<b>PRECOCE TARDIO</b> Tatá Aeroplano tinha medo de revelar que, aos 6 anos, já escrevia canções - MAÍRA ACAYABA/DIVULGAÇÃO

Naturalmente Trabalhoso

Tatá Aeroplano se descobriu compositor cedo, mas demorou a virar músico

Por Leonardo Dias Pereira Publicado em 16/06/2011, às 10h38

Caminhando tranquilamente pelo calçadão do Guarujá, absorto em seus pensamentos, Tatá Aeroplano começou a pensar em uma melodia na mesma cadência das usadas pelo pioneiro do rock Bill Haley. Nos dias seguintes àquela temporada na praia, tentou ao máximo fixar a melodia, repetindo-a mentalmente de modo incessante. E a letra logo veio, com referências diretas aos personagens do conto de fadas infantil Os Três Porquinhos. Ele ficou petrificado. Só tinha 6 anos e acabara de compor a primeira música. "Aos 14 anos eu já tinha várias músicas e ninguém sabia. Eu não contava pra ninguém. Nem pra família, nem para os amigos", revela. "Tinha receio de que me chamassem de louco."

A relutância em "revelar o segredo" acabou custando uma relíquia pessoal ainda na adolescência. Ao longo de um ano, Tatá transformou parte de suas músicas em HQs desenhados em um caderno. Mas o caderninho sumiu sem deixar vestígios, no meio daquelas famosas faxinas promovidas pelos pais nas tralhas das crianças. "Fiquei tão puto que destruí o quarto inteiro e todo mundo da família meio perplexo sem saber o motivo da revolta."

Quando deixou Bragança Paulista no começo dos anos 90 para cursar a faculdade de publicidade em São Paulo, a ideia fixa (e intenção que escondia da família) era tentar entrar no meio da música e aperfeiçoar seus dotes de músico/compositor. Os quatros anos do curso não foram muito frutíferos no primeiro ponto, mas serviram-lhe para estudar ao máximo os grandes nomes e forjar um estilo. "Durante a faculdade não montei banda porque não me sentia preparado", diz. "Estava em um processo de absorver muita música brasileira, tipo a discografia do Caetano Veloso, do Gilberto Gil, da Gal Costa, do Itamar Assumpção. Lia muitas biografias também. Acho muito importante você saber a história dos artistas." Com o canudo na mão, tomou coragem para formar em sua cidade natal a primeira banda, chamada Gorpiava e que tinha em suas fileiras aquele que se tornou um de seus mais fiéis parceiros musicais, Fernando Maranho.

Paralelamente, Tatá conseguiu um emprego dos sonhos. "Eu fazia a curadoria de shows e peças de teatro. O horário era flexível e dava tempo de ver muitos shows que aconteciam na cidade." Foi nessas incursões, especialmente nas raves que pipocavam em cidades próximas, que conheceu vários parceiros que viriam a orbitar seu círculo musical cheio de ramificações. Tatá participou de uma banda chamada Chill Out Company e viajou por várias raves nos rincões mais profundos do Brasil apaziguando os ânimos dos frequentadores. "Uma vez a gente começou a puxar uma marchinha de carnaval no meio do chillout e o pessoal ficou revoltado", diverte-se. Faziam parte dessa banda o baixista Isidoro Cobra e o baterista Gustavo Souza, que na mesma época cofundaram com ele o Cérebro Eletrônico, que se desdobrou em meio a brincadeiras de ensaio na aloprada Jumbo Elektro, a banda que elevou o "inglês embromation" a status de arte. "Foi quando perdi minha timidez, a minha grande escola."

Ao ligarmos essa série de pontos imaginários, a compreensão da gama de influências que inunda as músicas dos elogiados álbuns Pareço Moderno (2008) e Deus e o Diabo no Liquidificador (2010) fica mais clara. Tatá agora se prepara para o passo mais ousado de sua carreira e que irá ocupar sua fervilhante cabeça durante os próximos meses: a feitura de seu primeiro disco solo, decisão tomada meio que a contragosto. "Vai ser um álbum de amor, com shows mais simples, talvez no esquema voz e violão. Eu não queria fazer, os caras do Cérebro que me forçaram!"

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