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Zé Ramalho lança Sinais dos Tempos, um grito de liberdade em uma época de mudanças radicais

Redação Publicado em 03/08/2012, às 21h10 - Atualizado em 04/08/2012, às 22h35

Zé Ramalho - Sinais dos Tempos
Divulgação

Por Cláudia Boëchat

Aos 63 anos, Zé Ramalho lança o 23º disco de sua carreira. Dessa vez, em selo próprio: o Avôhai Music, em sociedade com a mulher, Roberta Ramalho. “Servirá somente a mim, não vou ser patrão de ninguém a não ser de mim mesmo. Não devo satisfações a nenhum burocrata falido ou equivocado, como são esses garanhões de gravadoras”, diz ele em entrevista postada em seu canal no YouTube.

Avôhai é uma palavra criada por Zé Ramalho, nome de música de seu primeiro disco e emblemática como ele. Ouça a canção gravada em 1977:

O tempo não para. Trinta e cinco anos depois, Sinais dos Tempos surge como uma trombeta anunciando as mudanças no mundo do século 21 com relação estreita ao que ele mesmo "pregou" no século passado. "Somos consequência do que fizemos nos dias, meses, semanas e anos passados", afirma. Ouça "Sinais" e "Admirável Gado Novo":

Entrevista: Zé Ramalho fala sobre Sinais dos Tempos, pirataria e da parceria que vem preparando com o compositor cearense Raimundo Fagner.

O tempo é a marca deste novo CD, com 12 canções absolutamente autorais. Com aquele jeitão de visionário que o caracteriza, Zé Ramalho canta as mudanças no mundo. "'Sinais' é uma música em que estou falando – sem nenhuma arrogância – pela humanidade. Será que nós ainda temos tempo de salvar o nosso mundo? Será que nós temos a consciência dos conceitos humanos do bem e do mal, do errado e do certo, de amor e ódio?", questiona. Ouça "Indo com o Tempo":

"Não temos culpa de sermos assim: um bando de animais que guerrea, que se mata uns aos outros. E é uma perversidade muito grande. Pouca bondade", comenta. A injustiça é um tema recorrente em suas canções. E ele vai mais além, falando de fim do mundo, nova era e do Calendário Maia. É o espírito de mudança que permeia todo o disco. "Vivemos mais uma possibilidade do mundo se acabar. O tal do Calendário Maia que anuncia que no dia 21 de dezembro algo vai acontecer - se não o fim do mundo, o começo de uma nova era - é o que eu falo numa música do início da minha carreira. 'O Admirável Gado Novo' dizia 'esperam nova possibilidade de verem esse mundo se acabar'. Mais uma possibilidade surge em 2012." Mas Zé Ramalho parece não acreditar no tal apocalipse proclamado. Faz planos para 2013. Quem sabe lançar Sinais dos Tempos ao vivo.

Como toda a obra dele, esse CD é uma grande viagem, cheio de imagens e símbolos que levam a gente a exercitar a imaginação e a fantasia. Zé Ramalho gosta disso. Desde Woodstock. O psicodelismo marca toda a sua obra. Ele é mesmo um cara fora do comum. Sempre foi. Por isso o que compõe é tão bacana. Zé Ramalho usa iPad e gosta do Youtube. Vê suas músicas reproduzidas mundo afora. Faz bem ao ego de qualquer artista, né? É como um aplauso virtual nesses tempos de tantas mudanças.

"Os tempos passaram e mudaram demais. O que era já não é mais. Aonde me viram, não mais verão. Porque tudo mudou. Viraram de frente, viraram de trás... Quantas pessoas não ficaram surpresas com essas mudanças radicais que o mundo em geral apresentou nesse século 21 que se inicia?", pergunta. "A culpa é do tal do criador, das tais das entidades, que jogam a gente num mundo como esse. Os gens da humanidade vão se desenvolvendo geração após geração e ficamos como nós estamos, assim, como simples mortais e mais irracionais quando os homens se matam uns aos outros", reflete. "A maturidade traz isso." Ouça “Justiça Cega” e “Lembranças do Primeiro”:

Zé Ramalho foge do óbvio. “Nenhuma música minha tem o termo ‘eu te amo’. Falo essas coisas por outras palavras, por outros caminhos.” É assim mesmo. Ouça, para finalizar, “Um Pouco do que Queira”:

E quem quiser ouvir o depoimento completo de Zé Ramalho sobre Sinais dos Tempos, é só assistir a esse vídeo com quase uma hora de duração. Vale a pena:


Para falar com Cláudia Boëchat, envie e-mail para claudia.boechat@rollingstone.com.br