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Public Enemy pede paz e o fim da discriminação racial durante show arrebatador em São Paulo

"Quero ver todos os punhos cerrados contra o preconceito. Existe apenas uma raça e essa raça é a humana", disse o rapper Flavor Flav

Luciana Rabassallo Publicado em 18/10/2014, às 20h21 - Atualizado em 05/11/2014, às 15h37

Public Enemy faz show na Arena Tietê em São Paulo

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Por Luciana Rabassallo

"Não entendo nada de hip-hop, mas dizem que o Public Enemy são os Beatles do hip-hop", afirmou o prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) quando anunciou a apresentação do grupo de rap na cidade. Apesar de "não entender muito do assunto", Haddad estava certo. Aproximadamente 20 mil pessoas foram ao show do Public Enemy, que inaugurou, neste sábado, 18, a arena de eventos do Clube de Regatas Tietê, com 20 mil m² e capacidade para 40 mil pessoas. O blog Cultura de Rua, espaço dedicado ao hip-hop na revista Rolling Stone Brasil, estava por lá e acompanhou tudo de perto.

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Surgido no começo da década de 1980 e liderado por Chuck-D e Flavor Flav, o Public Enemy é um dos grupos seminais do rap norte-americano. Formado em Long Island, na cidade de Nova York, ganhou reconhecimento internacional por conta das letras com teor político, críticas aos meios de comunicação e ao 'status quo' da sociedade elitista. Mas a maior luta dos músicos, contudo, é contra a discriminação racial e a violência da policial.

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"Estamos muito felizes por estarmos aqui hoje. Então, quero ver todos os punhos cerrados contra o preconceito. Existe apenas uma raça e essa raça é a humana", disse Flavor Flav durante um dos inúmeros discursos políticos que o público presenciou. Às 16h10, o Public Enemy subiu ao palco para delírio dos fãs ao som de "Lost At Birth", canção do quarto álbum do trio, Apocalypse 91... The Enemy Strikes Black (1991). Flavor Flav apenas entrou em cena na terceira faixa: "Get Up Stand Up" do disco Most of My Heroes Still Don't Appear on No Stamp (2012).

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Após muitas tentativas de Chuck-D e Flavor Flav, o público apenas explodiu na quarta canção do setlist, "Rebel Without a Pause", do segundo disco de estúdio do Public Enemy, It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back, responsável pelo sucesso internacional do grupo e considerado um dos discos mais relevantes na história do hip-hop mundial. "Nós amamos São Paulo e sabemos que aqui é um lugar muito importante para nós", disse Chuck-D ao sentir a resposta da multidão ao hit que eles haviam acabado de tocar.

"Em 2013 nós entramos para o Hall da Fama do Rock [evento promovido pela revista Rolling Stone EUA]. Estamos vivendo um momento muito especial e quero compartilhar isso com vocês", disse Chuck-D antes de acrescentar: "aqui em São Paulo há grandes nomes do rap como Rappin' Hood, Dexter e Racionais MC's. Por isso, nós adoramos estar aqui". Os discursos inflamados de simpatia pela cidade e pelo público foram recorrentes durante toda a apresentação e um dos grandes trunfos da banda.

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Apesar de estar acompanhado por dançarinos vestidos com roupas militares que fizeram as tradicionais coreografias das apresentações do Public Enemy, o destaque ficou por conta dos assistentes de palco do trio. Solícitos e atenciosos, distribuíram água para os fãs que estavam espremidos na grade que separava a plateia do ídolos, recolheram todos os presentes jogados pelos fãs na direção do palco e entregaram em mãos e convidaram todos os deficientes físicos que estavam ao alcance dos olhos deles para ver o show em cima do palco. No final da apresentação, ainda distribuíram aos fãs lembranças como o setlist da apresentação e jaquetas autografadas pelos músicos.

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Em "Hoover Music", canção que critica John Edgar Hoover, que perseguiu e matou líderes do movimento negro nos Estados Unidos nos anos 1960, Chuck D afirmou que o melhor lugar do mundo, para ele, é o Brasil. "Aqui eu me sinto em casa", disse antes de completar: "mesmo com Barack Obama no poder, o meu país ainda é extremamente racista. É por isso que eu gosto tanto de São Paulo, aqui há maior igualdade entre negros e brancos".

"Fight the Power", do álbum "Fear of a Black Planet" (1989), foi dedicada aos amantes do hip-hop. Durante a execução dela, Chuck D desceu do palco e interagiu com os fãs: tirou fotos, abraçou e estendeu o microfone para a multidão. Na sequência, os clássicos "Bring the Noise" e "Don't Believe the Hype", ambos do disco It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back, incendiaram o público. É de "Bring the Noise", vale ressaltar, o sample usados pelos Racionais MC's no clássicos "Hey Boy", do primeiro disco deles, Holocausto Urbano (1990).

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A apresentação ainda contou com solos impressionantes do guitarrista Khari Wynn, do baterista Atiba Motta e do baixista David Reeves. O DJ Lord - que substituiu Terminator X, em 1999 - mostrou a habilidade dele nas carrapetas com um live que foi de "Seven Nation Army", do White Stripes, ao hit "Smells Like Teen Spirit", do Nirvana. Chuck D e Flavor Flav também demonstraram habilidade com os instrumentos: enquanto o primeiros fez solos com uma gaita, o segundo tocou baixo e bateria - as batidas precisas de Flav no instrumento percussivo serviram de base para os rappers Rappin' Hood e Dexter entrarem em cena e mandarem algumas rimas no estilo freestyle.

Antes de deixar o palco, Flavor Flav pediu paz e o fim das guerras: "precisamos de mais escolas e menos prisões. O que nós queremos é paz para todas as pessoas, independente da cor da pele de cada um. Nós somos apenas um povo. Somos todos iguais". Com duas horas de show, o Public Enemy mostrou os motivos que fazem do grupo um dos nomes mais importantes da música mundial. Sobretudo, pela humildade com que tratam os fãs e pelo impacto das rimas e do discurso deles - que mesmo 25 anos depois do surgimento da banda continuam atuais e legítimos.

Veja o setlist completo abaixo:

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