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The Baggios comemora 10 anos de blues e histórias com CD/DVD ao vivo e documentário

Vocalista Júlio Andrade elege os 10 momentos mais importantes do duo sergipano

Lucas Brêda Publicado em 13/05/2015, às 17h27 - Atualizado em 20/05/2015, às 16h00

The Baggios

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Por Lucas Brêda

Um dia antes do show de comemoração de dez anos de história do duo sergipano The Baggios, apenas 200 ingressos haviam sido vendidos. “O lugar cabe 750 pessoas”, lembra o vocalista e guitarrista Júlio Andrade. “Pensamos: ‘Fodeu. Vai ser com esse público mesmo’. Quando chegou na hora, a organização disse que a fila estava grande, o teatro, lotado, e ainda ficou gente do lado de fora.”

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A apresentação recheada de participações especiais aconteceu no Teatro Atheneu, em Aracaju, e foi registrada em áudio e vídeo pela banda. O resultado sai no formato do CD/DVD ao vivo Dez Anos Depois – que ainda traz um documentário de cerca de meia hora de duração –, lançado em formato físico e digital nesta quarta, 13, no site oficial do grupo, com o blog Sobe o Som.

Da porta ao palco

A quem pega o DVD pela primeira vez, estranha que o blues seco e brutalista do Baggios tenha sido levado a um teatro, onde o público fica majoritariamente de pé. “Procuramos lugares que tivessem uma certa estrutura”, argumenta Andrade, falando também das poucas possibilidades de datas para reunir todos os participantes. “Mas Aracaju tem uma limitação deste tipo de espaço, e acabamos pensando no teatro, mesmo sendo um lugar atípico.”

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“Como não temos esse hábito de tocar em teatro, já estávamos imaginando: ‘Vai ser estranho tocar para o pessoal sentado’”, admite o vocalista. “Mas teve um momento que eu percebi que todo mundo se levantava no meio das músicas. E chegou uma hora que o show já tinha pelo menos metade do público de pé. E quando chegou à parte final, já estava todo mundo de pé.”

O Teatro Atheneu, entretanto, não teve importância apenas formal para Dez Anos Depois. “Lembrei-me do primeiro show que fiz na vida, que aconteceu na porta do Teatro [Atheneu]”, reflete, recordando o longínquo ano de 2001. “Depois de 13 anos eu estava ali, em cima do palco, fazendo rock em Sergipe, com uma banda que já existe há 10 anos.”

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Para entender a trajetória do Baggios, o documentário que acompanha para Dez Anos Depois é fundamental. Nele, os dois ex-bateristas do grupo relembram histórias do início do duo, do primeiro ensaio – no qual Júlio se lembra de tocar músicas do Jesus and Mary Chain, Jimi Hendrix, White Stripes –, passando pela percepção de que era possível levar a banda adiante como um duo, até o lançamento de “O Azar Me Consome”, cujo clipe praticamente lançou o Baggios em cenário nacional.

A faixa presente no primeiro algum do grupo, The Baggios (2011), aliás, é uma das mais celebradas no show, que flerta com singelos momentos épicos. Entre eles, a performance acústica e solitária de “Domingo”, com a plateia a cantar no fundo, a introdução de “Sem Condição” e os inúmeros solos precisos de Andrade.

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Em algumas das 20 performances de Dez Anos Depois, o instrumental básico guitarra-bateria é incrementando por um duo de metais – o mesmo que acompanhou a banda em alguns shows no passado –, baixo, acordeão, percussão, entre outros, dando interpretações variadas às versões já conhecidas das músicas.

Abaixo, veja o trailer de Dez Anos Depois

Para condensar a história do Baggios, o Sobe o Som pediu para Júlio Andrade elencar os 10 principais momentos da banda em seus 10 anos de existência. Veja abaixo.

The Baggios – Dez anos em dez momentos

1º – abril de 2004 – “The Baggios”

“Quando eu e Lucas (primeiro baterista da banda) resolvemos pegar uns equipamentos emprestados e vamos ao estúdio pela primeira vez para tocar algumas composições minhas e de bandas que ouvíamos muito na época – como Jesus and Mary Chains, Sonic Youth e White Stripes. Mesmo sem Lucas ter tocado bateria na vida, nos empolgamos com o ensaio e ali começou de fato o Baggios.”

2º – últimos meses de 2004 – “O Show Mais Tenso da Banda”

“Fomos convidados para tocar num festival com 10 bandas, em um dos bairros mais ‘boca-quente’ de Aracaju, e fomos escalados para ser a última a se apresentar. O evento começou às 19h, e quando subíamos no palco às 5h da manhã, tinham cinco pessoas na plateia, o dono do som estava desmontando tudo. Estava lá eu, já de ressaca da noite, discutindo com o dono do som, e consegui convencê-lo a ficar um pouco mais para tocarmos três músicas – e assim aconteceu. Após o show tivemos que caminhar 5 km até o ponto de ônibus com equipamentos, tensão total, só galera barra pesada no caminho. Chegamos vivos e sem ter sido roubados.”

3º – meados de 2005 – “A saída do primeiro baterista”

“Lucas resolve ir morar na Suíça e fiquei realmente sem saber se a banda continuaria. Já tinha passado por outras duas bandas entre 2001 e 2003, que deram errado, e estava acontecendo com mais uma banda. Fiquei sem tocar e compor alguns meses, mas sem saberem da nossa situação, fomos convidados para tocar no Festival de Artes de São Cristóvão (que um dia já um dos maiores do Nordeste) e isso me motivou a convidar um amigo para fazer esse show e ver no que daria. A banda continuou com Elvis Boamorte na bateria.”

4º – janeiro de 2007 – “Primeira Demo”

“Lançamos finalmente nossa primeira demo. Foi um marco! Finalmente estávamos lançando algo! Entre 2005 e 2006 comecei a compor em português, juntamos R$ 200 e em poucas horas no estúdio gravamos 10 músicas, entre elas ‘O Azar Me Consome’, a qual os arquivos foram perdidos e só acabamos lançando-a anos mais tarde, no primeiro álbum.”

Na foto abaixo, Júlio Andrade e Gabriel aparecem com Baggio, figura que deu nome à banda.

5º – janeiro de 2008 – “Primeiro Show Gigante”

“Com a repercussão da demo pelo estado, fomos convidados para abrir o show de Paralamas do Sucesso na Praia de Atalaia. Tive vários pesadelos antes desse show, estávamos acostumados a tocar para 300 pessoas, e sabia que iriamos ter que encarar 30.000 pessoas. Comecei o show bem tenso, mas no fim das contas foi uma experiência muito foda e quando acabou queria que rolassem mais shows como aquele.”

6º – meados de 2009 – “Primeira Turnê”

“Já com Gabriel na bateria, lançamos o EP Hard Times (gravado ainda com Elvis no ano anterior), e foi quando a banda fez a primeira turnê na vida. Juntamos-nos com outras duas bandas daqui e fizemos vários shows para arrecadar uma grana e conseguir pagar um van e sair em turnê. Quase um desastre. Dos seis shows marcados, quatro aconteceram, sendo que em dois deles tocamos para 30 pessoas. Mas trouxe bons frutos pra Baggios, pois rendeu convites para voltar a Festivais legais como o Dosol (Natal) e Festival Mundo (João Pessoa).”

7º – 2010 e 2011 – “Repercussão Nacional”

“Queríamos gravar o primeiro álbum da banda e queríamos que fosse ao vivo. Como tínhamos uma turnê de sete shows pelo interior de São Paulo, em 2010, aproveitamos para gravar na capital. O disco projetou a banda nacionalmente, tivemos clipes na MTV e VH1, resenhas em vários blogs, citações no jornal inglês The Guardian, O Globo. Emocionante demais pra mim.”

8º – 2012 – “Tocando adoidado”

“Fizemos uma turnê de 30 shows em 40 dias, passando por 25 cidades brasileiras. Viajamos diariamente, vivemos a música de fato. Dormimos e tocamos lugares bem tensos, viajamos de carona, de ônibus, de avião e fomos testando músicas do Sina. Naquele ano chegamos a tocar na Virada Cultural de São Paulo e outros grandes festivais. Todas as bandas merecem passar por isso. Valeu muito a pena!”

Adendo: “Morreu Baggio, o grande figura que deu nome à banda. Lamentei bastante, e escrevi ‘Adios Baggio’ música que saiu na versão em vinil do disco Sina.”

9º – 2013 – “A Sina”

“Tínhamos uma promessa de gravar nosso próximo disco por uma grande gravadora. Já estava ‘tudo certo’, repertório montado, músicas certinhas, passagens compradas para a gravação, até que recebi uma ligação que não seria possível gravar mais naquela data (outubro de 2012). Tentamos outra, depois outra, e outra... até que em março de 2013 remarcamos finalmente, voltamos a nos empolgar e ensaiar intensamente, e agora vai... e.... não foi! Faltando 10 dias para o inicio da gravação, desmarcaram. Foi uma tristeza da porra, fiquei extremamente desmotivado. Respiramos e na semana seguinte decidimos fazer tudo por conta própria em Aracaju, e assim nasceu o álbum Sina que saiu em dezenas de listas de melhores do ano.”

10º – 2014 e 2015 – “Dez Anos Depois”

“Gravamos nosso melhor show de todos os tempos em DVD e tocamos em festivas sinistros, como o Porão do Rock, onde tocamos para mais de 40 mil pessoas, e em lugares que sempre sonhamos em tocar como o caso do SESC Pompeia.”