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Exclusivo: com participações de Arnaldo Antunes, Emicida e KL Jay, grupo Inquérito lança o álbum Corpo e Alma; ouça

O quatro disco da carreira do trio fala sobre o amor ao hip-hop

Luciana Rabassallo Publicado em 28/10/2014, às 12h17 - Atualizado às 17h08

O grupo Inquérito durante as gravações de Corpo & Alma

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Por Luciana Rabassallo

O grupo Inquérito, formado por Pop Black, DJ Duh e Renan Inquérito, lança nesta terça-feira, 28, com exclusividade no blog Cultura de Rua, o álbum Corpo e Alma, o quarto da carreira deles. Com participações de KL Jay, Arnaldo Antunes, Rael, Alexandre Carlo (Natiruts), Roberta Estrela D´Alva, Quinteto Brassuka e Elen Oléria, quem assina a produção executiva é o rapper Emicida.

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"Este disco é o resultado de uma longa caminhada. Não é apenas um álbum, mas a somatória de quatro discos, de 10 clipes e dos 15 anos de estrada até aqui. Isso tem um peso acumulado. Este registro é o produto final de um trabalho que vem sendo feito de corpo e alma pela música, pelo rap e pelo hip-hop desde 1999, quando começamos com o Inquérito", explica Renan em entrevista ao Cultura de Rua.

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Corpo e Alma está disponível para download gratuito no site do grupo Inquérito.

Ouça abaixo, com exclusividade, o disco Corpo e Alma e leia o faixa a faixa em que o grupo Inquérito fala sobre as canções que compõe o registro:

"Introdução" - Corpo e Alma:

Com sutilidade, os toques dos tambores africanos lembram que o rap tem a origem nos griots e casam-se com a poesia de Renan Inquérito, que anuncia a que veio: fortalecer o hip-hop de corpo e alma. Com discurso ágil e rápido, ele passeia pelas origens da cultura urbana, sem esquecer os bailes de quintal e as personalidades importantes e que fizeram parte dessa história.

"Corpo e Alma" - Corpo e Alma:

A energia da letra e do gueto se fazem presentes na força com que Renan Inquérito entona os versos sob os metais do Quinteto Brassuka, complementados pelas frases rápidas de Emicida, que chega junto, de forma ligeira para somar e rimar sobre as ruas, o próprio gueto e a vida nas periferias. Sem dúvida, é a canção de chegada do disco, tanto que é a que dá nome ao álbum, justamente pela batida próxima do funk e do soul.

"Póesia" - Corpo e Alma:

O próprio nome traduz a canção: a poesia do Inquérito se faz presente nos versos. Esta talvez seja a mais rap de todas as faixas do disco. Com produção de Marcelo Guerche, a batida dialoga com a agressividade do rock, enquanto Renan Inquérito dispara os versos nervosos, completados pelo sample de O Rappa, na voz de Falcão: "A minha alma está armada".

"Carrossel" - Corpo e Alma:

O sentimento é de nostalgia quando a base da canção entra. Carrossel, que o próprio nome remete ao movimento contínuo e circular, traz a participação de Alexandre Carlo, da banda Natiruts, e o casamento entre o rap e o reggae. A letra relata as dificuldades de quem vive nas periferias brasileiras, mas nem por isso deixa de lutar.

"Eu Só Peço a Deus" - Corpo e Alma:

Com sampler de Cássia Eller, a canção convida os ouvintes à reflexão sobre os algozes brasileiros e mundiais. Além disso, debate questões como as guerras e tece críticas às diferenças sociais e raciais.

"Tristeza" - Corpo e Alma:

A mais autobiográfica do álbum, Tristezarelata questões pessoais de Renan Inquérito que, apesar de se expor na primeira parte, não se esquiva das críticas sociais após o primeiro refrão.

"Versos Vegetarianos" - Corpo e Alma:

Com a participação de Arnaldo Antunes, a música é um ataque ao sangue exposto nos noticiários e relembra a falta de informação em programas ‘enlatados’. Na primeira parte, o rapper garante que só vai parar quando a educação virar ostentação e abusa dos trocadilhos, como Cervantes e conservantes e usa poesias de amigos da literatura marginal como Victor Rodrigues citando Ni Brisant. O refrão fica por conta do ex-Titã Arnaldo Antunes.

"Sonhos" - Corpo e Alma:

Uma mescla de colagens do discurso de Martin Luther King com a poesia de Sérgio Vaz na voz de Renan Inquérito abre a faixa "Sonhos". A participação do DJ KL Jay, dos Racionais MC's, em uma canção que fala sobre os planos que povoam a vida de todo mundo dá o tom de "esperança" ao registro. Um coral infantil marca o refrão e traz a leveza necessária para que o ouvinte continue acreditando.

"Cidade sem Cor" - Corpo e Alma:

Em um lamento da natureza, a música com a participação de Rael é uma reflexão sobre os problemas enfrentados por muitos paulistanos como a falta de água, a ausência de relações humanas, a troca de abraços por mensagens digitais, entre outras substituições do mundo moderno, que transformam as cidades em locais sem cor.

"18 Quilates de Sorriso" - Corpo e Alma:

A letra manda um recado aos "economistas e banqueiros" que mensuram a sociedade em classes e em números. Com participação de Ellen Oléria, a melodia dá o tom da ‘briga’ com o sistema e traz a esperança necessária para que as coisas, por meio da luta, sejam diferentes.

"Rosa do Morro" - Corpo e Alma:

A releitura da música traz, pela primeira vez, Renan Inquérito cantando em vez de rimar. A participação de Roberta Estrela D´Alva só engrandece a faixa, que é uma das surpresas poéticas e musicais do disco. O toque do bandolim completa a beleza da canção.

"Alma Lavada" - Corpo e Alma:

Os depoimentos de fãs, enviados por meio do Whatsapp, se transformaram em uma faixa que encerra o disco e deixa claro o que pensam as pessoas que acompanham o trabalho do grupo durante 15 anos de estrada.

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Leia a íntegra da entrevista com Renan Inquérito sobre o álbum Corpo e Alma:

O que mudou no cenário do hip-hop nacional em 15 anos?

O mundo todo mudou e, com o hip-hop, não foi diferente. O rap invadiu a internet, as redes sociais, a televisão, a política, as escolas, as universidades e tudo mais. Hoje temos programas de TV, revistas, sites, leis, editais, cargos, mas ainda é muito pouco perto da nossa representatividade, é como as cotas para os negros nas universidades, ainda falta muito. Na medida do possível e do aceitável o Inquérito tenta acompanhar a mudança, sempre ciente de que nem toda mudança nos convém e nem toda novidade nos interessa. O futuro é um para-brisa, amplo, gigante, e nos mostra o caminho que devemos seguir. Enquanto o passado é como o retrovisor, sempre damos uma olhadinha pra ele, pra ver o que ficou, pra ver de onde viemos e o que ficou po9r lá, porém não dá pra dirigir olhando só para o retrovisor, né?

Como foi a concepção de Corpo & Alma?

Quando terminamos um disco, mesmo sem saber ou sem querer, já começamos o processo do próximo, é algo natural, porque novas poesias já vão ‘nascendo’, novos beats vão surgindo das conversas que temos com produtores por onde passamos e assim um o trabalho vai sendo criado gradativamente. O DJ Duh e o Pop Black, que trabalham comigo, são produtores também e a cada encontro me mostram algo novo. Então, é inevitável não criar. Corpo e Alma nasceu assim: as letras foram feitas por mim ao longo dos últimos quatro anos em que não lançamos disco. O álbum foi produzido pelo DJ Duh, mas tem beat do Pop Black, do Quilombo Louco Beats, do Damien Seth e do Marcelo Guerche (produtor do disco Mudança) e do próprio DJ Duh.

Quando o Emicida entrou no projeto?

A ideia inicial de fazer o disco veio de uma longa conversa com o Emicida no final de 2013, durante uma viagem que fizemos juntos ao Rio de Janeiro. Desde quando o disco era apenas uma ideia, ele já a compartilhava comigo. Como produtor executivo, ele foi um parceiro e me ajudou em todos os processos. Nós sabíamos que ele estaria no disco de uma forma ou de outra e quando a música “Corpo e Alma” ficou pronta, antes mesmo de virar o título do registro, sentimos que a energia que ela transmitia era exatamente a que queríamos passar. Por isso, fluiu de forma natural e resumiu o álbum todo.

Sobre as participações especiais, a que mais chama atenção – por ser um artista fora do rap – é a de Arnaldo Antunes. Como aconteceu essa conexão?

Sempre fui fã do Arnaldo e, ao longo da estrada, fizemos alguns amigos em comum. Eu o conheci quando acompanhava o Ferréz na gravação do programa Na Moral. Depois, outro amigo com o qual eu tenho um projeto, o Marquinhos, que é baterista, foi trabalhar com o Arnaldo. Então, sampleamos uma música do Arnaldo e eu liguei pro Marquinhos, pedindo pra ele mostrar pro Arnaldo e convidá-lo. Resultado: ele ouviu, curtiu e aceitou o convite.

Em “Versos Vegetarianos” há um claro descontentamento com a política nacional e referências à ditadura. Enquanto isso, temos jovens dizendo nas redes sociais que não houve ditadura no Brasil. Como vocês encaram isso?

Há várias formas de ditadura, umas declaradas e outras nem tanto. Nesse som eu falo sobre a falta de flexibilidade. As pessoas estão muito extremistas. Há a ditadura da dieta e da beleza, que são tão prejudiciais quanto a militar e a ditadura da propaganda, que direciona e reduz o seu sonho a um mero bem material. Eu vejo um regime de educação, de cultura, de solidariedade, de amor. Cada vez mais se evitam esses “alimentos” na dieta diária, por outro lado estamos cada vez mais obesos de preconceito, indiferença e ignorância. Eu falo desse equilíbrio e de se alimentar mais do bem do que do mal, para que a digestão não seja catastrófica.

Como o seu trabalho na Fundação Casa pode influenciar nas suas rimas?

Tudo o que eu vivo no meu cotidiano é matéria para a elaboração das letras e poesias, independente de onde venha. No caso da Fundação CASA, eu entrei lá pra fazer oficinas de rap e acabei usando as letras como poesia. Com tudo isso, fiz um livro (#Poucas Palavras), um sarau (Parada Poética) e estou aí até hoje, eles me abriram essa janela.