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O rap do cerrado: conheça Calango Nego, Faroeste e Boca Seca, nomes de destaque do hip-hop goiano

Cena mostra força fora de São Paulo

Luciana Rabassallo Publicado em 23/09/2014, às 20h00 - Atualizado em 25/09/2014, às 13h11

Grupo de rap Faroeste após show no Festival Vaca Amarela 2014

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Luciana Rabassallo

O blog Cultura de Rua foi até Goiânia para acompanhar de perto a edição 2014 do Festival Vaca Amarela. Com o intuito de fomentar a cena musical do cerrado e levar ao público local grande atrações nacionais, a 13ª edição do evento, que aconteceu entre os dias 07 e 14 de setembro, mostrou-se extremamente alinhada com o que de mais quente acontece na música brasileira.

Vaca Amarela 2014: Flora Matos derruba as barreiras do sexismo e mostra o poder da internet na divulgação da cena independente.

Na escalação do festival estavam nomes conhecidos do rap nacional como Criolo, Flora Matos e Haikaiss, mas o público que foi até o Jaó Music Hall também pode conhecer artistas locais da cena hip-hop. O número elevado de músicos que dedicam o trabalho deles ao gênero é um grande exemplo de como o hip-hop está crescendo e tomando corpo no Brasil. O movimento saiu das periferias de São Paulo e do Rio de Janeiro para unir os jovens das quebradas de cidades como Brasília, Recife, Curitiba e, é claro, Goiânia.

Vaca Amarela 2014: Flora Matos derruba as barreiras do sexismo e mostra o poder da internet na divulgação da cena independente.

“A cena aqui é grande. Tem bastante gente fazendo rap aqui na cidade”, conta o vocalista do projeto Calango Nego, Alisson Bringel, em entrevista ao Cultura de Rua. “Antes eu cantava samba, mas, por incrível que pareça, é mais difícil sobreviver como sambista do que como rapper.” Ao lado dos amigos Pedro (percussão) e Daniel (DJ), Bringel fundou o Calango Nego em meados de 2011. O som do trio mistura influências de rap, samba, jazz, reggae e rock.

Durante o show do grupo no evento, o Calango Nego fez uma versão de “Lion Man”, faixa do Criolo, que se apresentaria no dia seguinte e estava no meio do público conferindo a performance de Alisson Bringel e dos companheiros dele. No backstage, Criolo fez questão de cumprimentar o rapper goiano. “Foi um momento muito especial. Eu não sabia que ele estava lá”, comentou Bringel.

Outro destaque do Vaca Amarela 2014 foi a apresentação do Faroeste. Formado por Júnior (Mmk), Iago (DZ) e pelo DJ Rodrigo Lagoa, o coletivo é fruto de uma única paixão: o rap. “Nós nos conhecemos nas redes sociais”, explica o DJ, antes de acrescentar: “todo mundo compartilhava coisas sobre hip-hop e sobre artistas que gostamos. Acabamos virando amigos e começamos a fazer um som”.

Vaca Amarela 2014: organização e diversidade são os destaques do evento.

Com uma mixtape - Bem Vindo ao Faroeste (2013) - e um disco de estúdio - Bando de Dois (2014) - lançados, o Faroeste acredita que a abertura ao rap por parte de um festival que tradicionalmente é conhecido pelas bandas de rock é uma evolução do gênero. “Não encontramos em eventos de rap uma estrutura tão boa como a que o Vaca Amarela nos proporciona. Além disso, a diversidade do público faz com que pessoas que ouvem outros tipos de música conheçam o nosso trabalho.”

Segundo Lagoa, a frase que o grupo mais ouve após apresentações em festivais independes é “eu não gosto de rap, mas o som de vocês é muito bom”. “Depois disso, eu vejo que a pessoa realmente está ouvindo o nosso trabalho e acompanhando de perto o que estamos fazendo”, conta. “Nossa primeira apresentação no Vaca Amarela foi em 2013 e, depois disso, fomos convidados para shows em Brasília e São Paulo. É uma grande vitrine”, completa.

Vaca Amarela 2014: Criolo faz show emocionante com participação de Flora Matos e Haikaiss.

Veja a entrevista completa com o grupo Faroeste abaixo:

Como começou o grupo Faroeste?

O grupo surgiu através das redes sociais. Junior (Mmk) e Iago (DZ) faziam parte de uma mesma comunidade de divulgação de material do gênero rap e ao se conhecerem pessoalmente passaram a se encontrar aos sábados para fazer alguns sons. Em 2013, o grupo viu a necessidade de ter um DJ fixo nas apresentações e, desde então, o Faroeste conta com um terceiro elemento, Rodrigo Lagoa.

Todos vocês são daqui?

Todos os integrantes são de Goiânia. Nascidos e criados aqui. Temos muito orgulho por ter nascido em uma cidade em que o Rap não é forte e, mesmo assim, com um bom trabalho estamos conseguindo fazer com que o nosso som seja reconhecido.

Como é a cena do rap em Goiás?

A cena do Rap em Goiânia é uma cheia de talentos, porém faltam pequenos detalhes para se tornar uma cena forte. Acho que se houvesse um pouco mais de profissionalismo, Goiânia tinha tudo pra ser uma das principais cenas de rap do país. Hoje, os maiores shows de rap que acontecem em Goiânia são em eventos de rock, que estão abrindo espaço para essa união entre os estilos musicais. Os eventos voltados apenas para o rap têm pouca força e estrutura.

E o público? Vai aos shows?

O público do rap por aqui ainda não é fiel, mas estamos tentando mudar isso. Não só o Faroeste, mas a gente vê outros grupos também realizando um trabalho em cima disso.

Quais são as influências de vocês?

DZ vem de uma família que gosta de rock e cresceu diante desta influencia musical. Já Mmk tem raiz sertaneja. No rap, Mmk tem como influência Rakim, Kanye West e Tech N9ne e estuda bastante o rap nacional. Dz traz como influências Wu Tang Clan, La Coka Nostra, AOTP e os rappers da TDE e ASAP mob.

Boca Seca

Com Fabones, Peregrino, Boikot, Slot e Duel, o grupo Boca Seca agrada pelas letras contundes, beats pesados e flow convincente. O grave, herança da trap music que tem influenciado muitos artistas do rap, tem presença constante no som deles. Aposta do público, o Boca Seca é mais um nome que desponta no rap de Goiânia com potencial para deixar a cena local e levar a mensagem do trabalho deles para outras quebradas - e, quem sabe, até o mainstream.

Olha só o peso das rimas que estão no single “Quebrando as Correntes”: