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DJ KL Jay, do Racionais MC’s, cria modelo de tênis inspirado nas pick-ups e em seu estilo de vida vegano

O calçado, batizado como Maestro, é feito em tecido reaproveitado e não usa materiais de origem animal na composição

Tamara Emy, com colaboração de Bruna Veloso Publicado em 19/03/2016, às 12h49 - Atualizado às 13h07

KL Jay e o Maestro

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Aos 46 anos e adepto ao vegetarianismo há mais de 25, Kleber Simões, mais conhecido como DJ KL Jay, integrante do Racionais MC's, foi convidado pela marca curitibana de skate Öus para participar da elaboração de um tênis assinado por ele. Batizado de Maestro, o modelo teve o design inspirado em toca-discos, tem o cabedal feito em tecido jacquard, forro REAP (proveniente do reaproveitamento de resíduos têxteis da indústria automotiva) e não tem nenhum material de fonte animal.

Falando à Rolling Stone Brasil, KL Jay contou como o estilo de vida vegano refletiu no conceito do modelo.

Essa é a sua primeira colaboração relacionada à moda? Como aconteceu o convite?

Sim. Vi os produtos pela primeira vez na loja Colex e achei legal. Os caras são de Curitiba e tal, são brasileiros, e estão com essa marca aí. Gostei do formato do tênis e comecei a comprar algumas peças, mas o número de peças que eu comprava era muito limitado porque muitos tênis tinham couro e eu não uso roupas assim. Comecei a usar camisa, moletom, e aí acho que o Parteum, que tem colaboração com eles, deu um toque: “O KL Jay usa nossas roupas, o que vocês acham de chamá-lo?” Comecei a usar a roupa porque eu gostei, não para chamar atenção nem nada, e aí eles me convidaram para a colaboração.

A Öus é essencialmente uma marca de skate e é sabido que a música tem forte influência nesse universo. O que acha dessa relação de skate com rap, especificamente?

É a trilha sonora, né? Tem a ver com as manobras, com o lance de andar na rua... Os skatistas se identificam com muitas ideias que são ditas nas músicas, tem tudo a ver. Vários rappers pelo mundo são skatistas, como o Curren$y, o Kamau. Tem uma relação natural de identidade.

O veganismo te levou à ideia de um modelo sem materiais de origem animal. Como você aplica esse estilo de vida ao modo como consome moda?

Para mim é muito fácil, porque eu vivo um estilo de vida simples, não preciso de muita coisa para viver bem. E também é sustentável, você está colaborando com o planeta, né? Pelo menos um décimo da população do mundo poderia seguir isso e o planeta ficaria bem melhor. Eu já sou vegetariano há 27 anos. Claro que já deixei de comprar vários tênis lindos porque eram de couro, mas depois a vontade de ter um tênis passa e surgem outras. A gente não vai ficar doente por causa disso.

Antes de se tornar vegano, você passou por uma fase ovolactovegetariana? Como foi sua transição para um estilo de vida vegano? Há quanto tempo foi isso?

Eu comecei a ver como a indústria funcionava. Na verdade, para ser bem sincero, eu não tenho nada contra, por exemplo, comer ovo. O ovo é um alimento rico, um dos alimentos mais completos do mundo. E existem fazendas e lugares que trabalham com ovos orgânicos, respeitam as galinhas, não matam as galinhas, elas ficam livres, comem alimentação vegetal. Mas é muito difícil de achar isso. A maioria da indústria trabalha com produção em massa, nociva, tem maltrato. Eu adoro omelete, não posso ser hipócrita, entende? Mas você acaba não comendo, porque todo lugar onde você vai, a maioria dos alimentos é proveniente dessa indústria, e quando eu vi como ela funciona, decidi parar também.

Há quanto tempo você é vegano?

Há três anos, não faz muito tempo.

Houve um "clique", algum momento de virada que tenha dado o start para que você parasse de consumir produtos de origem animal?

O grande lance veio com a informação. Fui lendo as coisas, entrevistas, matérias, vendo vídeos, e fui entendendo. Quando você é desinformado, ignorante, tem um desconto. Mas quando você sabe, aí é foda, né? Comecei a descobrir essas informações, elas foram chegando até mim e eu fui atrás também. Aí falei: “É, Kleber, agora não dá mais. Se continuar, você está sendo hipócrita”.

Vi uma entrevista sua em vídeo em que contava que o [primeiro empresário e produtor do Racionais] Milton Sales te apresentou ao vegetarianismo. Como foi isso?

Ele começou a andar com uma banda de reggae chamada Walking Lions, e isso foi bem no começo do Racionais, quando nos conheceu. Ele estava trabalhando com esses caras, quase todos vegetarianos. Ele também não sabia de muita coisa, mas ouvia os caras falarem para não comer carne e dizia isso para mim. Eu continuei comendo, mas aquilo ficou na minha mente, Um dia, chegou um cara vendendo livros na porta da minha casa, estava vendendo um chamado Viva Natural. Imagina, o cara bateu à minha casa para vender livro sobre alimentação vegetariana! Para mim foi um anjo enviado, né? Lembrei na hora das palavras do Milton. O vendedor no portão me falou que não se tratava de uma parada só teórica, o livro conta também um lance espiritual, e eu sou muito ligado nessas coisas. Comecei a ler e chapei.

Se de repente alguém se interessar por esse estilo de vida a partir da compra do tênis, você tem algum livro, filme ou site que indicaria a respeito de direitos animais/veganismo?

Tem um documentário norte-americano muito foda chamado Da Fazenda à Geladeira. É muito forte, muito triste de ver, precisa de sangue frio para ver as cenas. Tem o [também documentário] A Carne é Fraca e o livro que mudou minha vida, Viva Natural.

Das personalidades da moda e da música que unem seus trabalhos à divulgação da importância dos direitos dos animais, quem você admira?

O Paul McCartney é um. Tem o Mos Def [ou Yasiin Bey, como é conhecido hoje], a Erykah Badu, o Rincon Sapiência, aqui de São Paulo. Todos eles são vegetarianos. O DJ Roger, o Afu-Ra também é vegetariano. Tem vários por aí.

O sneaker custa R$ 349,90, tem tamanhos femininos e masculinos e já pode ser encontrado na loja online da marca: www.ous.com.br/ .