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Humberto Gessinger

O eterno Engenheiros do Hawaii desafia o tempo (de carreira) e avisa: “quero desmistificar os anos 80"

Por Marcelo Ferla Publicado em 15/04/2009, às 12h00 - Atualizado em 20/02/2013, às 16h17

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Fellipe Gonzalez
Fellipe Gonzalez

O homem-banda engenheiros do Hawaii passeia pelos paradoxos do pop há quase três décadas destilando trocadilhos tão infames quanto eficientes e colecionando fãs e detratores pelos mesmos motivos, algo entre a sinceridade, a ironia (não exatamente fina) e o ceticismo. O cabeludo quarentão está sentado à minha frente, na sala de estar da bela cobertura onde mora com a mulher e a filha, em um bairro nobre de Porto Alegre, onde nasceu e para onde voltou em 1999, depois de viver muitos anos no Rio de Janeiro, por necessidade profissional. Ele dorme até o meio dia, joga tênis eventualmente e passa o resto do tempo tocando e ouvindo programas de futebol no rádio, sempre ligado nas emissoras que têm menos ibope. "Minha medida de tempo não é o dia, é o ano. Meu cronômetro não é manhã, tarde ou noite, eu só faço música, nada mais me prende a nada", diz Gessinger, que resolveu interromper as atividades do Engenheiros do Hawaii por tempo indeterminado e agora se dedica integralmente ao projeto Pouca Vogal, que divide com o gaúcho Duca Leindecker, integrante da banda Cidadão Quem. Em junho sai o DVD da dupla, que o velho frasista definiu, por e-mail, para um jornal local, como "a menor banda do roque gaúcho". As cenas que se sucederam na longa entrevista/ bate-papo que tivemos revelam um homem que continua facilitando a vida dos editores com dezenas de frases de efeito, não faz questão de desmentir fatos ou remediar opiniões controversas,gosta de alfinetar a crítica e insinuou claramente que o Engenheiros do Hawaii acabou. Paradoxalmente à sua aversão pelo hype, o novo mundo pós-napster parece dialogar fortemente com artistas como ele. Essa highway chamada cultura pop tem mesmo infinitas possibilidades.

Em casa você costuma ficar compondo ou tocando outras músicas?

Não sei tocar chonga nenhuma... As pessoas pensam que talento musical é um bloco, mas são subdivisões. Eu tenho a maior inveja de um grupo meio discriminado, o pessoal que toca em banda cover. É um talento que não tenho. Às vezes umas destas bandas abrem nossos shows e tocam de Pink Floyd a Luiz Gonzaga com o mesmo equipamento, simulando o som de todos. Eu tenho inveja! Outra coisa que as pessoas têm preconceito é do pessoal que faz jingle, que consegue compor de propósito. Eu nunca consegui compor uma música do início ao fim que tivesse uma direção. Eu vou correndo atrás da música. Me considero mais compositor, mas minha paixão mesmo é tocar um instrumento. Não é o que faço melhor, mas me motiva.

Que instrumentos você toca?

Piano, violão... há uns três anos comecei a tocar viola caipira, e isso tomou muita importância e espaço. Parece um instrumento vira-lata, mas tem muita história ali dentro. Comecei a tocar viola caipira na metade da turnê do Acústico da MTV e o Pouca Vogal é uma radicalização disso, uma viagem de encolhimento. Acho que tem várias coisas encolhendo no mundo, como o capitalismo, e tenho a impressão de que a música também está encolhendo. É como se fosse um rio que tivesse transbordado nos anos 60 e 70, quando a música era a ponta do pensamento pop, e que agora está voltando para o seu leito. Acho muito bom, porque estes momentos de fartura são os mais chatos. Aqui no Brasil foi nos anos 80. Junta um monte de gente que não é do ramo para brincar naquele segmento, porque tá dando grana...

O talento se sobressai nesses momentos de encolhimento do mercado?

Isso. Porque tem uma dualidade, o lance da arte e do ofício. Nesses momentos de cheia do rio fica muita arte e pouco ofício. Todo mundo dando entrevistas maravilhosas, fazendo capas maravilhosas, dá vontade de dizer, 'Pô, quem sabe afinar uma guitarra nesta merda? Quem morreria por essa música?' Nos momentos de diminuição isso se ressalta. Estamos vivendo este momento, porque acabou a indústria, conseguiram vender pra todo mundo uma ideia absurda de que música pode ser de graça, mas ninguém fala isso em relação a livro ou ao Big Mac. Os caras compraram isso achando que ia ser uma coisa revolucionária, só que alguém vai pagar a conta, alguém vai ser o dono da voz.

Tem uma letra do Oasis que diz: "please don't put your life in the hands / of a rock'n'roll band" ("Por favor, não coloque sua vida nas mãos de uma banda de rock"). O que você acha disso?

A corrente que te leva até os fãs tem muitos elos sobre os quais tu não tem poder. As pessoas perguntam porque o Engenheiros deu este tempo agora, depois das duas turnês mais bem-sucedidas da carreira. Tem épocas em que tua distância em relação a quem está te ouvindo gera mais aflição. Tem épocas que isso passa batido, mas por mais que tu esteja dizendo alguma coisa aqui, será que o ambiente não está dizendo o oposto de maneira mais alta? Nós emitimos algumas coisas, mas não temos muito controle do que é feito com aquilo. Por isso eu nunca esquentei a cabeça com crítica. Tu me dá qualquer disco e eu sou capaz de escrever dez coisas a favor e outras dez contra, em 20 páginas maravilhosas. É mais uma questão da maneira de como se joga a luz. Mas quando tu começa a tocar para pessoas que têm a idade da tua filha, isso começa a bater diferente.

Você lê esta matéria na íntegra na edição 31, abril/2009