Entrevista exclusiva: Luiz Gleiser conta como será o novo Som Brasil, da Globo

Redação Publicado em 13/04/2012, às 19h16 - Atualizado em 14/04/2012, às 18h31

Luiz Gleiser e Marcos Valle
Divulgação/TV Globo/Renato Rocha Miranda

Por Cláudia Boëchat

Desde que foi criado, nos anos 80, com Rolando Boldrin contando seus “causos” e apresentando a música regional brasileira, o programa Som Brasil, da Globo, já destacou muita gente boa. Resgatou nomes importantes que, contudo, não ganham espaço nos grandes veículos de comunicação. Apresentou novos talentos. E continua fazendo isso, apesar das transformações do programa ao longo dos anos. Agora, muda de novo. Camila Pitanga volta a apresentar o programa, mas ele deixa de ter um único grande nome homenageado. Luiz Gleiser, diretor-geral e de núcleo da Globo, conta que o foco do Som Brasil passa a ser “determinados movimentos, épocas e gêneros da música popular brasileira”. A ideia é abrir o leque e não mais destacar um único compositor. Movimentos como Jovem Guarda e Tropicalismo serão temas do programa, que vai ao ar sempre na última sexta-feira do mês depois do Programa do Jô.

O primeiro Som Brasil nesse novo formato será exibido no dia 27 desse mês. O tema será Nordeste dos Anos 70 e terá Elba ramalho, Nuria Mallena, Karina Buhr e Zé Cafofinho e suas Correntes apresentando canções de compositores nordestinos, como Geraldo Azevedo.

Uma coisa muito bacana do site do programa é o blog Novos Artistas, no qual as pessoas menos conhecidas do grande público se apresentam. Só gente boa. É um belo espaço para os novos ganharem fama. “O blog é um projeto da equipe de internet do programa, aquela moçada maravilhosa que também adora fazer o Som Brasil”, comenta Gleiser.

Leia a seguir, na íntegra, a entrevista com Luiz Gleiser:

O Som Brasil começou nos anos 80, com Rolando Boldrin, com características bastante regionais. A mudança em relação ao programa atual, bastante contemporâneo e urbano, foi radical. Por que mudar o Som Brasil “caipira” e não criar um novo programa?

Na verdade, o Som Brasil passou por vários formatos. Ele é uma marca da TV Globo, igual a outros festivais, e são marcas que a gente resgata eventualmente ao longo das décadas da história da emissora. O Som Brasil teve essa fase do Boldrin, depois teve outra fase com o Lima Duarte, que era sensacional também. Depois, ele saiu pela estrada fazendo grandes shows ao vivo pelo Brasil, com várias produções que Roberto Talma dirigia, todas sensacionais. E depois ele saiu do ar.

Quando este formato de programa foi criado, por mim, pelo Flávio Marinho e pelo Rafael Dragaud, na hora de optar por um nome, a gente tinha dois caminhos possíveis: um era chamar de Remix e o outro era resgatar o Som Brasil. O que prevaleceu foi o resgate, porque este programa tem uma intenção política muito clara: de dar apoio à herança, ao legado da música brasileira. Por tradição, este é o programa da música brasileira na TV Globo.

Neste formato, os nossos grandes compositores são interpretados por grandes nomes e pela nova geração, que surgiu a partir dos anos 2000, 1990. A cada programa, a gente lança no mínimo dois ou três grupos ou intérpretes novos, o que dá, num total de 46 programas já gravados, cento e vinte e tantos novos intérpretes ou grupos conquistando seu primeiro espaço na televisão aberta.

Como é feita a seleção dos compositores, homenageados no programa?

É uma decisão em grupo, definida por nós, diretores, autores e produtores musicais do programa. A gente fica decidindo primeiro quem serão os homenageados e depois quem irá prestar este tributo.

Parece que a ideia é mostrar canções de grandes autores com uma nova roupagem, porém, sem descaracterizar demais a música. Como são feitos os arranjos? Fica a critério exclusivo dos que vão se apresentar ou é a direção do programa que dá o tom?

Os grupos são chamados exatamente pelo que a gente espera da abordagem que eles farão ao modo deles, à maneira deles, das canções dos homenageados. A gente só ajuda a colocar as músicas no tempo do programa, porque a maior parte desses grupos jamais se apresentou em televisão. E é muito diferente se apresentar em televisão e se apresentar ao vivo para o público. Então a gente só dá uma ajuda nesse sentido.

Como está a audiência? MPB dá ibope?

Essa pergunta, na verdade, é um conjunto de perguntas. A MPB, quando é encarada de uma maneira proprietária, fazendo um produto específico, como, por exemplo, é o caso do Som Brasil e também era o caso do Fama, que eu também fazia, você desenvolve aquele fonograma para o programa de televisão e sem dúvida garante algum tipo de fidelização de audiência.

A gente está com a mesma média em cinco anos de programa, desde a estreia, e ela é muito boa para o horário. O Som Brasil tem um relacionamento com o público que busca a MPB, que busca música brasileira de qualidade. Aliás, vamos mudar o nome para MBQ, Música Brasileira de Qualidade. (risos)

Por que as escolhas de Camila Pitanga e Patrícia Pillar para apresentar? Alguma relação especial delas com a MPB?

A ligação delas com a música é muito clara e forte, com certeza. E o fato é que o programa foi muito feliz. Tivemos a Letícia Sabatella durante um ano também, enquanto Camila e Pillar estavam com outros trabalhos. Todas as três têm relação com música muito forte. Isso é ótimo.

Como é a composição da plateia? Apenas amigos dos artistas?

Qualquer pessoa pode se inscrever para participar das gravações como parte da plateia.

Nessa fase mais recente, quantos programas já foram apresentados?

São 45. E já gravei o 46º, que será exibido no próximo dia 27, com o novo formato.

Queria que me contasse alguns momentos marcantes do programa.

Com 45 programas exibidos, temos grandes momentos. Fernanda Takai e Erasmo Carlos cantando foi sensacional. O Caetano Veloso cantando “Rocks” também. E tivemos a Tulipa Ruiz cantando “Black is Beautiful”, que foi muito bom. No aniversário do Marcos Valle, fizemos uma comemoração dentro do estúdio, soltamos balão que caiam do teto... Foi maravilhoso. Foram grandes momentos.

Defina a “alma” do programa.

Amor à música.

Qual é a sua ligação pessoal com a MPB?

Eu trabalho com música desde 1972. Eu era repórter do Jornal do Brasil, escrevia sobre música e era programador da rádio JB. Já são 40 anos que eu trabalho com música diretamente. Meu pai era um super músico, tocava tudo, qualquer instrumento que ele pusesse a mão ele tocava - e muito bem. Então minha casa era uma casa muito musical. Aos domingos, eu e meu irmão ficávamos em volta do piano, tocando com o “velho”, fosse no acordeão, na gaita, no violão... Eu não consigo lembrar da minha vida sem música. E é um prazer enorme poder fazer esse programa, que já está em seu sexto ano.

Para ver vídeos do programa, clique aqui.

Agradecimento: Paula Machado da CGCom

Para falar com Cláudia Boëchat, escreva para claudia.boechat@rollingstone.com.br