Casa de Alice -

CASA DE ALICE

Redação Publicado em 08/11/2007, às 18h07

No cinema, nada é tão tênue quanto a linha que separa a verdade da mentira. Implícita desde o primeiro frame, a discussão é tão imune ao processo criativo que não vale nem a análise, mas o aumento da procura e produção de documentários tem mostrado que só se tem a ganhar dessa mistura "amoral" de real e ficção. Casa de Alice, primeiro filme ficcional do documentarista Chico Teixeira, é um ótimo exemplo de projeto seguro e bem analisado em festivais dentro e fora do país. Alice - interpretada por Carla Ribas - é uma manicure quarentona que mora na periferia de São Paulo e mantém um casamento "bege" com um taxista adorador de lolitas pré-púberes. Seus três filhos estão entre a adolescência e a maturidade, e sua mãe, Dona Jacira, é a idosa dona do apartamento onde todos moram amontoados. Ela é também a base estrutural da casa; ao mesmo tempo em que cozinha, passa e lava os lençóis das noites mal dormidas de todos, é solitária o suficiente para tornar seus os podres que passam escondidos pelos bolsos das calças que esperam sua vez na pilha de roupas sujas da área de serviço. Alice, que faz vistas grossas aos casos do marido para não ter que olhar para suas próprias aventuras, é tão mortal que chega a ser cinza de cotidiano, mas se envolve com um cliente e ex-namorado na esperança de se manter viva, e de fugir da sua realidade monocromática. O filme é um retrato limpo da classe média do telefone discado, da televisão aberta, do rádio de pilha e da margarina com pão francês. O uso de não-atores, o apego ao gesto, ao mínimo movimento que nasce e não brota de um roteiro não deixa de ser perigoso, mas areja essa leva infinita de tentativas de se fazer o novo Cidade de Deus. A narrativa naturalista permanece colada em seus personagens com uma fidelidade tão documental que periga ser fantástica. Não é um filme de ação, reflexão ou síntese, é um filme de atores que não são atores, e só por isso já vale pena.

Por D.A.B.

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2007

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