voz com um sonoro “ele não”. Já os simpatizantes do candidato seguiram ofendendo o ex-presidente Lula e o PT. Houve tensão na platéia VIP, com um ou outro fã se ofendendo mutuamente e um ameaçando partir para cima do outro. Os seguranças olhavam tudo aquilo com desconfiança, mas felizmente não houve agressão física.

O segmento final da apresentação começou com duas faixas de Animals (1977): “Dogs” e “Pigs (Three Different Ones)”, durante as quais o telão exibiu imagens ridicularizando e castigando veementemente Donald Trump. Enquanto isto, o enorme porco inflável, presente nos shows desde a época do Pink Floyd, flutuou por cima do público. Waters revisitou outra vez The Dark Side of The Moon, com as consagradas “Money” e “Us and Them”, também muito festejadas pelos fãs. Na primeira, o telão exibia, de forma irônica, imagens de milionários e ícones capitalistas. Já “Us and Them” apresentou cenas de ativismo como o feito pelo Black Matter Lives além de reforçar o sofrimento dos refugiados. O telão mostrava cenas de guerra, atrocidades e mutilações, especialmente aquelas ocorridas na região da Palestina – Waters é um oponente feroz à atuação do Estado de Israel na região. Ele retornou ao disco solo com "Smell the Roses". Em um momento, o músico chegou a simular que estava sendo torturado, tornando o clima tão pesado e opressivo que muita gente começou a ir embora do estádio.

O Pink Floyd voltou à voga com “Brain Damage” e “Eclipse”, mais duas de The Dark Side of The Moon que, sem dúvida, foi o álbum mais valorizado da noite em termos de repertório. “Eclipse” proporcionou um dos momentos mais belos, poéticos e inesquecíveis do show, com o jogo de luzes formando o prisma da icônica capa do álbum e um imenso globo fazendo papel de lua.

Próximo ao final do show, Waters ensaiou um discurso, mas teve que encarar uma violenta onda de vaias. Ele sorriu e levou na esportiva: “Bem, é por isso que falo que a América do Sul é sempre um lugar diferente!”. Quando o barulho acalmou e ele finalmente conseguiu falar, declarou com calma: “Daqui a três semanas, vocês vão eleger o novo presidente do seu país. Vocês sabem a minha opinião e como eu trato o fascismo”. Desta vez, foi aplaudido, emendando uma pungente e despida versão para “Mother”, durante a qual a hashtag #elenao foi exibida no telão – outro momento que gerou tantos aplausos quanto vaias. A power ballad “Comfortably Numb”, uma das mais celebradas canções do álbum The Wall, veio em seguida, sendo entoada por cerca ds 40 mil presentes no local.

Por volta de 00h10, estava tudo encerrado. Foi uma noite repleta de música magistral, mas também cheia de tensão, divisão e conflito, onde a beleza se misturou a aspectos questionáveis do ser humano. Com tanta coisa acontecendo, quem estava lá não vai se esquecer tão cedo da experiência. Ao final, Rogers Waters parecia estar particularmente satisfeito. Ele costuma falar que sua música é feita para tirar as pessoas da passividade e foi exatamente o que aconteceu em São Paulo. O músico segue com a turnê de Them + Us pelo Brasil, e se apresenta nesta quarta, 10, novamente no Allianz Parque. As próximas paradas são em Brasília, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Curitiba e Porto Alegre.