U2 respeita celebração de The Joshua Tree e faz reverência a brasileiros em show em SP

Quarteto irlandês iniciou na última quinta, 19, uma série de quatro shows no Estádio do Morumbi, pela turnê que comemora as três décadas do clássico álbum
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por Lucas Brêda
20 de Out. de 2017 às 13:11

O U2 retornou a São Paulo seis anos da última passagem, também no Estádio do Morumbi, em 2011. Na ocasião, a banda de Bono excursionava com a turnê 360º, cujo principal atrativo era a dinâmica com um palco no centro da plateia. Desta vez, com quatro shows agendados no Morumbi – um recorde para o local –, o quarteto irlandês trouxe “novidades antigas”: o álbum The Joshua Tree, que completa três décadas de vida e é motivo e tema de toda a turnê (ainda que a banda tenha lançado e praticamente ignorado no show o disco Songs of Innocence, de 2014).

A atração de abertura, o ex-Oasis Noel Gallagher começou tocando para um público ainda razoável, às 19h30, mas quando acabou, cerca de uma hora depois, o Morumbi já estava pelo menos 70% cheio. O U2 subiu ao palco menos de uma hora depois, com a explosiva "Sunday Bloody Sunday" e, àquela altura, o estádio não só estava abarrotado de pessoas, mas também estava carregado de energia: a plateia de pé berrando os versos de um dos maiores hits da banda.

Com o formato da atual turnê, o U2 sugeriu um começo eletrizante (dos hits “New Year's Day”, “Bad”, “Pride (In the Name of Love)”), no qual a banda tocou próximo ao público, em um palco pequeno montado no meio da Red Zone (o equivalente à “pista VIP”), para depois assumir o espaço principal. Lá, o motivo da excursão, The Joshua Tree, foi tocado na íntegra, do popular lado A (de “Where the Streets Have No Name”, “I Still Haven't Found What I'm Looking For”, “With or Without You”) às menos conhecidas da outra metade (“In God's Country”, “Trip Through Your Wires”).

É interessante que o U2 realmente tenha respeitado o clássico álbum de 1987, tocando-o por inteiro e na ordem – inflando a sensação de que aquele um show único, e não apenas mais um show do grupo –, ainda que isso tenha custado algumas performances menos celebradas. O telão também foi inteiramente pensado como um plano de fundo para toda a extensão do palco, reproduzindo imagens da natureza (a árvore do título do disco foi figura recorrente), fotografias, mensagens políticas (especialmente contra o presidente norte-americano Donald Trump) e situações mundanas. O próprio quarteto irlandês, aliás, foi frequentemente negligenciado no telão, o que acabou valorizando bastante a experiência sonora, afinal, não eram os rostos nítidos de Bono ou The Edge que estavam sendo venerados no Morumbi.

Assim como quase todos os shows em estádio no Brasil atualmente, o U2 recebeu uma plateia elitizada, reduzida de fãs ferrenhos, já que apenas o quinhão mais rico deles se fez presente (devido aos altos preços de ingressos). Até por isso, performances mais sombrias e agressivas como "Exit" – precedida por um vídeo anti-Trump e durante a qual Bono apareceu gritando sinistramente para uma câmera em preto e branco – foram recebidas com aplausos pouco mais que protocolares. Já as canções mais melódicas e de clima esperançoso pelas quais a banda – apesar do passado pós-punk – é mais conhecida hoje fizeram a noite em termos de festa, de “Beautiful Day” a “With or Without You”.

Em geral, as guitarras estridentes e minimalistas de Edge continuam capazes de preencher todo um estádio, enquanto Bono segue com o gogó intacto, entre gracejos em português e curtas mensagens motivacionais ou políticas. O baterista, Larry Mullen Jr., sequer perdeu o penteado – usando uma camiseta com a frase "censura nunca mais" estampada em português – e colocou a plateia para pular, fazendo tremer as estruturas de arquibancada do Morumbi em "Elevation" e "Vertigo". O final ainda teve a nova "You're the Best Thing About Me", que pouco acrescenta ao legado sonoro do U2, uma homenagem às “mulheres que lutam pelos seus direitos” em "Ultraviolet (Light My Way)" e a balada máxima "One" para fechar a tampa.

Em "Ultraviolet (Light My Way)", aliás, aconteceu o ponto máximo de reverência dos irlandeses à cultura nacional, com fotos das brasileiras Tarsila do Amaral, Irmã Dulce, Taís Araújo e Maria da Penha aparecendo ao lado de nomes como Ellen DeGeneres, Hillary Clinton, Ruth Ellis e Angela Merkel no telão (claro, para a loucura do público). Antes, Bono já havia elogiado os remédios genéricos (podem ser comprados pela população mais pobre) e até citado Cazuza e Renato Russo durante uma breve cover de "Heroes" (David Bowie). Isso sem contar nas diversas vezes em que ele falou em português e elogiou o país repetidamente.

O U2 sustentou o retorno a São Paulo (que rende ainda outros três shows no mesmo estádio, nos próximos dias) com performances raras de um clássico como The Joshua Tree somando-se ao cardápio usual do quarteto. O formato de palco (especialmente o telão largo) e a ausência de hits certos (“City Of Blinding Lights”, “Stuck In A Moment You Can't Get Out Of”) também foram indicativos de que o U2 não está exatamente sentado em fórmulas, e sabe como poucos trabalhar um show de grandes dimensões. Na próxima vinda, espera-se outras novidades: músicas novas (afinal, não houve espaço no setlist para sequer uma música do último disco do grupo, Songs of Innocence, de 2014).

Noel Gallagher
A atual turnê do U2 tem como cortesia um ex-Oasis na abertura. Noel Gallagher, prestes a lançar o terceiro disco com a banda High Flying Birds, ele até parecia uma atração menor do que sua história representa. O Gallagher mais velho, contudo, não se sentiu incomodado com isso – na verdade, soou até mais confortável longe do holofote principal, como fazia na antiga banda e gozando da liberdade artística que a posição permite.

Gallagher até tocou o novo single (a animada "Holy Mountain"), mas só levantou o público do U2 ao evocar alguns hits ("Wonderwall", "Don't Look Back in Anger") e outras queridinhas ("Half the World Away", "Little by Little", “Champagne Supernova”) do Oasis. Fosse um show solo, os singles dos dois primeiros álbuns dele pós-Oasis (“Everybody's on the Run”, “In the Heat of the Moment” ), seriam mais bem recebidos, assim como a esperançosa derradeira, “AKA... What a Life!”, dedicada a Gabriel Jesus, atacante brasileiro do Manchester City (time inglês do qual Noel é fã).

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