Diretora Ava Marie DuVernay fala sobre o curta que fez para a Miu Miu

The Door é estrelado pela atriz Gabrielle Union e é o quinto filme da série da Women's Tales

Araceli Cruz Publicado em 04/03/2013, às 15h11 - Atualizado às 15h48

The Door
Reprodução/Still

No início do curta de Ava Marie DuVernay The Door, a atriz Gabrielle Union fica parada, perfeitamente imóvel e sozinha perto de uma piscina, usando um robe esvoaçante longo e vermelho. O céu azul, com detalhes de cinza, combina com as paredes de sua mansão fria, localizada em Hollywood Hills [bairro de alto nível]. O astral é para baixo, mas a roupa vermelha com um decote em V generoso dá uma faísca de esperança, o que era exatamente sua intenção: o vestido foi feito sob medida pela Miu Miu, a pedido de DuVernay, para o filme.

The Door, um curta mudo com uma trilha de neo-soul, é o quinto da série da Miu Miu Women's Tales, uma coleção de filmes assinados por diretoras internacionais (assista abaixo).

Os trabalhos anteriores da série incluem The Powder Room, de Zoe Cassavetes, Muta, de Lucrecia Martel, The Woman Dress, de Giada Colagrande, e It's Getting Late, de Massy Tadjedin.

A Miu Miu entrou em contato com DuVernay logo depois da vitória dela como Melhor Diretora por seu segundo longa, Middle of Nowhere, na edição de 2012 do Festival de Cinema de Sundance. Ela foi a primeira mulher afro-americana a receber esse prestigioso prêmio. Para esse projeto, a Miu Miu deu a ela apenas alguns direcionamentos: o elenco deve ser todo feminino e todas devem usar Miu Miu. O resto cabia a ela. Além de Union, DuVernay escalou a cantora e compositora Goapele e as atrizes Alfre Woodard, Emayatzy Corinealdi e Adepero Oduye.

A Rolling Stone EUA conversou com DuVernay a respeito de sua transição de filmes indie de baixo orçamento para ter uma coleção inteira da Miu Miu à sua disposição.

Quais foram as primeiras coisas que pensou quando a Miu Miu te convidou para fazer parte dessa série de filmes?

Eu nunca tinha feito nada ligado à moda, mas eles estavam procurando por cineastas com um ponto de vista específico. Devo dizer que fiquei um pouco mal acostumada. A primeira coisa que aconteceu logo depois de Sundance foi uma marca incrível entrar em contato comigo e me dizer para eu literalmente fazer o que quiser. Com a minha história, minha ideia, minha escolha de designs. Eles criaram designs para mim. Eu usei peças de uma coleção específica. Eles me falaram que se eu precisasse de mais, eles fariam para mim.

Como chegou à escalação de Union e Goapele?

Os filmes anteriores da série tinham basicamente modelos, ou tendiam a isso, exceto It's Getting Late, de Massy Tadjedin, e eu queria levar isso mais a diante, ter mais narrativa, mas história. Então quis usar o máximo de atrizes possível, quis chamar cinco. Eu lembro da Miu Miu me perguntando “Tem certeza que consegue encaixar essa história toda em menos de 10 minutos?". E conseguimos. Gabrielle tem um rosto que… você se sente inteligente quando olha para ela. Ela tem uma força e uma inteligência em sua beleza. Acho muito cativante.

Já usei músicas de Goapele em filmes anteriores e ela tinha me dito que estava interessada em atuar. Achei que essa seria uma boa forma de levá-la a isso.

Ao ver o filme, é interessante ver como as trocas de roupa guiam a personagem de Union a sair vagarosamente da depressão. Como você decidiu quais modelos expressariam essa narrativa?

Essa foi a parte divertida. Olhar para as roupas, foi aí que comecei. As cores, as estruturas, o tecido. Na cena em que a amiga de Union entra, ela está usando jeans. E com cada amiga que entra, essas mulheres vão vestindo a personagem de Union. Elas estão usando roupas para evocar emoções. Estão tentando escolher coisas que são mais vívidas e a tiram daquele humor. Olhei para os desfiles e disse para [a Miu Miu] "Posso usar isso, isso e isso?".

Algumas das peças eu encomendei, o que foi empolgante para mim. Sou apenas uma cineasta de Compton e cá estou eu recebendo desenhos da Miu Miu e dizendo “Essas são de Milão!”. Eles fizeram o vestido que Goapele usa na casa noturna, o véu e o robe vermelho.

Você pode discutir a transição pela qual passou saindo de um filme indie para um projeto de alto orçamento?

A maior diferença foi a de fazer algo sob contratação. Em todos os meus filmes eu escrevo o roteiro, eu dirijo. Eu nunca tinha feito um projeto para um cliente com essa estrutura. Essa é a razão pela qual eu digo que fiquei mal acostumada, porque no meu primeiro trabalho desse tipo pude trabalhar com pessoas que estavam tão abertas e fazer o que eu quisesse. Não falaram “não” nenhuma vez. Fiquei muito feliz porque não há muitas mulheres negras nesse espaço e achei muito bacana da parte da Miu Miu levar esse projeto para mim.

Por ser um filme mudo, todo musicado, você acha que dirigir clipes é algo em que você poderia se aventurar?

Eu nunca vou dizer nunca. Não é algo em que eu esteja super interessada, eu gostei mais de fazer um filme mudo com trilha sonora.

Em quais filmes está trabalhando agora?

Neste momento estou fazendo a pós-produção de um documentário a respeito de Venus Williams para a ESPN. É um trabalho grande a respeito dela e do feminismo. Muita gente não sabe do papel dela como feminista, como o trabalho que ela fez para as Nações Unidas e a luta pelos direitos das mulheres no esporte. Estreia na ESPN em julho. Em abril, eu começo a rodar meu próximo filme.