"Não sou cabeça"

Filho de Renato Russo, Giuliano Manfredini afirma que seu pai não era Deus

Fernando Nakagawa Publicado em 21/08/2007, às 14h45 - Atualizado em 31/08/2007, às 17h29

"Sei que meu pai é um ídolo, mas essa admiração não pode virar fanatismo"
Rayssa Coe

Nem adianta vir com expectativa, porque - perdoe o chavão - nem todo filho de peixe, peixinho é. Giuliano Manfredini é prova disso. "Um dia, uma professora de português descobriu que eu era filho do Renato Russo e veio me avisar que estava decepcionada com meu vocabulário, com as coisas que eu dizia e escrevia. Mas eu sou eu! Ninguém pode achar que sou meu pai."

Aos 17 anos, o filho de Renato Russo anda pela capital do país como qualquer jovem prestes a entrar na universidade, onde quer cursar direito. Só chama a atenção, mesmo, pela altura - ele tem 1,90 metro. Algumas espinhas no rosto, camisetas largas, a preocupação com as notas do colégio e, claro, garotas, fazem parte do dia-a-dia do rapaz de fala tranqüila, mas que admite ser ansioso. A relação dele com a música se limita às aulas de guitarra e uma mal-sucedida tentativa com uma banda de heavy metal.

Giuliano tem um cotidiano de qualquer outro garoto de sua idade. A diferença é como as outras pessoas o encaram. Ser filho de quem ele é faz com que os fãs de Renato Russo depositem expectativa. Isso, ele admite, não é nada bom. "As pessoas me encontram e acham que eu sou um 'cara cabeça' como o meu pai. Não me incomodo com a comparação, mas é que não sou 'cabeça'. Sou descontraído, informal", diz, quase em tom de desabafo. "Mesmo se me achasse inteligente, não sairia por aí falando isso. Quem é convencido nunca vai ser uma pessoa cabeça", teoriza.

Às vésperas da primeira década da morte de Renato Russo, em 11 de outubro, a imprensa voltou a assediar Giuliano. Aparentemente, esse contato não o incomoda. Dá a entender que é preciso ter cautela ao tratar de personagens públicas. "Sei que meu pai é um ídolo, porque ele surgiu em uma época diferente, em que as pessoas queriam alguém que dissesse 'basta' para tudo aquilo que estava acontecendo", diz. "Foi o que meu pai fez. Por isso, ele é encarado como um revolucionário. Mas essa admiração não pode virar fanatismo, porque ele não era Deus. Ele foi importante porque os tempos eram outros." Giuliano mantém preocupações mais terrenas que as letras de Renato Russo e a idolatria de seus fãs, como por exemplo os trabalhos da feira de ciências de seu colégio, um dos mais tradicionais de Brasília.

Engana-se quem imagina que ele preferiria subir ao palco do colégio para seguir os passos do pai. As aulas de guitarra ele começou há oito meses. "Mas só por hobby." Entre seus sons preferidos, nomes que passam longe das influências da Legião Urbana. Dream Theater, Iron Maiden, Offspring e System of a Down encabeçam seu top 10, além de nomes pop como Annie Lennox e Corrs. Sua única experiência musical foi encabeçando a banda de metal Khronos. Giuliano tentou até compor em inglês. "Escrevi um pouco, não gostei, refiz uma parte. Até que perdi a paciência e rasguei tudo." O sonho de metal durou apenas seis meses. "Só queriam saber de fazer covers do Judas Priest. Aí, saí."

Politizado, o filho do vocalista mais engajado do rock nacional defendeu que amigos com menos de 18 anos tirassem o título de eleitor. "Cada um tem de tentar mudar a situação. Quem deixa essa decisão para o outro não quer que nada mude", defende. E além do voto, qual seria sua outra sugestão para melhorar o mundo? A resposta é rápida e, porque não, um tanto profética. "A música, é claro. Quem sabe transformo toda a minha indignação em letra, música? É possível."