A Praia de Björk

Surpreendida pela realidade das guerras e dos desastres naturais, a islandesa responde com seu sexto álbum, Volta; leia entrevista com a cantora, que é uma das atrações do Tim Festival

Vincent Brunner Publicado em 01/07/2007, às 00h00 - Atualizado em 26/09/2007, às 16h51

Björk dá o clima de seu novo disco: "Estava começando a parecer uma leoa em uma jaula, mas me via pronta para sair"
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"Minhas melodias e minhas músicas vêm do hemisfério direito do meu cérebro, a metade menos racional e mais intuitiva", explica Björk. Mas, na cabeça e no discurso dessa islandesa, nada é fixo, paralisado. "Talvez" é a palavra que ela mais usa - sempre entre duas risadinhas. A música é, portanto, algo que ela vive, mas que não pode tocar.

Ao escutar Volta, é fácil entender que a situação do mundo atual preocupa Björk e que ela gostaria de se livrar das amarras e isolar-se para ficar longe das guerras e fugir das religiões. Aliás, a cantora e compositora mora parcialmente em um barco. Volta remete, portanto, a vários pontos dessa vida marítima e imita o barulho das ondas. Com passageiros como os produtores Mark Bell (presença constante desde Homogenic, 1997) e Timbaland, o cantor Antony Hegarty (líder da banda Antony and the Johnsons), os congoleses do grupo Konono nº1, o tocador de kora Toumani Diabaté, sem esquecer uma fanfarra de dez islandeses, Volta é um navio de alta classe. Conversamos com a comandante dessa embarcação, muito bem-humorada em um dia de primavera, pronta para defender seu quepe e dar início a sua turnê mundial. Ela vem ao Brasil em outubro, no Tim Festival 2007.

Um álbum novo tem a intenção de ser uma reação ao anterior?

Talvez, um pouquinho. Para ser sincera, a coisa sobre a qual mais tenho consciência é o aborrecimento. E me aborreço com muita facilidade. Então, quando tenho a idéia de como vai ser meu próximo álbum, eu a sigo, me divirto, gravo e saio em turnê. Quando volto a me acomodar em casa, estou pronta para qualquer novidade. Por essa razão, geralmente vou para o lado oposto do que realizei antes, ainda que sempre exista certa continuidade. Meus dois álbuns anteriores [Vespertine, 2001, e Medulla, 2004] foram concebidos no meu quarto - guiados pela compra do meu laptop. Estava começando a parecer uma leoa em uma jaula, mas me via pronta para sair do meu ambiente e visitar o dos outros.

Que direção quis tomar com Volta?

Desta vez, o ponto de partida foi emocional. Queria me divertir, queria que houvesse muitos músculos, um corpo, uma presença física. Até mesmo as canções calmas precisavam ter muita energia. Eu não me importava com o tipo de idéia que tivesse, simplesmente a seguia. Realmente aconteceu assim... Fiz muitos esboços e ia avançando... A letra de "Wanderlust", por exemplo, que é mais ou menos um manifesto, explica o que sentia: I have lost my origin/ And I don't want to find it again/ I feel at home/ Whenever the unknown surrounds me [Perdi minha origem/ E não quero voltar a encontrá-la/ Eu me sinto em casa/ Cada vez que o desconhecido me rodeia].

E essa canção começa com (o que parece ser) a sirene de um navio. É verdade que você atualmente mora em uma casa flutuante?

É, em parte. Sempre gostei da água. Tentei morar em Manhattan (Nova York), mas comecei a me sentir claustrofóbica. Viver em um barco me pareceu perfeito - tenho acesso à cidade e, no fim de semana, posso viajar. No plano esotérico, é provável que estivesse cheia de todas as guerras e dos conflitos religiosos. Quando a gente assiste ao noticiário, a situação é preocupante. Talvez o mundo sempre tenha sido assim, mas acredito que havia muito mais esperança nos anos 90. Achei que tínhamos aprendido com nossos erros, que iríamos ficar amigos e blablablá... Na verdade, uma parte da minha vida consiste em compreender de onde venho. E talvez eu venha do mar.

É verdade que você esteve na Indonésia um ano depois do tsunami?

Sim, tínhamos feito um álbum de remixes [Army of Me, 2005] para levantar fundos para a Unicef. Fui convidada para ir até lá para que, um ano mais tarde, pudesse ver o que tinha sido feito com o dinheiro arrecadado. E essa viagem foi um grande choque para mim. Claro que já tinha visto as imagens na televisão, mas estar lá é outra coisa. Isso sem falar no cheiro da cidade, de ossos. Estive em um vilarejo onde mil pessoas tinham morrido. Os parentes delas continuam lá, as casas foram destruídas, mas ainda dá para ver os quadrados no solo. Na lama, há uma mistura de ossos e objetos, como brinquedos de criança. As pessoas tentam identificar os corpos para enterrar as pessoas e colocá-las em túmulos com lápide, mas muitos abandonaram essa idéia.

Você deve ter se sentido estranha quando saiu de lá.

Eu me senti mesmo, principalmente porque atravessei o Atlântico para me reunir com Timbaland, em Nova York. Enquanto dormia no avião, sonhei. O pessoal da Unicef tinha me falado sobre ir à África, onde o número de vítimas da aids é assustador. No meu sonho, pensava nas vítimas do tsunami e em todos os africanos que sofrem e imaginava que eles passavam embaixo do meu avião para ir destruir a Casa Branca. Depois, saíam de lá para controlar o mundo. Foi um sonho muito ingênuo, claro. Em todo caso, na primeira canção em que trabalhei com Timbaland, as palavras saíram da minha boca como um tsunami.

Esse sonho virou "Earth Intruders", o primeiro single de Volta?

Creio que sim. Mas não acho que os humanos sejam realmente intrusos. Para mim, eles são animais. Pouco importa se as religiões tentam nos separar da natureza, isso nunca funcionará, nós fazemos parte dela. Depois de um tempo, quis corrigir meu texto, mas não consegui, deixei aquele tsunami de emoções. Tinha que ser daquele jeito.

Religião é um perigo?

Fui criada pela minha mãe, que era da geração hippie. Entre os hippies, reinava um forte sentimento de culpa. Independentemente do que a gente fizesse, iria dar errado, não deveríamos usar carros. Para mim, o negócio é dizer: temos que viver o presente. Somos pagãos, não tem a ver com voltar atrás, mas sim com admitir as coisas. Por exemplo, ficamos animados com a lua cheia e, se saímos para dançar, nos comportamos de maneira mais louca do que em outros dias. E é normal, devemos nos dar o direito de ser assim. Acredito que muitos conflitos derivem do fato de não admitirmos nossa natureza animal. Os políticos e os líderes religiosos, os palestinos e os israelenses deviam sair mais para dançar. Antes, era natural conhecer o transe, aliviar a pressão e atingir esse afastamento espiritual. Hoje, as pessoas precisam ficar completamente bêbadas para descobrir esse estado. É por isso que fico com raiva das organizações religiosas, elas seqüestraram a espiritualidade. Todo mundo é capaz de chegar a ela sem entrar em uma igreja. Tentar nos separar da natureza é uma péssima forma de compreender as coisas.

E como você e Timbaland acabaram trabalhando juntos?

Nos conhecemos há muito tempo. Ele tinha feito um sampler de "Joga" há dez anos para uma música da Missy Elliott. Nós somos muito diferentes, mas talvez nos encontremos em uma ilha comum graças ao interesse pelos ritmos do norte da África e da Índia. Em dezembro de 2005, liguei para ele e disse: "Acho que está na hora". Estava pronta para alguma coisa cheia de energia, não sabia como explicar, mas queria que explodisse. E o Timbaland não tinha tido muita visibilidade no ano anterior. Depois da nossa parceria, ele trabalhou nos álbuns de Justin Timberlake, Nelly Furtado e em vários outros que chegaram ao número 1 da parada - e então lhe dei os parabéns. Algumas pessoas chegaram a me perguntar se tinha entrado em contato com Timbaland por querer ter um hit. Isso não tem nada a ver.

Esse tipo de colaboração dá margem a várias perguntas e interpretações.

Começou a circular um boato de que estava gravando um disco de hip-hop. Achei bem engraçado. Pode olhar, não uso nenhum bling-bling [ela mostra o pescoço para provar que não usa jóias]. Nunca pensei em fazer um álbum de hip-hop. Apesar de essa, talvez, ser uma idéia interessante. Além do mais, Timbaland é um músico de assinatura muito forte que vai além do gênero musical hip-hop. Queria trabalhar com ele, não com um gênero musical.

Em Volta, você combina um produtor americano como Timbaland, o grupo africano Konono n°1, Toumani Diabaté, Antony, Mark Bell, uma flautista japonesa. Dá a impressão de que quer uma música global, como se ela não pertencesse a país nenhum.

Talvez, na minha cabeça, este álbum seja como um barco que une todos os países. Talvez queira mostrar, sugerir ou lembrar que nós formamos uma única tribo. Temos toda a tecnologia, mas continuamos vivendo em tribos separadas. Deveríamos tentar inventar um hino universal.

Por que essa necessidade de multiplicar as colaborações?

Se tivesse muitas vidas, poderia facilmente dedicar uma só para trabalhar sozinha porque tenho muitas idéias. De qualquer jeito, 90% do meu trabalho é muito solitário: consiste em escrever as letras, aperfeiçoar as melodias, "montar" as canções no meu computador. Mas acho que a vida é curta demais e a música é um caso de comunicação. Talvez eu seja apenas uma romântica, mas adoro quando há fusão entre duas pessoas. Detesto quando as colaborações são artificiais, sem alquimia. É muito importante que exista uma razão por trás de uma parceria. Não se trata de pensar: "Hum, isso me daria uma bela vantagem na carreira". É preciso haver amor. A diferença é sensível quando se faz as coisas com ou sem amor.

Sempre temos a impressão de que seus colaboradores se fundem à entidade Björk. Daria para pensar em você como uma espécie de vampira?

Muitas das pessoas que tocam e trabalham comigo dizem a mesma coisa: elas funcionam de um jeito diferente quando estamos juntos. Nós realmente vamos para um lugar novo, mas que não é a Björklândia. Essa é a relação que tento estabelecer - fazer com que exista igualdade entre nós, que um não manipule o outro. É por isso que fico muito sensível quando se referem a mim como "vampira". Apesar de existir uma alquimia entre os vampiros e suas vítimas.

Parece que você se ofendeu...

Eu me ofendi, sim. O que incomoda as pessoas é elas se verem diante de uma cantora que tem opinião a respeito dos arranjos, dos sons. Na cabeça delas, existe um produtor que cuida das batidas e a intérprete não passa da cereja em cima do bolo (que não muda o gosto do bolo em nada). Agora, se os dois elaboram uma receita completamente diferente que começa a ser trabalhada desde a base do bolo...

Você acha que outros músicos têm padrões morais inferiores aos seus?

Claro que algumas cantoras podem conseguir tudo que quiserem. Mas elas trabalham como se estivessem indo às compras. Têm uma concepção de colaboração muito materialista: contratam programadores e pedem para que eles copiem este ou aquele som. Para mim, isso é imoral, prefiro trabalhar com a pessoa a copiá-la. Já fui abordada diversas vezes por Hollywood ou por alguns publicitários que me pedem uma música "que tenha cara de Björk". Eu respondo que é impossível fazer isso. Eles me procuram de novo e dizem: "Contratamos os serviços de sei lá quem que compôs uma canção com cara de Björk, agora você só precisa colocar sua voz". Aí, respondo: "Como o senhor tem coragem de fazer isso?". É assim que essa indústria funciona. E as pessoas nem têm vergonha!

Mas a minha pergunta não tinha a intenção de ofender... Sei que suas "vítimas" são voluntárias.

Fico feliz por você ter feito essa pergunta, assim, tenho a chance de me explicar. Eu fico furiosa quando vejo gente copiando as características da minha música. Isso me deixa profundamente magoada. Portanto, nunca farei isso com ninguém.