RS Brasil faz um ano; reveja a edição 01. Jack Nicholson foi um dos destaques

Uma visita à casa de Jack Nicholson pode ser bem mais chocante do que seu papel sanguinário em "Os Infiltrados"

Erik Hedegaard Publicado em 21/08/2007, às 15h10 - Atualizado em 11/10/2007, às 19h45

"Quando me casei, sabia, por causa da minha libido, que existiriam outras mulheres na minha vida"
Mathew Rolston

Jack Nicholson desce lentamente a escada de sua casa em Mulholland Drive, em Los Angeles (Estados Unidos). Está um pouco atrasado, acabou de vestir as calças. Ele mora aqui há mais de 30 anos: é um sobrado de estuque comprado por US$ 80 mil, lotado até as tampas com poltronas macias, sofás relaxantes, obras de arte de preço incalculável, estatuetas do Oscar (três), livros, um ex-auxiliar dos fuzileiros navais chamado Oz, que hoje é seu cozinheiro, uma caixinha de óculos marcada com "leitura" (bem útil), uma tigela de frutas (ele não come, mas Oz não desiste), tubos de pasta de dente de marca Rembrandt e Close Up, muito medo do mundo de maneira geral e enormes problemas históricos com o conceito da monogamia - isso sem falar nos ecos de festas orgiásticas e encontros amorosos acalorados e numerosos demais para contar.

O espaço é todo ele. Foi aqui que, no final da década de 1960, por questão de auto-ajuda, ele passou três meses andando pelado, a qualquer hora do dia, independentemente de quem pudesse fazer uma visita - inclusive a própria filha. É o lugar onde o vizinho mais próximo, o saudoso Marlon Brando, costumava entrar, quando Jack não estava em casa, para fuçar a geladeira (geralmente porque a da casa dele estava fechada a cadeado) e por alguma razão deixava para trás as cuecas, que então apareciam misteriosamente no meio de sua roupa lavada. É o lugar onde hoje, depois de conseguir aparar com destreza as unhas dos pés, ele se acomoda na sala de estar, dominada por uma lareira de tijolos brancos bem no meio ("para que não possa ser encurralado", diz). Está usando uma camisa pólo, calça cáqui e chinelos pretos felpudos; com o cabelo, que vai rareando, penteado todo para trás, sua aparência é ótima aos 69 anos, apesar de uma barriguinha mais para saliente e problemas ocasionais com azia. Ele se dirige a uma poltrona, ajeita-se e, com aquela voz grave e maravilhosa de Jack, apresenta uma explicação mais detalhada para o atraso.

"Ah, sabe como é", rouqueja. "No último minuto, a bexiga de garoto velho..."

Então acende um cigarro e se recosta, sem se dar ao trabalho de terminar a frase que começou, algo que acontece com freqüência no caso dele, quando o final da idéia se completa apenas com o movimento de suas sobrancelhas espessas e piramidais em direção ao céu. Mas há outras vezes em que ele respira bem fundo, começa a falar, geralmente em parágrafos polpudos e bombásticos, e nunca mais pára. Por exemplo, quando discute seu filme mais recente, Os Infiltrados, dirigido por Martin Scorsese, com Leonardo DiCaprio e Matt Damon, em que apresenta mais uma performance digna de Oscar na pele do chefão da máfia irlandesa Frank Costello, que é provavelmente o maior criminoso de todos os tempos (em uma cena arrepiante, ele sai de trás de uma porta fechada coberto de sangue). Durante as filmagens, esperava-se que ele - o ator mais relaxado e experimental de todos - travasse embates ferrenhos com Scorsese - o diretor mais rígido e mais controlado de todos.

"Minha reação ao 11 de Setembro foi a seguinte: 'Isto aqui é simplesmente uma catástrofe, por isso vou passar um tempo fazendo comédias'", Jack diz, retrucando no meio de uma nuvem espessa de fumaça de cigarro. "Fiz três na seqüência [As Confissões de Schmidt, Tratamento de Choque e Alguém Tem que Ceder] e pensei: 'Caramba, queria mesmo fazer um cara mau'. E o que interpreto em Os Infiltrados é mau. Nada é sagrado para ele, nem a igreja, nem os filhos, nada. Conheço Leo há algum tempo e, na verdade, foi ele quem me pôs ali. Também já conhecia Matt. Gosto muito dos dois. No começo, entrei pisando em ovos, mas Martin foi uma inspiração, mostrou-se muito acessível. Achei que seria mais assustador se meu personagem tivesse um componente sexual, mas a única coisa que colocamos nas anotações foi: 'Costello faz sexo animal'. Então liguei para Martin e disse: 'Olha, acabei de pensar o que seria uma seqüência interessante de Costello fazendo sexo'. E, numa cena com duas mulheres, uma delas usando uma prótese peniana, ele simplesmente joga um punhado de cocaína e diz: 'Não se mexa até se sentir entorpecida'. Mais tarde, em um cinema pornô, para fazer uma piada desagradável, o cara se vira para o personagem de Matt Damon com a mesma prótese peniana saindo para fora das calças. Essa foi uma idéia minha, de improviso. Essas partes servem para apimentar o filme."

Enquanto ele fala, fico olhando ao meu redor. O ambiente é sereno, simples, sem sofás metidos de couro, nada do tipo, um violão em um canto, uma piscina gostosa que reluz ao crepúsculo no fundo, e logo posso ouvir Nicholson discursando a respeito de todos os assuntos recentes mais palpitantes - a demissão de Tom Cruise pela Paramount, o discurso anti-semita e bêbado de Mel Gibson, o mau comportamento de Lindsay Lohan no set de filmagem - e deixando no ar a dica desencanada de que, na verdade, ele não se interessa muito por nada disso. E, durante todo o tempo, fico pensando para onde é possível levar Jack Nicholson, se existe um lugar onde ele nunca esteve, várias vezes, sem se sentir à vontade?

Entre seus colegas mais antigos no ramo do cinema - Warren Beatty, Dennis Hopper, Harry Dean Stanton, Peter Fonda, Art Garfunkel, Bruce Dern -, Jack é o único que continua sendo fundamental para a produção cinematográfica atual. Continua sendo amigo da maior parte deles e ainda costumam se falar, apesar de não com muita freqüência. E, entre seus contemporâneos que podem ser encaixados no mesmo nível de atuação, como Al Pacino, Robert De Niro e Dustin Hoffman, ele simplesmente parece predominar. Além de ser uma estrela de cinema, também é um ícone cultural e, nessa posição, conseguiu sozinho invalidar denominações como "Hollywood das antigas" contra "Hollywood moderna". DiCaprio e Damon são grandes estrelas de cinema por mérito próprio, mas como Os Infiltrados (com estréia prevista para 10 de novembro no Brasil) deixa bem claro, Nicholson é maior e melhor do que ambos. Em resumo, ele é tudo o tempo todo, uma força da natureza lunática e sui generis que, na vida pessoal, é perdoado por todos os pecados aparentes - sua obsessão por mulheres, o fato de ter destruído um carro com um taco de golfe, suas fugas atrás de óculos escuros -, mesmo que seus desvios alcancem níveis estratosféricos, porque, afinal, o que fazer com um sujeito destes?

Nunca é demais reafirmar: em termos do que é cool e suas variações, Nicholson, dentro e fora dos filmes, conseguiu exprimir quase tudo que vale a pena ser expresso. Ele é o rebelde mítico de Easy Rider - Sem Destino (1969), a performance que o revelou para o mundo, em um início tardio aos 32 anos; o homem lacônico que deixou tudo para trás de Cada um Vive Como Quer (1970); o misógino que odeia a si mesmo de Iniciação Carnal (1971); o detetive sabichão de Chinatown (1974); o louco que desafia o sistema de Um Estranho no Ninho (1975); até chegar ao sedutor exagerado de traseiro flácido de Alguém Tem que Ceder (2003), com paradas iluminadoras ao longo do trajeto para definir a verdade sobre o bloqueio criativo de um escritor em O Iluminado (1980); a natureza assassina da luxúria em O Destino Bate à Sua Porta (1981); e os efeitos da velhice sobre um ex-astronauta que gosta de se divertir em Laços de Ternura (1983). Nascido em 1937, ele foi abandonado pelo pai e criado no litoral antiquado de New Jersey. Já estava quase com 40 anos quando soube que a mulher que pensava ser sua irmã, na verdade, era sua mãe e que seus supostos pai e mãe eram, de fato, seus avós - um conjunto de circunstâncias pessoais de bagunçar a cabeça de qualquer um e que parecem também servir para descrever de maneira geral muitas das perplexidades sociais e sexuais da época. Em certo sentido, ele sempre operou como homem em posto avançado no que diz respeito ao que é mais escandaloso e não convencional.

Será que Russell Crowe ou Colin Farrell teriam permissão para agir de maneira tão libidinosa em público se Jack, o Grande Sedutor, não tivesse preparado o terreno para eles? É claro que Warren Beatty, grande amigo de Jack, também não deixou barato nesse quesito. Mas o curioso é que, com o tempo, todos eles foram se casando, ou tiveram filhos e se acalmaram, ou então se transformaram em algo mais ou menos respeitável - tudo que Jack não é. "Divertir-se mais é a minha ética e a minha moral", ele gosta de dizer. Em outras palavras, hoje é um dia igual a sempre, e que se dane o que os outros pensam.

Pergunto: "Se você por acaso precisar de uma camisinha, sai para comprar pessoalmente?"

"Nunca comprei uma camisinha", ele murmura. "Mas quando preciso de um filme pornô ou algo assim, meus empregados vão lá e compram."

"Já usou camisinha?"

"Claro."

"E deu certo?"

"É sempre um problema. Não dá para sentir o movimento." Ele suspira, dá um gole no café gelado e prossegue: "Olha, tenho terapia reichiana na bagagem. No começo, tinha problemas com aquele tipo mais comum de impotência, rápida e repentina, que na verdade é uma espécie de nervosismo relacionado a apegar-se demais às coisas e não senti-las, o que faz parte do que estamos falando. Na verdade, tudo tem a ver com sentir as coisas, não em algum ponto localizado, mas no sentido mais amplo de a experiência passar através do seu ser. Na minha vida, a partir da Segunda Guerra Mundial, o mundo ficou mais livre, só por natureza. E agora temos a Trepada Mortífera. E quando essa idéia se disseminou, o auge da negação do sexo e do prazer no mundo, quer dizer, a coisa simplesmente chegou ao ponto de 'Não posso fazer mais isto'. Já não era mais uma catástrofe completa. Então fui ao médico e fiz uma análise científica muito específica que se resumiu ao seguinte: a menos que você seja um aventureiro ou algo assim, existe a mesma probabilidade de você apresentar esse problema quanto a de um cofre cair em cima da sua cabeça. Quer dizer, analise a questão do ponto de vista lógico. Se você compreende um pouco a respeito de números, só com a progressão geométrica, se tudo fosse verdade, todo mundo estaria morto a esta altura".

Ele prossege nessa toada e fico enlouquecido tentando fazer a análise sintática das palavras dele. É difícil, porque quando não abrevia as frases, Jack deixa os pronomes sem a maior parte de seus antecedentes e esquece absolutamente todas as preposições. Mas acho que ele está dizendo o seguinte: quando a crise da aids começou, ele tentou usar camisinha, mas isso o impedia de sentir a "catástrofe completa" do ato sexual, então foi consultar um médico, que lhe disse para não se preocupar com a doença, e por isso ele não usa mais camisinha. De todo modo, em momentos como esse, em que ele se deixa levar pelo éter, reparei que a maneira mais fácil de fazê-lo retornar à Terra é mergulhá-lo na sarjeta.

"Qual é sua posição preferida?"

"Hã? Ah. Ha, ha, ha. He, he, he. Dois braços e pernas", ele responde, enigmático.

E, em momentos como esse, o melhor é erguer a voz e começar a gritar coisas do tipo: "Ah, fala sério, Jack! Tem de ser a do papai-e-mamãe! É a preferida de qualquer cara!"

"É. É mesmo", ele responde. "Mas, quando a gente vai ficando velho, passa a ser um papai-e-mamãe invertido, por causa de outras razões. Olha, hoje em dia sou menos impetuoso. Não por causa de alguma mudança de caráter, mas a nossa fisionomia muda. Não sou assim tão obcecado. Tenho a mesma libido. Mas se você a quer ali ou não, essa parte da sua vida muda um pouco. No entanto, sempre procurei fazer o que gostava. E tive sorte porque foi exatamente assim que as coisas funcionaram para mim."

"Você está dizendo que só ia para a cama com muitas mulheres porque aconteceu assim?"

"Bom, não. Sabe como é, quer dizer, eu era muito obstinado. Eu me lembro de me excitar sexualmente, pelo menos em nível mental, com as coisas da infância, até mesmo antes dos 8 anos, na banheira. Quer dizer, meu apetite era grande."

"Exatamente como Kim Basinger certa vez observou!", digo. (O que ela disse foi o seguinte: "[Jack é] o indivíduo mais tarado que eu conheço.")

"Bom", Jack então diz, respirando bem fundo. "Nunca falei muito sobre isso. Mas, para ser bem honesto, sou muito sensível nessas áreas. Vamos usar esta palavra."

"Bala?", digo, e ofereço-lhe uma.

"Claro", ele responde e coloca na boca.

E então, durante alguns minutos, deixamos o dia passar; parece que sua nave de conforto sacudiu só um pouco, com uma brisa que soprou atrasada.

Muitas coisas andam ecoando ao redor de Jack Nicholson nos últimos tempos. Tomemos como exemplo a cena com um pênis artificial em um cinema pornô que ele criou para Os Infiltrados. Suas raízes, pode-se argumentar, remontam a 25 anos no tempo, a 1981, quando estava fazendo O Destino Bate à Sua Porta, com Jessica Lange - é um filme que transborda sexo, mas que não tem uma única cena de nudez. Jack, no entanto, estava determinado a transformá-lo em "uma das películas mais perversas de todas" e resolveu que a solução seria mostrar uma ereção - "um tipo de saliência localizada" - embaixo da calça pregueada da década de 1940. Para tanto, pediu ao diretor Bob Rafelson que lhe providenciasse uma prótese convencional, mas ninguém o levou a sério; então, quando chegou o dia de filmar a cena, ele se viu de mãos vazias e irritado. Rafelson disse: "Bom, caramba, se você está assim tão irritado com isso, vá lá em cima e veja o que consegue". E foi o que Jack fez , ficou "batendo sem parar", ele conta, até perceber que algumas coisas estavam além de sua capacidade.

E então temos Marlon Brando, o único ator que conseguiu ultrapassá-lo na posição de ídolo. Como é estranho pensar que, durante três décadas inteiras, essas duas figuras compartilharam a mesma alameda e moraram em casas separadas por apenas alguns minutos de tropeções pelo meio do mato (como Beatty, amigo deles, também morava ali perto, a diversas casas de distância, o trio formava uma espécie de trindade depravada que certa vez levou a polícia local a apelidar Mulholland Drive de "rua dos bad boys"). Jack idolatrava Brando. Ele o chamava de "o Homem da Colina" e ficava sempre maravilhado, ou pelo menos não horrorizado, quando encontrava cuecas de Brando no meio de sua roupa lavada. Então, quando ele morreu, em 2004, Jack comprou sua casa, por US$ 6,5 milhões. Está em péssimas condições, caindo aos pedaços. Seus planos são livrar-se da construção completamente e plantar plumérias no lugar em que se ergue.

"Era raro falar com ele ao telefone", diz. "Na maioria das vezes, Brando simplesmente aparecia caminhando. Nós tínhamos muitas, muitas outras discussões além de: 'Bom, o que é que a gente vai fazer com o portão?' e 'Bom, fiquei sabendo que os meus filhos estiveram aqui'. O que posso falar? Ele é uma das presenças mais fortes em minha vida, só de ficar ali sentado, aquele grande sujeito. Mas, depois que morreu, passei meses ou anos sem conseguir ir até lá. Tinha um vodu esquisito." Ele estremece, todo dramático, para mostrar o que quer dizer. "Eu sentia tipo um vodu." Então, faz uma pausa e diz: "Durante 30 anos, a presença de Marlon era uma árvore que costumo ver pela janela na frente da minha privada. Sinto saudade dele".

Para evitar a melancolia, mudo de assunto e peço que descreva uma manhã típica. Ele diz que geralmente acorda por volta das 11 horas, quando Glória, a arrumadeira, leva seu café da manhã na cama. Uma bandeja de café da manhã é um copo de suco de laranja, uma xícara de café (leite, açúcar), um potinho de pudim de chocolate diet (mas só nos fins de semana) e sua dose diária de pílulas, que incluem uma aspirina pequena, devido a todo bem que uma aspirina pequena por dia pode fazer a alguém; Lipitor, para tratar de certas questões de colesterol; e Celebrex, para aliviar a dor da artrite, com um Prilosec sempre a postos, caso surja uma azia. Depois, à noite, ele normalmente só vai dormir depois das 4 horas e quase sempre passa as duas últimas horas antes de apagar as luzes - "meus momentos de coçar o saco" - com o nariz enfiado em um livro, mais recentemente O Código Gênesis, um romance policial de John Case, e Charlie Wilson's War (A Guerra de Charlie Wilson), de George Crile, sobre um congressista norte-americano maluco e renegado. Normalmente, lê na cama, na metade do colchão que já pegou a forma do corpo dele e que ele gosta de chamar de "a reentrância".

"E, é claro", ele prossege, exibindo um sorriso de lobo, com caninos reluzentes, "gosto de companhia quando tenho. É sempre divertidíssimo."

"E você tem muita companhia?"

"Faz um bom tempo que não estou comprometido, então tenho companhias variadas. Em termos de idade, dá para dizer que, no decorrer do último ano, provavelmente cobri o território de 21 a 61."

"Sessenta e um?"

"É, sou bonzinho com minhas amigas. Sabe, com certeza existe mais do que uma pessoa que freqüento há, talvez 30 anos, intimamente. Improvável para mim. Tenho as coisas normais que as pessoas têm. Sabe como é, mamãe sentada na privada, assustada: 'Nossa, sabe, quando você era pequeno?', ou seja lá o que for. Você sabe do que eu estou falando. 'Ah, será que eu vou conseguir encarar um crepe?', ou sei lá quais medos sejam."

A coisa da mamãe-sentada-na-privada-assustada é tão do além e tão bizarra que fico embasbacado que nem me lembro de perguntar o que ele quer dizer com isso. A única coisa que consigo dizer é: "Crepe?".

"Crepe", ele responde. "Sabe como é, qualquer medo que você tenha a respeito de entrar em contato com a mortalidade ou com o processo de envelhecimento, especialmente nesta área."

O que ele quer dizer, de repente percebo, são seus medos de entrar em contato com pele velha, enrugada e flácida, parecida com um crepe; não a do próprio traseiro, mas a de alguma mulher mais velha.

Ah, sim.

Às vezes parece que toda a vida de Jack Nicholson gira em torno do sexo de um jeito ou de outro. Para começar, existem as circunstâncias de seu nascimento, sua dita ilegitimidade, que foi varrida para baixo do tapete e escondida, o mais sujo dos segredos de família. Depois, na vida adulta, há sua busca frenética por mulheres. Entre as que se sabe terem sucumbido estão a atriz de filmes de terror Sandra Knight, sua esposa de 1961 a 1966, de quem veio a filha Jennifer, 42 anos; a cantora Michelle Phillips, do The Mamas and The Papas, antes de se engraçar com Warren Beatty; a atriz Susan Anspach, de quem veio o filho Caleb, 36 anos; a atriz Anjelica Huston, filha de seu grande amigo e diretor, John Huston (já morto), durante 17 anos tempestuosos e de pernas para cima; a ex-garçonete Rebecca Broussard, de quem veio a filha Lorraine, 16 anos, e o filho Raymond, 14; e, mais recentemente, a magérrima atriz Lara Flynn Boyle, 33 anos mais nova do que ele. Entre as não confirmadas esteve Diane Keaton, assim como Margaret Trudeau, viúva do ex-primeiro-ministro canadense Pierre Trudeau. Entre as mais tagarelas esteve a modelo da Playboy Karen Mayo-Chandler, já morta, que certa vez declarou: "Ele é uma máquina de sexo. Gosta de diversão e brincadeiras (...) como tapas no bumbum, algemas, chicotes e fotos Polaroid", completou dizendo ainda que ele come manteiga de amendoim na cama para "manter a força". E entre as mencionadas pelo sedutor como fantasia estão Rosalynn Carter, mulher do ex-presidente norte-americano Jimmy Carter; Eleanor, mulher do ex-presidente norte-americano já morto Franklin Roosevelt; e Marianne Williamson, uma guru new age agradável, autora de O Valor da Mulher. (Ele também se encanta com a religiosa televisiva conhecida como pastora Ike, mas não da mesma maneira que as outras, espera-se.)

Aliás, Jack também definiu seu modo de vida em termos de sexo. "É preciso determinar: o que é sua sexualidade neste contexto?", ele disse há muito tempo. "Tudo o mais deriva disso. É a chave. A chave total." Naturalmente, sua casa em Mulholland Drive tem tudo a ver com sexo. No começo da década de 1970, o lugar era bem conhecido como "o epicentro da cena social abarrotada de drogas", de acordo com um relato; enquanto morou lá, na época, Anjelica Huston apelidou Jack de "o Pólo Quente". Da mesma maneira, foi ali que, quando Jack estava viajando, o diretor Roman Polanski supostamente estuprou uma menina de 13 anos; depois de ser preso, ele fugiu do país e nunca mais voltou. E, finalmente, temos as palavras preferidas de Jack para animar seu papo normal, do dia-a-dia, sendo que duas delas são pussy [xoxota] e cunt [boceta].

"Adoro essas palavras!", ele quase berra. "Quer dizer, no últimos tempos, poderia até perguntar para alguém: 'Bom, olha, você sabe por que eu digo cunt ou pussy ou pookie [fofinha]?' Mas gosto de poder dizer coisas como: 'Cunt é uma sigla'. 'Para quê?' 'Para can't-understand-normal-thinking [não consigo entender o raciocínio normal].' He, he, he. Mas, bom, claro que só invento isso para fazer piada. Mas o negócio é que simplesmente gosto dessas palavras, por acaso."

E assim o sexo vive girando em volta dele, o tempo todo, se não tanto na cama como no passado, pelo menos dentro de sua cabeça, sempre. "Não que seja o elemento primordial do Universo", ele disse em 1972. "É só que, se não for satisfeito, vai afetá-lo." Trata-se de um conceito interessante a ser analisado já que, para um sujeito que passou décadas sem conseguir dormir sozinho, parece justo concluir que ninguém foi mais afetado pelo sexo do que ele. Aliás, olhando as coisas por esse ângulo, ele pode ser o homem mais insatisfeito de todos os tempos. Mas, bom, talvez essa conclusão só possa ser tirada se levarmos a reputação dele muito a sério.

"Muito disso, não sei o quanto é verdade", diz Nicholson. "Sempre permiti que esse elemento da minha vida pública fosse exagerado porque é bom para os negócios." Ele faz uma pausa, pega um cigarro e troca um pouco de marcha. "Quer dizer, me deprimo como qualquer pessoa", prossegue. "Fico angustiado, ansioso, me preocupo com o mundo. Ninguém esperava que vivêssemos em uma era tão cheia de medo. É tipo: 'Meu Deus, o que está acontecendo?'."

"Sou um norte-americano de cabo a rabo e não consigo encontrar nenhuma razão para entender por que alguém pode querer explodir tudo. Saddam Hussein pode ter dito: 'Vamos vencer porque o Ocidente cultua a vida e nós, a morte'. Mas não acredito nisso. No meu coração, sei que ninguém é assim tão diferente a ponto de desejar o que está acontecendo hoje. E as pessoas podem até dizer: 'Para você é fácil falar, Jack. Você é uma das pessoas mais sortudas do planeta'. Bom, sou mesmo. E daí? Sou sortudo, e porque você não é, então acha que assassinar os outros é uma maravilha? Quer dizer, em um filme despretensioso como Marte Ataca, no papel de presidente, eu ajo de maneira condescendente para tentar incutir a filosofia de Rodney King, dizendo às pessoas menores: "Será que a gente não pode simplesmente se dar bem?"'

Então, além do sexo, esse é o tipo de coisa que anda na cabeça de Jack - juntamente com basquete, é claro, seus jogos de golfe e, ultimamente, seus filhos adolescentes, Lorraine e Raymond. Com os dois, ele tenta não ser tão controlador, mas também não vai oferecer conselhos com base em sua própria trajetória que lhe dá fama de maconheiro, usuário de LSD no passado, antagonista do aborto (devido a seu próprio nascimento "ilegítimo") e assim por diante. Em vez disso, ele diz a eles coisas como: "Olhem, me lembro de quando eu era adolescente, então não vou ser o primeiro pai da história que conseguiu ser mais esperto do que um adolescente e nem vou tentar. Só vou dizer o seguinte: tudo que dizem fazer mal quase sempre faz mal mesmo". E fica nisso.

Algumas coisas aleatórias que saem do mundo e da cabeça de Jack Nicholson: Ele com freqüência se refere a si mesmo como "um caipira de New Jersey".

Ele lamenta ocupar por 30 anos um posto fixo no melodrama do cinema, mas compreende. "Quando se começa a explodir quase todas as construções em um filme, o público cai de boca se não tem isso. É o ritmo das pessoas."

Jack sofre de claustrofobia, e se o encontrar em um restaurante e prestar atenção, pode perceber que ele sempre senta na ponta quando está em um ambiente reservado. Tudo bem se ele ficar preso lá dentro; o maior problema é que ele não se sente à vontade em locais fechados.

Quando ele se olha no espelho, o que geralmente repara primeiro é: "Utimamente não me enxergo muito bem. Às vezes me dou ao trabalho de colocar os óculos".

Sobre a vez que passou três meses andando pelado pela casa: "Achei que aquilo era absolutamente necessário. Eu me preocupo com minha imagem corporal, meu corpo não fotografa muito bem. E aquele era um período de 'Vamos nos liberar' que deixou minha filha mais velha louca. Só queria me sentir mais à vontade na minha própria pele. Mas o exercício não resolveu a questão por inteiro, como muitas experiências que você pensa ter concluído com si mesmo, mas na verdade não concluiu".

Das vezes em que tomou ácido, em um ambiente clínico, o que a experiência lhe ensinou: "Só deixe rolar. Solte-se, de uma maneira mais ou menos sem medo, inconsciente".

O seriado de TV Deadwood: "Adoro este programa. É um jogo duro de moralidade. Você devia assistir".

Garotas que fumam: "Elas usavam cigarros para me enrolar. Distrair o predador. O Grande Sedutor".

Mona Lisa, com aquele sorriso no rosto, o que está pensando: "Conheço você. Sei o que pensa. Nem tente me enganar".

Um grande pânico recente: "Não pus em prática todas as fantasias que já passaram pela minha cabeça vazia, cheia de ecos, mas sim um número suficiente para que me sinta à vontade em relação a isso. A única coisa é que, ultimamente, cheguei ao ponto de não conseguir criar mais nenhuma fantasia. E na posição de um um homem que já se sentiu atraído por Eleanor Roosevelt, isso realmente me deixou em pânico".

Então, aqui está, um pouco mais de Jack, o que está acontecendo com ele e que o faz seguir em frente.

Mais uma coisa. Ele diz que gosta muito, mas muito mesmo, de quando as mulheres que estão na sua cama o chamam pelo nome. "Não pude deixar de notar que elas, especialmente quando estão em algum tipo de sintonia amorosa, não falam muito o meu nome. Gosto que me chamem de 'Jack'. Gosto de ser identificado pelo meu nome naquele momento."

Antes que fique escuro demais, será que posso ver aquela vista de que você falou, da árvore de Brando do seu banheiro?"

"Claro, pode sim", ele diz com uma expressão um tanto surpresa.

Então, subimos um lance de escadas. Na metade de um corredor estreito ele quebra para a direita, para dentro de um banheiro, e me dirige para um cubículo interior apertado, com uma privada que dá de frente para uma janelinha retangular alta. "Está vendo aquele pinheiro bem ali?", pergunta. Mas, do lugar onde estou, obviamente não vejo. "Sente-se ali no trono", diz. Eu sento. "Está vendo?", questiona. Vejo, mais ou menos. Trata-se de um pinheiro alto, com galhos espalhados, talvez com um pouco de vento dançando por entre as folhas. Jack diminui a iluminação. "Está enxergando melhor agora?", quer saber. "É só uma vista. Mas ela sempre se repete naquele pinheiro grande. E ele sempre cresce." Ele me conduz para fora novamente - passando por uma pia dupla com três espelhos e bancada, sobre a qual todos os produtos de cuidados pessoais dele estão bem organizados: um frasco de Listerine, apetrechos para fazer a barba, dois tipos de pasta de dente, antiácido Prilosec - e para o quarto dele. "Já que estamos aqui em cima", ele diz, "vou aproveitar para mostrar isto aqui." E ele me mostra a cena da prótese peniana de Os Infiltrados, em que diz para as garotas: "Está pronta, vaqueirinha?" e "Quer um pouco de Coca?" e "Não se mexa até se sentir entorpecida".

Depois, diz: "Esta cena está sendo discutida. Será que é exagerada? Será que é demais? Minha argumentação a favor dela é o meu instinto de velho cineasta, mas também, infelizmente, um certo público vai achar que é mais grotesca do que um homem enterrado no meio do sangue até a garganta, então essa é a razão porque sinto uma certa paixão para que ela seja incluída. Acontece que Martin e eu pensamos a mesma coisa: é o perímetro da corrupção dele. Ele é mau. E sempre quero que isso fique claro".

Peço a ele que fale sobre os bonequinhos bacanas arranjados em cima do móvel da TV. "Ah, os tranqueiras?", diz, e começa a desfilar os nomes de diversos atores conhecidos que ganham muito dinheiro. "E está vendo este pequenininho aqui?", prossegue. "Não sei se você enxerga bem, mas ele está segurando o pau." Nesse ínterim, dou uma examinada no quarto de Jack Nicholson, o lugar onde tanta coisa aconteceu. Olho para a cama dele, com quatro travesseiros empilhados por cima, o edredon azul puxado de um lado, revelando a reentrância. A reentrância! Fico um pouco tonto, como uma mulher deve se sentir na primeira vez que a vê.

E, de fato, bem naquela hora, Jack limpa a garganta e diz: "Acho que nunca alguém como você esteve no meu quarto. É um pouco de intimidade demais".

"Não se preocupe, vou ser bonzinho com você", digo, nervoso. "O que há na gaveta de cima da sua mesinha de cabeceira?"

"Lápis", Jack responde, também nervoso, totalmente desprevenido, coisa que nunca acontece, dá para ver. "Telefone. Coisas de telefone."

"Quer abrir a gaveta de cima?"

"Hum, não", responde. "Bom, na verdade não sei... Tem umas gavetas aqui que vão interessar mais a você."

"Certo. O que tem nelas?"

"Bom, há algumas coisas que é melhor nem saber", ele responde. E então, sem nem respirar, logo completa: "Faço esboços. Às vezes, à noite, em vez de ler, pinto um pouco".

Não faz mal. Tivemos nosso momento, isso eu sei. Já em relação a mim, sei que nunca mais serei o mesmo. No que diz respeito a Jack, independentemente do que ele diz, sei que sou provavelmente apenas uma entre as centenas de milhares de pessoas que já estiveram aqui. Então, que seja. Não tenho vergonha nem me sinto acanhado. Sempre terei minha lembrança desses momentos que passamos juntos. Ninguém jamais vai poder tirar isso de mim. Ah, se pelo menos eu tivesse me lembrado de chamá-lo, em algum momento, pelo nome, "Jack". Ah se eu tivesse...

Um pouco depois, quando nós dois já retomamos a compostura, Jack acende um cigarro e, através da névoa cerrada, eu pergunto, de uma vez: "Você se considera um homem bom?"

Ele não hesita. "Sim. Sou bem intencionado. Seria difícil me lembrar de um momento em que tenha sido desleal."

"Você não acha que trair as suas mulheres é meio..."

"Não achava. Não achava, não."

"Não achava o quê?"

"Que era desleal. Quando me casei, eu sabia, por causa da minha libido, que existiriam outras mulheres na minha vida. Estou fazendo certas promessas aqui. Cá entre nós, permita-me pelo menos deixar as coisas claras. Houve várias vezes em que tive certeza absoluta, sem ter testado a teoria, de que não seria nenhum problema para mim ser, hum, como chama mesmo?"

"Monogâmico?"

"Monogâmico. Isso mesmo. Mas, muitas vezes, pensei: 'Isto é impossível para mim'. Alguém certa vez disse: 'Não é do amor que a gente sente falta. É de ser amado'. Não tenho essa noção primária. Ainda não perdi a esperança, mas a maior parte dos meus amigos acha que sou atrapalhado demais nesse quesito, e é por isso que sempre soube que seria singular a esta altura da minha vida."

Acho que ele quis dizer "solteiro a esta altura da minha vida", não singular, como se fosse um desvio do que é contumaz, ou sem igual nem rival, ou muito além do que é comum e normal. Mas não tenho certeza. E, de qualquer maneira, dá no mesmo.