A Nova Ordem Musical

Peter Hook, baixista do New Order, conta sobre os próximos passos dele e da banda

José Julio do Espirito Santo Publicado em 21/08/2007, às 14h25 - Atualizado em 11/09/2007, às 17h21

Peter Hook, Stephen Morris, Bernard Sumner e Phil Cunningham (da esquerda para a direita): retorno ao Brasil, 17 anos depois
Divulgação

Nos últimos meses de 2006, Peter Hook passará duas vezes pelo Brasil. Como DJ - ele veio em setembro e imortalizou o "passinho do coice" - no Motomix Art Music, e com o New Order, que toca clássicos do seu extenso catálogo nos dias 13 e 14 de novembro em São Paulo. "O público brasileiro pode esperar quatro homens maduros. Dois ou três deles com instrumentos de cordas e outro tocando bateria", brinca.

Inquieto, o baixista, que vê como ponto crucial na sua trajetória o fato de ficar sóbrio, ainda arranja tempo para escrever um livro sobre o Fac 51 The Haçienda, o clube inglês pelo qual passaram grandes nomes da música como 808 State, The Smiths, The Fall, Stones Roses e Happy Mondays. Entre 1982 e 1997 o lugar, aberto pelo selo independente Factory, foi o grande catalisador de diferentes estilos musicais - como a dance music, o hip hop e o eletro - e manteve seu funcionamento também pelo mecenato do New Order: parte da venda dos CDs da banda era revertida em prol desse celeiro de sons. Nesta entrevista exclusiva para a Rolling Stone, Hook fala das lembranças dessa "noite" de Manchester, do New Order de hoje e de como a música vira casamento ou alcoolismo.

Alguém da banda falou que o álbum Waiting for the Sirens' Call (de 2005), foi o primeiro em que todo mundo estava sóbrio durante as gravações.

Isso não é verdade. Acho que até a data de lançamento estávamos bêbados feito gambás. Nunca estivemos sóbrios em nenhum de nossos discos.

É possível apontar alguns pontos cruciais na carreira do New Order?

Acho que um dos maiores foi quando a banda deu uma parada em 1990 e voltou seis anos depois. Mas há muitos outros momentos na vida do New Order que também foram bastante importantes: a falência do [selo inglês] Factory, o Haçienda...

Vocês perderam muita grana com a Factory e o Haçienda?

Perdemos uma verdadeira fábula de dinheiro, não consigo nem imaginar o quanto.

Falando sobre o Haçienda. Você está escrevendo um livro sobre o clube. Quando ele será publicado?

Na verdade estou começando a escrevê-lo. Vai demorar um bom tempo até ser publicado, e isso é deprimente. É muito difícil. Até agora só tenho idéias jogadas. Não é igual a fazer um disco. Imagine se, de repente, falassem para você compor tudo para um disco. É mais ou menos assim. Não sei onde isso vai dar, mas acabei abrindo a boca para dizer: "Ah, foda-se! Vou escrever esse livro". Agora preciso de um plano. Se você tiver algum, me ajude. [risos]

Temos certeza de que há várias histórias para lembrar...

É. Estou brincando. Vai ser bom, engraçado. A história do Haçienda se divide em duas partes: pré-acid house e pós-acid house. Para mim, a acid house foi a segunda onda punk e o Haçienda, o berço dela. O New Order passou por isso, mas não pulou de cabeça. Tentamos pegar o que era bom para nossa música.

E como rolou a sua primeira noite como DJ?

Fiquei parado lá, meio bêbado, volta e meia respondendo perguntas sobre o porquê do New Order quase nunca fazer shows.

E onde foi isso?

Em um clube lá em Barcelona [Espanha]. Eu estava dividindo o mesmo palco com o Mani, do Primal Scream.

Voltando um pouco para o New Order de hoje em dia, você acha que Waiting for the Sirens' Call foi um passo natural após Get Ready?

É engraçado você dizer "natural". Foi o passo seguinte. Se foi natural? A história é longa...

Consegue resumir algumas passagens dela?

Já era hora de fazermos outro disco, mas a época não era das melhores para mim. No final acabamos com tantas músicas que poderíamos ter lançado um álbum duplo - mesmo que nem todas do repertório tenham ficado legais como eu esperava. Trabalhamos com muitos produtores e não vi um resultado melhor do que se tivéssemos feito tudo sozinhos. O problema é que entamos agradar a muitas pessoas, mas deixamos um pouco de agradar a nós mesmos, sabe? Essa é a minha opinião pessoal. Se você fizesse a mesma pergunta ao Bernard [Sumner, o vocalista e guitarrista], teria uma resposta diferente, provavelmente oposta. Ele adora o disco.

Uma banda é mesmo feita de pessoas diferentes.

É aquela velha comparação com o casamento. "É como um compromisso", minha mulher sempre me diz isso. [risos]