- ILUSTRAÇÕES ÍNDIO SAN

Na Barriga da Besta

Um relato cru e frio da rotina de crimes, vingança e crueldade de uma das áreas mais perigosas e pobres da zona sul de São Paulo

Por Yara Morais Publicado em 22/02/2010, às 18h01

"Menina, você não é daqui, não!" a voz vem de um rapaz alto, de olhos verdes e cabelos negros, que bebe cerveja diante do balcão de um boteco nada convidativo. Me encarando, ele diz para o amigo ao seu lado: "Aí, meu velho, não tô falando que os playba agora tão subindo o morro!? Tá fazendo o que aqui, menina?"

Sem água potável em meu barraco, eu estava ali apenas com o objetivo de comprar um refrigerante para matar a sede. Mas respondi a verdade, detalhadamente: contei que era uma estudante de jornalismo, que há quatro dias alugara um barraco durante um mês para morar naquela região porque esse era o único jeito de eu fazer meu trabalho de conclusão de curso cujo tema era "periferia". Contei que a Zona Sul de São Paulo foi o primeiro lugar que me veio à cabeça, que sem conhecer ninguém peguei a mochila e fui para o Capão Redondo, onde andei horas por Jardim Ibirapuera, Jardim São Bento, Parque Santo Antônio, e que, finalmente, decidi ficar ali, no Morro do Piolho. Que foi Dona Bete, uma moradora local, mãe de dez filhos - nove deles presos -, quem me ajudou a encontrar um barraco para alugar por apenas R$ 65 mensais.

Mas não contei que eu tinha a nítida sensação de que tudo na minha vida mudaria depois dessa experiência. Nem que minha mãe dizia: "Você é mesmo doida", ou que parti para a Zona Sul levando uma TV de 14 polegadas, um colchonete e uma mochila nas costas com dois pares de tênis, jeans, blusas, um velho skate, R$ 80, um cartão telefônico e um bilhete único, sem saber que lá eu viveria situações que nem o mais experiente dos repórteres policiais jamais presenciou ou sobreviveu para contar.

Também não contei do medo quase palpável que me acometeu no dia em que cheguei ao Morro do Piolho e ouvi, na primeira esquina que virei: "Vacilou é assim memo (sic), os maluco degola! (sic)". Guardei para mim aquela primeira tarde em meu novo lar, quando entrei no barraco, joguei as coisas ali no chão mesmo, abri o colchonete e caí no sono, para acordar por volta das 11 da noite, tomar coragem, abrir a porta e me deparar, lá de cima, com uma das imagens mais incríveis que eu já vira: até onde a vista alcançava, as luzes de milhares de casas e barracos pareciam formar uma constelação.

O rapaz no bar, então, baixou a guarda, deu um último gole na cerveja e se apresentou. Seu nome era Leo e se definia como "o braço direito do sistema", o homem de confiança de quem comanda as operações no Morro do Piolho - este controlado pela organização criminosa Primeiro Comando da Capital, o PCC. O que Leo não havia dito é que "o sistema" era, na verdade, seu irmão mais velho, Gabriel, com quem eu já havia cruzado pelo morro sem saber quem era.

Leo fez questão de me explicar o que todos os moradores já haviam me dito previamente: na favela, ninguém vê nada, ninguém fala nada. Essa era a lei. Na despedida, após quase duas horas de conversa, ele fixou os olhos nos meus e me deu um forte aperto de mão, transmitindo a certeza de suas palavras e o peso das consequências se eu não as aceitasse como regra.

Naquele dia, o céu estava azul como eu nunca havia visto antes. Embaixo do sol radiante, moleques só de bermuda e chinelo corriam, soltavam pipas, rodopiavam os peões, disputavam bolinhas de gude. As crianças brincando e eu reparando cada sorriso, cada gesto, como se fossem únicos. Aquilo, sim, era infância. Aquilo, sim, era brincadeira de verdade - sem videogames, MP3, internet ou celulares. Sentei na calçada, ali no terrão mesmo, e me senti criança outra vez. Acabei-me de tanto correr, rir, e até soltar pipa como um menino. Aquelas pequenas pessoas me mostravam que, se a felicidade mora em algum lugar neste mundo, deve ser naquele exato lugar onde eu me encontrava.

A tarde chegou e subi para tomar banho. Haveria uma festa naquela noite e eu fora convidada. Era aniversário de um dos netos de Dona Bete, e seria na casa daquela senhora humilde que me acolheu como se eu fosse parte da sua família. No banheiro improvisado do barraco, enquanto me lavava com a água fria tirada de um balde com a ajuda de uma caneca, dava para escutar de longe: "Na minha casa todo mundo é bamba/ Todo mundo bebe, todo mundo samba". Na festa, as pessoas dançavam, conversavam e se divertiam, alheias ao submundo com que convivem lado a lado. A comida era ótima. Sentia a alegria emanar de cada um dos presentes e se espalhar por todos os cantos. Aquela era a melhor festa da minha vida.

Na manhã seguinte, fui comprar pão e, ao olhar para as pessoas, tive a sensação de conhecê-las, de que de alguma forma eu já fazia parte delas e elas de mim. Eu me sentia leve, mas não podia esquecer a minha missão naquele lugar. Nem se quisesse. Foi na noite desse mesmo dia que vi a morte de perto. Bateram na minha porta. Era Leo. Ele falava rápido, as mãos gesticulando no ar, os olhos cheios de ódio e desejo de vingança. "O Gabriel mandou te chamar! Não quer registrar tudo, jornalista? A hora é agora!" Peguei a mochila e os equipamentos - uma câmera e um gravador digitais - e o segui sem saber o que me aguardava.

Os caras do "bang", o pessoal que controla o tráfico de drogas no Morro do Piolho, iriam cobrar uma dívida de R$ 15 mil e, já que o devedor não tinha como pagar com dinheiro, pagaria com a vida. Menos de dez minutos de caminhada depois, chegamos a uma casa de alvenaria na entrada de uma favela vizinha.

Um grupo de cinco homens comandados por Gabriel arrombou a porta e pegou um homem com menos de 30 anos que estava dormindo. Vendaram-lhe os olhos e, deixando-o somente com uma cueca branca, rasgavam-lhe a carne sem pressa, primeiro com um canivete, depois com uma enorme e afiada faca, como as que são usadas nos açougues. Reluzente a lâmina deslizava pelo corpo com a paciência impiedosa da morte, abrindo-lhe a pele. Os olhos de Gabriel apenas observavam, frios, enquanto as mãos de seus soldados faziam um macabro traçado com a ponta do objeto. Cada um cortava um pouco, em um ritual bizarro de vingança. Os cortes eram pequenos, no entanto, profundos e em grande quantidade. O sangue jorrava.

Fiquei paralisada, sem ação. Pensei na mãe daquela vítima, que gritava como um animal sendo cruelmente sacrificado. Por alguns momentos, como que para conter a gigantesca dor que deveria estar sentindo, ele cerrava os dentes, então voltava a gritar de novo.

A cada movimento seu, os bandidos davam-lhe coronhadas na cabeça e mandavam-no calar-se. Ele implorava por piedade, mas sabia que ela jamais lhe seria concedida.

Uma hora depois - os 60 minutos mais longos da minha vida -, um tiro certeiro na testa, quase um carinho àquela altura, acabou com a terrível cena. O homem morreu na minha frente e não havia nada que eu pudesse fazer para salvá-lo. O recado era claro: não mexa conosco, não ferre conosco, não deva se não pode pagar. O corpo foi deixado lá, só para ser encontrado pela polícia.

De volta ao meu barraco, sozinha, me esforçava para amenizar a brutalidade do que havia presenciado e encarar aquilo como parte do meu trabalho de faculdade. Eu queria esquecer que acabara de ver um assassinato cruel, mas não conseguia. Não consegui conter o choro, aquele era um ser humano. Não houve comentário sobre aquela morte em nenhum canto da comunidade. Qual era a identidade do homem assassinado? Quem foi o mandante do crime? Ninguém sabe, ninguém viu. Ainda que nada consiga arrancar da minha memória aquela cena, os pedidos de perdão, os gritos, a lei do crime deveria ser seguida à risca.

Por volta das 9 da manhã de um sábado ensolarado, conheci Daniela. Pele negra como a maioria dos residentes da Super, como os moradores chamam a periferia paulistana, extremamente extrovertida, aparentava ter em torno de 30 anos de idade e deixava escapar um gosto de felicidade no jeito de ser. Mesmo quando disse que perdeu o irmão há dez anos, assassinado pela PM. Aos 22 anos, o rapaz foi, segundo ela, confundido com um bandido que cometeu uma série de crimes na Zona Leste - entre eles, um assalto a uma casa de família seguido do estupro das mulheres que ali moravam. Daniela contou que era uma sexta-feira à noite quando o confundiram com o estuprador e o mataram sem piedade. "Naquele dia, prometi para mim mesma que vingaria a morte do meu irmão, mas depois pensei bem e vi que daquela forma eu não iria resolver nada." Conhecida por quase todos na favela, ela disse não pensar duas vezes quando via alguém passando necessidade. Corria até Guilherme e pedia ajuda - na maioria das vezes, cesta básica, fralda descartável e até dinheiro para as pessoas irem atrás de emprego. "Eu não sou envolvida com os caras, mas não tenho como ajudar financeiramente essa gente. E eu preciso ajudar. Por isso recorro ao Guilherme", afirmou, antes de contar mais uma das histórias do Morro do Piolho. "Há mais ou menos cinco anos, um cara estuprou uma moça aqui pelas redondezas. Ela tinha uns 16 anos na época. Pra não ser morto, o cara fugiu. Mas, olha só, o cara cismou de voltar. Aí já era! O bang ficou sabendo e pronto. Foram até a rodoviária e pegaram ele. Torturaram até a morte. Dava pra escutar os gritos dele lá embaixo do morro. Todo mundo escutava, todo mundo viu eles subindo a favela com o cara, mas ninguém dava palpite ou fixava os olhos. Todo mundo aqui é a favor da pena de morte para estuprador." Nossa conversa foi interrompida por um vapor do tráfico, o encarregado de vender drogas no pé da favela, que se aproximou desconfiado, avisando: Gabriel queria falar comigo. "Ele disse pra você ir agora, rápido!" Despedi-me da moradora e fui, apreensiva.

"Quer falar comigo!?", perguntei a Gabriel, entrando em seu barraco. "Sim, quero." Sentamos, e ele, antes de me contar o que planejava para aquele dia, fez a mesma pergunta que já havia feito antes, mas nunca com tanta seriedade no olhar. "O que você quer aqui? Por que a história dessa gente pobre da favela te interessa tanto?" Respondi olhando nos olhos que o meu interesse ali era mostrar, no meu trabalho, por meio da vida de todas as pessoas que eu conheci naquele lugar, que a periferia precisa contar suas histórias sem medo ou repreensão. Disse que estava ali, principalmente, para mostrar a vida como ela é. E completei afirmando que eu não precisaria me arriscar apenas por capricho ou desejo de aventura. Eu sentia uma enorme necessidade de mostrar a realidade da maioria dos brasileiros que moram nas grandes cidades.

Gabriel parecia ter confiança em minhas palavras. Balançava a cabeça positivamente enquanto eu falava. Quando terminei, ele me disse para ficar ali e esperar. De repente, oito de seus subordinados entraram na sala, se sentam em círculo e começaram a conversar como se estivessem em um júri assumindo os papéis de advogados e promotores. Então, o chefe levantou-se e disse: "Pegamos ele em casa e depois vemos o que fazer com o cara." Com um sinal, Gabriel mandou que o acompanhassem. Na mesma hora, todos desceram a favela, entraram em um Audi A3 preto e cortaram a Zona Sul paulistana. Apesar de conhecê-lo há pouco tempo, nunca há visto Gabriel tão apreensivo. Ele mordia os lábios e olhava pela janela do carro como quem revive na memória outros momentos tensos pelos quais já passou, como se naquela hora tivesse parado para pensar em tudo que fez e em tudo que faria em sua vida. Os olhos distantes moveram-se rapidamente quando viram um menino de rua com mais ou menos a idade de seu filho, sozinho, andando pelo asfalto. Quase sem perceber, ele disse: "Olha aquele moleque..." Por um momento a figura de pai aflorou. Mas ele pediu para que Leo, que dirigia o carro, acelerar, até que chegamos a um lugar escuro, praticamente deserto, sem muitas casas ou pessoas na rua. Gabriel ordenou: "O bagulho é louco! Vambora descer que o desgraçado tá aqui!". Parados em frente a uma casa mal iluminada, bateram palmas. Ninguém saía ou respondia, mas dava pra ver a sombra de alguém lá dentro. Sem paciência, os bandidos chutaram a porta e entraram gritando ensurdecedora e imperativamente: "Onde está aquele infeliz? Cadê ele?" Paralisadas no pequeno cômodo, as pessoas da casa nada respondiam. O lugar cheirava a mofo, o chão tinha um aspecto molhado. A cada novo grito, elas cerravam ainda mais os olhos. Foi quando Gabriel gritou: "Não tem ele, vão eles aqui mesmo!"

Então, de dentro de um velho armário em fase terminal, pulou um rapaz de pele branca, os olhos esbugalhados, as mãos para cima, cabelo liso despenteado, suor escorrendo pelo rosto, e a voz rouca que implorava: "Pelo amor de Deus, não façam isso!" Com as mãos sujas de graxa, ele vestia uma camisa desbotada do Corinthians, com o número 7 e o nome Marcelinho Carioca estampado nas costas. Havia um cheiro de maconha pairando no ambiente, e a voz de Bob Marley cantando "Is This Love" vinha de longe. Uma senhora, provavelmente a mãe do "infeliz", rezava a Ave-Maria em voz baixa. Mas a santa não foi capaz de impedir que o levassem. Na saída da casa, o cachorro vira-lata sujo de terra da família abocanhou a calça de um dos bandidos e levou um tiro. Ficou no chão, inerte. E o seu dono, ciente do fim, chorava lágrimas que pareciam de sangue. Ele havia matado um dos integrantes do bando de Gabriel, e isso era imperdoável.

A execução, daquela vez, foi mais rápida e menos cruel. Não se deram ao trabalho nem de carregá-lo para outro local, o assassinaram-o ali mesmo, em um terreno baldio ao lado. Cogitaram começar com facadas, mas acharam melhor atirar em seus olhos, grandes e negros como duas jabuticabas. "Troca a arma porque essa berra!", diziam alguns dos bandidos. Um disparo no olho direito, outro no olho esquerdo. O cheiro de sangue espalhou-se pelo ar.

Inesperadamente, em um domingo de manhã, o chefe do tráfico no Morro do Piolho, na Zona Sul de São Paulo, bate à porta do meu barraco. Acompanhado da esposa e do filho de 5 anos, Gabriel, diz que agora quer dar a entrevista que tanto pedi e que ele tanto recusou.

Sinto meu coração quase sair pela boca. Foram 15 longos dias até que o traficante demonstrasse alguma confiança em mim e me autorizasse a fazer imagens da favela. Em um daqueles dias, enquanto conversávamos sobre meu trabalho e a minha presença já não era novidade entre os moradores, um dos amigos dele passou por nós e gritou, do meio da rua: "Cuidado, hein! Jornalista é raça ruim!" Em resposta, Gabriel, sempre vestido impecavelmente com marcas famosas, não abriu a boca. Apenas tirou da cintura um revólver dourado e o apontou para o rapaz.

O traficante e sua família se acomodaram no interior do meu então lar feito somente de tábuas. Para meu choque, a criança imediatamente desanda a falar - sobre como ama as mulheres, a cerveja e o Corinthians: "Meu pai é muito engraçado! De madrugada, ele e os amigos dele pulam o muro da minha casa, espalham um pozinho branco no chão e depois colocam num saquinho. Ele manda até eu trazer o giz da tia da escola pra ele fazer o pó! Outro dia, ele e o tio Leo levaram pra casa um homem dormindo e colocaram ele embaixo da cama da mamãe. Ele dormiu tanto que no outro dia eles levaram o homem dormindo mesmo! Quando crescer eu quero ser chamado de chefe igual ao meu pai".

Gabriel, orgulhoso do filho, solta uma gargalhada. A mãe, mais séria, não se manifesta. Então, um dos celulares de Gabriel toca. Ele atende e, disfarçadamente, olha para a esposa. Sem nada dizer, levanta-se e sai pela porta. A mulher, de baixa estatura, cabelos loiros, olhos castanhos e postura discreta, sentada ao meu lado, demonstra nervosismo, olhando o relógio sem parar. Suas mãos estão trêmulas, a voz embargada mal ultrapassa os limites da garganta. Ela tenta segurar o choro, mas não consegue, repetindo, como se orasse em um código sinistro: "É hoje! É hoje, meu Deus!"

Durante a entrevista, Gabriel dera a entender que algo sério aconteceria na favela, e que se eu quisesse realmente relatar o cotidiano da periferia paulistana e de seus moradores no meu último trabalho da faculdade de jornalismo, deveria presenciar este acontecimento in loco.

A tensão pairava no ar. era óbvio: aquele movimento todo era, como diziam os integrantes do crime, treta do bang. Depois de acompanhar a esposa e o filho de Gabriel até a saída da favela, voltei para o meu barraco e ali fiquei até a noite chegar. Um silêncio sepulcral invadia a escuridão, anunciando que em breve cabeças iriam rolar. Demorei a pegar no sono. No outro dia, pela manhã, desperto com Leo batendo freneticamente em minha porta, gritando. "Hoje a chapa vai esquentar! Estão tentando apagar o Gabriel! Pode marcar aí, às 8 da noite. Ele mandou avisar que, se estiver a fim de fazer entrevistas para o seu trampo, o dia é hoje."

Nesse mesmo dia conheci Kleber, 18 anos, o caçula dos dez filhos homens de Dona Bete, o único deles a viver em liberdade até então. Antes de começarmos uma entrevista, Kleber tirou da mochila um papel. Nunca havia visto nada igual, mas eu sabia que se tratava da planta de uma agência bancária. Empolgado, ele contou como planejara o bote, mostrando exatamente por onde entraria e onde estavam as câmeras de segurança. Mas o que Kleber não previra é que acabaria na prisão após a ação daquela noite.

Às 19h30, encontrei Leo na entrada da favela. Eles iriam atacar um bando inimigo e eu tinha permissão para gravar tudo com minha câmera - primeiro a reunião, em um barraco afastado, depois a preparação das armas, usando óleo de máquina de costura. Quando todos, cerca de dez homens, estavam prontos para o ataque, Gabriel notou a ausência de Kleber. Mas seus olhos azuis, agora vermelhos de ódio, se concentraram no comando da situação. Então, ele e seu bando pegaram as armas e saíram pela favela em silêncio. Só me restava acompanhar, tentar me proteger e observar. Atravessamos de carro para o outro lado do Morro do Piolho, uma parte mais abandonada e sinistra do que a região que eu até então conhecera.

Vultos atrás de enormes árvores indicavam a presença de inimigos. No primeiro ruído que se estendeu por mais tempo na escuridão, Gabriel disparou - um, dois, três, não sei quantos tiros em direção aos vultos, seguido por seus homens. Escondida atrás de um carro, esqueci a câmera. Eu estava em uma das cenas de Cidade de Deus ou Tropa de Elite, em um fogo cruzado entre dois bandos rivais.

Aos poucos os vultos se dispersaram e o silêncio, aquele mesmo silêncio sombrio de antes, voltou a nos rodear. No rosto de Gabriel, a satisfação era imensa. Ele havia vencido aquela batalha.

Mais tarde naquela noite, como se imune a toda violência que presenciara, deitei minha cabeça no travesseiro e dormi meu último e longo sono no Morro do Piolho. Pela manhã, despedi-me das pessoas que conheci. Dona Bete me abraçou, recomendou cuidado e deu a notícia: na noite anterior, Kleber, seu caçula, foi pego assaltando pessoas no bairro do Morumbi. Com ele, a polícia encontrou diversos cartões de crédito clonados. A prisão era mesmo o destino dos dez filhos de Dona Bete - de seus "ladrões do povo", como ela carinhosamente gostava de chamá-los.

Antes de deixar o morro em definitivo, me despedi de Gabriel. Apertando minha mão como quem desejava sorte, ele disparou, com frieza: "Vai com Deus".

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