Até o Fogo Acabar

Ameaçado pela conjunção seca e incêndio, o Parque Nacional da Chapada Diamantina sobrevive graças ao trabalho de gente como Joás Brandão

Mauricio Monteiro Filho Publicado em 01/07/2007, às 00h00 - Atualizado em 20/02/2013, às 14h58

Joás em casa, na Chapada Diamantina: "Para entender o fogo, tem que vivê-lo, sentir toda a cadeia de um ecossistema que está se acabando - e a extinção é para sempre"

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"Na sua concepção, isso aí tá torto?" Se Joás estivesse falando da Chapada Diamantina, terra onde vive desde que nasceu, a resposta teria que ignorar o visual hipnótico das escarpas vertiginosas do Vale do Paty, a água se esfacelando na queda de mais de 400 metros da Cachoeira da Fumaça e a esperança de abrigo que o povoado do Capão oferece a exilados urbanos do Brasil todo, e de muitos outros lugares do mundo. Sim, algo está muito torto quando um Parque Nacional do tamanho da Bélgica e que compreende algumas das paisagens mais alucinantes do país ainda não se livrou do fantasma dos incêndios florestais. E não tem sequer um Plano de Manejo, o que significa dizer que não existe na prática e que toda presença humana lá é clandestina, seja de turistas, seja de moradores. Pior ainda quando demorou 21 anos para que fosse iniciado o processo de desapropriação dos proprietários de terra que estão dentro dos limites da unidade de conservação - os dois primeiros só foram indenizados em dezembro de 2006.

Mas a pergunta de Joás Brandão se refere à biblioteca, uma das engenhosas construções idealizadas por ele, improvisada em cima de uma árvore, no terreno onde fica a sede do Grupo Ambientalista de Palmeiras (GAP). Lá, tudo é feito com material reciclável. Revirando a papelada sobre as estantes, com a luz filtrada pelas garrafas pet verdes que formam as paredes da sala de 3 metros quadrados, Joás está verde - vasta barba verde, turbante verde deixando vazar dread locks de cabelos verdes, bolsa verde cheia de frutos e poções verdes da terra verde e sagrada para esse guerreiro nativo da Chapada. Os olhos são verdes de nascença, mesmo, porque Joás nasceu, 43 anos atrás, com o propósito único de manter verdes essas serras enlouquecedoras.

A temporada do fogo começou mais cedo, na Chapada Diamantina, neste ano. O grosso dos incêndios costuma consumir a vegetação daquelas escarpas a partir de meados de julho até fevereiro. Mas já foram registrados três focos em junho no município de Mucugê, fora dos limites do Parque Nacional da Chapada Diamantina (PNCD) - um deles grande. Isso bastou para colocar em alerta a equipe do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), responsável pela gestão do Parque. "Tudo indica que a temporada 2007/08 será mais seca e trabalhosa, porque São Pedro parece que não vai ajudar", prevê Pablo Casella, analista ambiental do órgão.

A estiagem, se realmente vier, pode colocar fim numa euforia que chegou com os bons números do combate a incêndios durante a temporada passada. Mesmo com a ajuda dos céus, que abençoaram os solos da Chapada com muitas chuvas, a redução na área queimada, em relação à temporada 05/06, foi bastante significativa: por volta de 90%.

Mas há um consenso em toda a Chapada Diamantina: por mais copiosos que possam ser os deuses da chuva sobre aquelas terras, e por maiores que sejam os esforços de um órgão federal que conta com apenas três funcionários próprios para cuidar de uma área de 152 mil hectares, a ira do fogo não teria cedido se não fosse um fenômeno próprio e original daquelas latitudes: as brigadas voluntárias de combate a incêndios.

Nenhum lugar do país recorta sua silhueta tão organicamente contra o céu, à noite, como a Chapada Diamantina. Sete anos atrás, numa noite dessas, dava para ver um olho de fogo pulsando entre aquelas formas milenares, a poucos quilômetros de Palmeiras, cidade sede do Parque. Aos olhos de qualquer um, aquilo seria mais um espetáculo cênico, coisa que vai ficando batida para quem já foi apresentado às trilhas e visuais da região.

Mas, nos olhos verdes de Joás Brandão, o fogo reverbera mais vermelho. Ele perde alguns segundos eternos na contemplação das chamas, prestando o respeito devido à sua nêmesis. Enquanto isso, calcula a gravidade da situação, quantas pessoas e que equipamentos serão necessários para conter o avanço do incêndio. Equipamentos que só terão serventia em outras mãos, porque as de Joás se calejaram combatendo labaredas usando folhas de palmeiras ou galhos como abafadores. A essa altura, já se rendeu ao uso de botas, depois de anos entrando nas matas descalço. Até que se lança num arroubo, junta mais um colega no caminho, que traz bombas costais - que servem para borrifar água sobre o fogo - e seguimos, numa brigada improvisada de quatro pessoas - dois nativos da Chapada e dois jornalistas paulistanos. Percorrendo a estrada sinuosa que desliga a cidade de Palmeiras do resto do mundo, Joás se divide entre a tristeza de saber que suas florestas estão sofrendo mais um golpe e a confirmação de sua saga como defensor incondicional das suas terras. E avisa ao fogo que está chegando: "Vamos subir essa serra, guerreiro!".

Naquela noite, Joás estava indo combater "um fogo manso, de combustão leve". "É um fogo de gerais, que dá nos campos, se propaga muito rápido por causa do vento", explica. A identificação das diferentes classes de incêndios é mais um dos resultados de uma vida enfiado nas chamas para defender a mata. Entre os três tipos que Joás conta que existem, esse é o mais fácil de debelar. Pior seria se aquele foco, que começava a incomodar a Serra do Cercado, logo atrás de um dos maiores símbolos da Chapada Diamantina, o morro do Pai Inácio, fosse um "fogo de copa", que pega no alto das árvores. Ou pior ainda, um fogo de "combustão pesada", natural do interior mais remoto das florestas.

Mas nenhum deles se compara ao tipo mais subreptício de incêndio, que vai comendo a vegetação pelas raízes: o chamado "fogo de turfa", completamente subterrâneo. Depois de tantas vezes ter visto incêndios dados como vencidos voltarem para reivindicar mais e mais hectares de destruição, Joás passou a respeitar esse tipo de fogo mais do que todos. "A gente ficava lá no pou, pou, pou - imita os ruídos das ramas e abafadores - mas muito fogo voltava." Por isso, hoje, continua atento mesmo depois que os focos são considerados controlados. "Tem que fazer a periferia da área para descobrir as brasas e fazer o rescaldo", diz ele, já escancarando um sorriso maroto.

Rescaldo significa a medida preventiva de extinguir completamente as fagulhas de um incêndio por toda a sua periferia. Joás ri porque a própria palavra é um indício da transformação que ele empreendeu em sua cidade natal, Palmeiras. Enquanto caminha pelas ruas margeadas de casas caiadas e recebe saudações de todos os moradores, sem uma única exceção, suas respostas estáticas preferidas são "Diiiiiiiiiiiiga, companheiro", "Saaaaalve, guerreiro", todas proferidas com uma voz reverberante de radialista. Mas o combate a incêndios já se alastrou até pelo vocabulário da cidade e a preocupação de Joás com o rescaldo depois do fim dos focos fez com que esse também se tornasse um cumprimento entre ele e seus protegidos: "Êêêêêê, rescaldo", "Faaaaaaaaale, rescaldo".

Essa história que hoje vira brincadeira de amigos nas ruas de Palmeiras é coisa séria para Joás há mais de 20 anos. Seu primeiro fogo foi na Serra do Candombá, ainda no início da década de 80. E sua carreira de guerrilheiro ambiental começou pelo lado mais difícil. O candombá é uma planta de caule grosso e fibroso, muito usada como lenha por seu alto potencial de combustão, e que geralmente aparece em altitudes superiores a 1.200 metros.

"Deu um estalo e vi que precisava ir. Não podia deixar isso acontecer", relembra. Dessa maneira, quando Joás transformou alguns ramos em abafadores pela primeira vez e convocou um grupo de amigos para conter o avanço das labaredas, enfrentou um cenário bastante representativo, com todas as dificuldades do que seria sua vida dali em diante: serras altas cobertas de vegetação altamente combustível, alvos perfeitos para a voracidade das chamas. E escreveu-se ali o primeiro capítulo da batalha dos pulmões de Joás Brandão contra o fogo, pelo oxigênio, alimento de ambos, da Chapada Diamantina.

Isso foi antes mesmo da criação do Parque Nacional, sinal de que a consciência ambiental do brigadista pioneiro daquelas terras foi anterior à percepção federal de que aquela área precisava urgentemente de cuidados.

Mas ele não parou por aí. O trabalho coletivo na contenção do fogo o fez perceber que era essa a chave para a salvação de toda a Chapada Diamantina. E que não seria possível ficar apenas no combate, seria preciso muita conscientização também. "Falar de fogo é complexo. É uma coisa cultural. Vem dos antepassados a idéia de que o fogo limpa mais rápido", analisa. Então, além da participação nas brigadas, começou a fazer campanhas de sensibilização com os criadores de gado da região para que evitassem usar o fogo.

Por isso, ganhou fama vertiginosa a energia de Joás na frente das chamas. Ele e outros brigadistas da Chapada já foram chamados pelo Corpo de Bombeiros para combater incêndios florestais em todo o Brasil, entre eles, outros dois Parques Nacionais, o de Monte Pascoal, na Bahia, e o da Chapada dos Veadeiros, em Goiás.

E a notoriedade não ficou restrita às fronteiras brasileiras. Em 2003, um incêndio florestal massivo consumiu mais de 200 mil hectares de florestas em Portugal. Joás Brandão e seus guerreiros da Chapada estavam de malas e abafadores prontos para seguirem viagem, mas a expedição foi cancelada de última hora, pois o contingente local acabou dando conta de controlar os focos.

Esse giro pelo país fez com que as atenções sobre o baiano reverberassem para onde era verdadeiramente necessário: sua própria terra natal, a Chapada Diamantina. Isso fez com que se alastrasse a vontade de nativos e moradores de toda a região de combater incêndios. "Hoje, temos um dos maiores contingentes de brigadistas do Brasil", afirma ele.

São 14 brigadas espalhadas por toda a área do Parque e seu entorno. Isso significa por volta de 150 pessoas dedicadas à atividade na região. E todas voluntárias. Dessa forma, os mesmos incêndios florestais que povoam de histórias tristes aquelas serras fizeram se reproduzir guerreiros como Joás Brandão por toda a Chapada Diamantina.

Adroaldo Vasconcelos, o Jubileu, é um deles. Ele é um dos responsáveis pela proteção do Vale do Capão, região onde se encontram algumas das maiores atrações do Parque, como a Cachoeira da Fumaça, e onde se formou um dos povoados mais hospitaleiros de todo o Brasil. Jubileu é o coordenador técnico da brigada da Associação de Condutores de Visitantes do Vale do Capão (ACVVC). Segundo ele, o combate ao fogo é coisa antiga no Capão.

Mas ele se fortaleceu bastante com a criação da associação, em 1999. Isso porque no próprio estatuto da entidade é feita a exigência de que todos os guias sejam também brigadistas.

Como Joás, Jubileu também já viveu momentos intensos na batalha contra o fogo. "Todos os incêndios são muito complicados. Em 2005 (quando cerca de 10 mil hectares do Parque foram destruídos), todo mundo combatia vários focos. Ficávamos exaustos depois de até três dias em cima da serra. E não dava para ficar nem outros três em casa, porque já tinha que voltar", rememora ele.

A cidade que concentra a maior estrutura turística da região do Parque, Lençóis, também conta com duas brigadas. Erasmo Bágio é um dos brigadistas da Brigada de Combate a Incêndios Florestais de Lençóis (BVL).

Ablv surgiu extra-oficialmente em 1994, quando um incêndio consumiu uma grande parte da área do Parque, mas Bágio envolveu-se no combate em 1996, "pela necessidade de defender a natureza". "Ir para o mato apagar fogo é questão de amor", resume ele. Apesar de ele não ter ido pessoalmente, sua brigada esteve entre as várias que se mobilizaram para combater o fogo grande de junho passado, em Mucugê. "Foram 15 dias de fogo. E, naquela região de serras, os focos pulam de uma para outra", conta.

Bágio também vivenciou experiências marcantes nessa luta. Ele estava guiando um grupo de 40 turistas, num ônibus. Quando passavam pelo Pai Inácio, avistou as chamas. "Pedi desculpas, mas aquilo era mais importante." Desceu do ônibus e ficou dois dias na batalha.

A despeito dos percalços, no entanto, todos eles têm muito a comemorar. É um consenso de que a situação do Parque quanto ao fogo melhorou bastante. "Tivemos uma melhora significativa. Antes das brigadas, queimavam 30% do Parque a cada ano. Depois delas, isso fica entre 2 e 3%", declara Bágio. O Ibama confirma essas informações. De acordo com o órgão, antes delas, os incêndios se alastravam por áreas muito maiores.

Mas Jubileu faz uma ressalva importante. Segundo ele, a própria preservação ambiental aumenta bastante o risco de incêndios. "Quanto mais se conserva uma área, mais matéria orgânica se acumula. Isso gera uma verdadeira bomba. Há áreas que não queimam há 20, 30 anos. Se pegar fogo lá, nem se juntar todo mundo", alerta ele. Por isso, Jubileu defende a pulverização de ações preventivas. "Precisamos de um trabalho diferente, de educação ambiental. Temos que ir às escolas", explica.

Mas aí reside um obstáculo que afeta todas as brigadas da Chapada: a total falta de recursos. Por funcionarem num sistema de trabalho voluntário, os brigadistas já sofrem para se sustentar. Além disso, por mais que o acesso a equipamentos tenha melhorado bastante nos últimos anos, ainda há muita carência.

"Nós temos o importante: o material humano. Mas falta apoio do governo estadual e federal. Não temos nem carro", reclama Bágio. E alfineta: "Recebemos migalhas do Ibama pelo trabalho que fazemos".

As migalhas a que Bágio se refere são a contratação, por parte do órgão federal, de 43 brigadistas das entidades voluntárias, para fazer vigilância durante a época mais crítica do fogo, de agosto a fevereiro. Durante esse período, em que se revezam 24h por dia no monitoramento do Parque, os contratados recebem um salário médio de R$ 500.

Jubileu faz coro com as reclamações de Bágio. A ACVVC elaborou, em 2001, um plano de prevenção a incêndios que foi repetidamente rejeitado pelo Ibama até o ano passado, quando se reduziu drasticamente a área queimada. "Se o plano estivesse em prática desde 2001, vários hectares do parque teriam sido preservados", aponta.

Todas essas acusações fazem com que a relação entre o Ibama e as brigadas seja um tanto turbulenta. E às vezes chega até a motivar cisões entre os próprios voluntários. Para Pablo Casella, esses conflitos estão na contramão da solução para os problemas da Chapada Diamantina. "Todas as brigadas deveriam se unir para formar uma só", diagnostica.

José Jorge Melo, representante da Defesa Civil da Bahia no Conselho Consultivo do Parque Nacional da Chapada Diamantina, atesta que os gastos anuais do órgão com as brigadas voluntárias estão por volta de R$ 200 mil, entre equipamentos e mantimentos para os brigadistas.

Incêndios florestais sempre foram realidade na região. Eles existem desde que a Chapada foi ocupada. Isso porque boa parte das atividades econômicas realizadas na área em que atualmente fica o Parque Nacional da Chapada Diamantina utiliza queimadas em algum momento. Os criadores de gado, por exemplo, usam o fogo para queimar a vegetação original e forçar o aparecimento do que chamam de "rebroto", que dizem ser mais tenro e nutritivo para o rebanho. Garimpeiros, que até hoje buscam diamantes na região, também costumam ser associados aos focos, apesar de rebaterem as acusações.

Assim, depois da criação do Parque Nacional, em 1985, o que era uma prática corriqueira dos habitantes da área se tornou punível pelas leis ambientais. E não só o surgimento da unidade de conservação não reduziu a incidência de focos, como inaugurou uma nova modalidade de incêndios, motivado pelo repúdio ao Parque. "A maioria dos casos é proposital. É puro terrorismo ecológico", diz Roy Funch, norte-americano que vive no Brasil há 30 anos e idealizou a criação do PNCD ainda no fim da década de 1970.

De acordo com o Ibama, dos três tipos de incêndios na área, os chamados "piromaníacos", deliberados, são os mais comuns. E são eles os responsáveis pela maior área queimada. "Tem fogo por raiva do Ibama, ou do vizinho, ou até por doença mental. Há três casos clássicos de gente deste tipo aqui: deu fogo na vizinhança, é o cara", declara Casella.

Ainda assim, mesmo conhecendo possíveis causadores dos focos, é impossível puni-los sem testemunhas. A última prisão em flagrante foi realizada antes da temporada 05/06. "Até achamos que isso contribuiu para a redução dos casos no período seguinte", conta o analista.

O problema é que a alta incidência de incêndios na Chapada Diamantina esbarra numa questão de fundo. Segundo a legislação de Parques Nacionais no Brasil, por questão de conservação ambiental, não é permitida a existência de moradores ou proprietários de terras dentro dos limites da unidade. Como o PNCD ainda não chegou nem próximo de resolver sua questão fundiária - restam cerca de 150 processos, e da área total do Parque, de 152 mil hectares, apenas 81 foram regularizados -, ainda há gente vivendo na área. Há dinheiro disponível - cerca de R$ 6 milhões - para quitar a maioria das indenizações, mas elas não podem ser pagas por falta de documentos da parte dos posseiros e proprietários. E são justamente essas pessoas as causadoras do fogo, acidental ou não - descartados os de origem natural, gerados por raios, que são raríssimos.

O Ibama chegou até a abolir a expressão "incêndio criminoso" para evitar conflitos com os moradores remanescentes do Parque.

O PNCD surgiu, pelas próprias palavras de seu idealizador, na base da loucura. "Foi assim: fui um maluco que teve a idéia certa na hora certa", lembra Roy Funch. Em 1977, quando chegou ao Brasil por meio de uma espécie de projeto Rondon internacional, queria ser voluntário do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), órgão extinto em 1989 para dar lugar ao Ibama, e trabalhar em Brasília. Mas a cidade grande não era para ele.

No ano seguinte, conheceu a Bahia e a Chapada Diamantina, na época em que a Cachoeira da Fumaça, maior atração turística do PNCD atual, nem sequer tinha esse nome. Era conhecida somente como Cachoeira Glass. "Foi um médico que trabalhava na região e sobrevoava a área de avião que começou a divulgar a queda d'água", conta ele. "Foi amor à primeira vista. Aluguei uma casa e fiquei."

Funch aprendeu sobre as trilhas e meandros da Chapada com os garimpeiros. E foi num lampejo, ao pé do Morrão, um dos cartões-postais da região, que ele pensou que aquilo devia ser conservado. "Imaginei que se estivéssemos na Europa, ali certamente seria um Parque. E acendeu uma luz."

Desde então, começou uma batalha pessoal para criar a unidade. De sua primeira carta, que chegou em 1979, a seus antigos contatos no IBDF foram seis anos de insistência. "Enquanto isso, os nativos nem ligavam. Nem entendiam por que eu queria morar lá, não viam a beleza", relembra. Até que finalmente foram esboçados os limites exatos do Parque. A proposta inicial era de que ele cobrisse de Lençóis a Mucugê. "Estávamos no final do último dia de sobrevôos, quando o piloto perguntou à equipe se queríamos ver mais cachoeiras." A resposta veio em uníssono e, "em 15 minutos, a unidade dobrou de tamanho, por causa do comandante", diverte-se Funch.

Foi dessa forma que o PNCD chegou ao formato atual, englobando áreas de seis municípios: Lençóis, Palmeiras, Mucugê, Andaraí, Itaetê e Ibicoara.

Pela lei que trata desse tipo de unidade de conservação, o Plano de Manejo deve ser elaborado num prazo máximo de cinco anos a partir de sua criação. O documento é fundamental para definir o zoneamento do Parque, determinando o que pode e o que não pode ser feito em cada uma de suas áreas.

Em 2007, o PNCD completa 22 anos e só agora é que o estudo deve finalmente sair. "Temos que correr atrás de um monte de prejuízos, uma série de vícios adquiridos", avalia Casella. As discussões começaram ainda em 2003, mas caminhavam lentamente, até que neste ano o Tribunal de Contas da União enviou um documento ao Ibama obrigando a conclusão do plano em 180 dias. O prazo expira em agosto. "Até lá, só teremos um produto inacabado. Mas negociaremos para entregar a versão definitiva em novembro", afirma Casella.

Toda a burocracia em torno desse documento tem uma razão simples: hoje, na prática, o PNCD não existe. Não poderia haver nenhuma forma de turismo por lá, enquanto o zoneamento não estivesse definido. Também não há nenhuma forma de arrecadação para o Parque por conta disso.

Uma vez que o plano for publicado, muita coisa pode mudar no PNCD. Ainda é cedo para saber, pois as discussões estão em andamento. Mas Casella adivinha que vem muita tensão por aí. "O plano é um instrumento desejado. Mas pode ser recebido como algo que tolhe liberdades."

Segundo ele, o Ibama está interessado em permitir todo o uso público possível, de acordo com critérios ambientais. Mas cada uma das 70 atrações turísticas do PNCD, que o tornam o mais rico em atividades desse tipo no país, terá que ser submetida a avaliações de impacto. Isso pode levar ao fechamento de trilhas que hoje têm grande visitação, por exemplo.

Mas não se os advogados incansáveis do Estado Mínimo puderem evitar. E aqui vem a polêmica que tem rivalizado com os incêndios as atenções de ambientalistas e do Ibama: o fantasma da terceirização das trilhas.

Afinal, era natural que surgisse esse discurso diante do quadro de sucateamento da autarquia federal em todo o país. Para se ter uma idéia, segundo funcionários do próprio Ibama, o número ideal de funcionários para gerir decentemente o PNCD seria 110, fora o necessário para a vigilância. Hoje, a unidade conta com apenas três em atividade, mais dois licenciados e seis terceirizados. "Para que o contingente seja suficiente, seria preciso que o aquecimento global batesse forte na bunda do Lula", dispara Casella.

Como o Ibama explicitamente não dispõe de recursos para garantir todos os cuidados com o Parque e, mesmo assim, ainda arca com responsabilidades dos poderes municipal e estadual, totalmente ausentes, a iniciativa privada está começando a se interessar pelo potencial do turismo na Chapada.

No ano passado, um seminário reuniu todos os chefes de Parques nacionais do país e expoentes do trade do turismo. Em pauta, temas relacionados ao ecoturismo, entre eles, o PNCD. E lá já se manifestava o interesse de algumas empresas em concorrer a concessões para explorar a região.

Nas discussões do Plano de Manejo, a polêmica também está presente. E já divide opiniões, mesmo que ainda não seja uma realidade. Para Casella, passaram-se anos estudando soluções que evitassem a privatização da Chapada. Agora, com a iminência de que isso ocorra, ele teme pela perda do caráter sócio-econômico da unidade, pois acredita que o Parque também tem que contribuir para elevar o padrão de vida da população local.

Funch também segue por esse caminho. "Não queria ver os guias locais, que hoje são autônomos, voltarem a ser empregados", diz ele. Mas não nega que a terceirização pode trazer renda para o Parque e controlar melhor o uso.

Entretanto, o interesse dos administradores de turismo pode ser tolhido pelo baixo potencial de retorno da atividade. Isso porque para gerar lucro à altura do investimento, a visitação teria que ser multiplicada, o que pode se contrapor à gestão ambiental. Jota Marincek, de uma operadora de turismo com forte atuação na Chapada Diamantina, era um dos presentes no seminário do ano passado. Ele admite que teria interesse nas concessões não pela ilusão de ganhar muito dinheiro, mas por uma questão ambiental e até pessoal, pelo envolvimento duradouro que já tem com a região. Joás Brandão defende que, se realizada, a terceirização deve respeitar as entidades que já têm conhecimento de toda a área e que já desenvolvem trabalhos sócio-ambientais ali. "Não queremos que venha alguém com um projeto que não se adéqüe à realidade local. Temos que usar as pessoas que já estão fazendo alguma coisa pela Chapada Diamantina."

Então, é esse o cenário: um conjunto sem igual de serras quase geométricas que fazem pensar em significados nada geográficos para a palavra "chapada", forrado por uma flora deslumbrante crivada de orquídeas, bromélias e sempre-vivas, transformado em Parque Nacional, que existe sem existir de fato, pela "loucura" de um norte-americano. E que pena para se manter de pé nas mãos de um poder público completamente incapaz. E que agora atrai o interesse de empresas privadas. E que, por mais um ano, está ameaçado pela agourenta conjunção de seca e fogo. Mas que conta com defensores de peso: os brigadistas voluntários.

Para fazer frente a esse quadro de loucura generalizada, só mesmo um louco como Joás Brandão, que não tem nada de louco, tirando de letra as chamas e acabando com o incêndio em minutos, enquanto eu e minha bomba costal servíamos de meros coadjuvantes na cena.

E aquela mesma vibração que vi nele no dia em que o conheci, apagando um "fogo manso", seus companheiros de batalha vêem no meio das chamas mais agressivas. Na mesma velocidade em que se alastra o fogo, o nome de Joás passa de boca em boca recolhendo respeito. "Foi ele quem começou a pensar que não podia deixar a serra queimar", reconhece Jubileu. Ele conhece bem o trabalho de Joás nos incêndios, porque a brigada do Capão é a que está mais próxima de Palmeiras e, portanto, a primeira a responder a um pedido de reforço do GAP. "Combatemos muito fogo lado a lado. Com ele, você dificilmente vai ouvir uma palavra de desistência. O cara tem um astral de 'Vamos nessa!'", conta Jubileu.

Vivências como a de Bágio, Jubileu e todos os outros brigadistas da Chapada fazem Joás quase esquecer as dificuldades do início de sua militância ambiental. Ele conta: "Ajoelhava no meio da praça e pedia: 'Bora, cara, o fogo tá pegando!' Hoje, é muito diferente. A gente vê a seqüência do trabalho."

Entre Joás ajoelhado nas ruas de paralelepípedos de Palmeiras e hoje, quase reverenciado por seu povo, ele precisou provar que não era loucura sua verve de ver a Chapada Diamantina livre do fogo. Ou que era louco o suficiente para isso.

Por isso, criou o GAP. Hoje, a entidade coordena, além das atividades da brigada de combate a incêndios de Palmeiras, trabalhos de reflorestamento, educação ambiental e coleta de lixo reciclável.

A loucura dos militantes do GAP foi tanta que compraram briga até com grandes fazendeiros da região. Isso porque o dono da propriedade onde fica o Morro do Pai Inácio, fora dos limites do Parque, mas dentro de uma Área de Proteção Ambiental, cobrava tarifas abusivas dos visitantes, mas não exercia nenhuma espécie de atividade de preservação.

Por isso, o GAP inspirou uma ação civil pública movida pelo Ministério Público do Estado da Bahia contra o fazendeiro. A briga resultou na transferência de toda a responsabilidade pela gestão do Pai Inácio para o GAP, que agora pede apenas uma doação voluntária aos visitantes e exerce todas as medidas de preservação necessárias para a boa manutenção daquela área.

O respeito conquistado pelo GAP garantiu à entidade uma cadeira no Conselho Consultivo do PNCD e também representação, durante três anos, no Conselho Estadual de Meio Ambiente (Cepram) da Bahia.

Mas nem toda essa notoriedade garantiu a auto-sustentação do GAP. Apesar de desempenhar diversas funções que seriam de responsabilidade estatal, a entidade não é remunerada por elas. Por isso, depende de contribuições e da pequena renda obtida com a venda de camisetas e mudas de plantas. Com tudo incluído, seu faturamento mensal fica em torno de R$ 2 mil. "Para se sustentar, o movimento precisaria de uns R$ 5 mil por mês", diz Joás.

Com esse dinheiro, o GAP teria condições de continuar suas atividades de reflorestamento - tem cerca de 2 mil árvores plantadas em um horto -, continuar as atividades de coleta de lixo reciclável em Palmeiras e no Capão, estruturar melhor o Pai Inácio. Além disso, desenvolveria um projeto de resgate cultural das tradições de Palmeiras.

Pior é que a escassez de recursos do GAP é também sentida na pele pelo seu principal brigadista. Somados alguns trabalhos de guia, a remuneração que recebe da prefeitura por um trabalho de consultoria ambiental e alguma renda que recebe pela gestão do Pai Inácio, seu salário não passa de R$ 400. E dele dependem seus quatro filhos. O que coloca seus diversos credores nas mercearias e supermercados da cidade numa situação difícil, já que suas dívidas são irrisórias perto dos serviços que ele já prestou à cidade e à região.

Para o próprio Joás, o desprendimento é justamente o que melhor explica sua história de devoção às serras da Chapada Diamantina. "Eu acho que sou respeitado por ser alguém que se desprendeu de tudo para arriscar sua vida pela mata", declara. "Quando você prioriza algo, você tem que se doar, se desprender e dizer: 'Vamos ficar até esse fogo acabar'."

Mas ele refuta, com a mesma energia com que combate incêndios, qualquer liderança ou admiração excessivas. Sua recompensa maior está em ser, hoje, ouvido, depois de ter causado tanta estranheza nos nativos da Chapada com seu estilo tuaregue rastafári, turbante improvisado escondendo os dreadlocks. Estilo que ele diz ter criado para si mesmo, apesar de admirar a força dos tuaregues e a vibração rasta.

Afinal, nada é mais difícil para Joás do que falar em respeito. Enquanto os brigadistas da Chapada o têm como ídolo e referência, ele foge dos holofotes a todo custo porque sabe, como ninguém mais no mundo, que sua grandeza é, na realidade, ínfima. "Para entender o fogo, tem que vivê-lo, sentir os animais se afugentando. Os microorganismos, a formiga, o gafanhoto, o grilo... Toda a cadeia de um ecossistema que está se acabando. E a extinção é pra sempre."

Para o maior guerreiro que a Chapada Diamantina já viu, sua passagem por aqui já é passado. E suas preocupações são tão grandes que ele fica pequeno.

Mauricio Monteiro Filho é jornalista da agência de notícias Repórter Brasil e co-fundador da ONG de mesmo nome, que atua na prevenção do trabalho escravo contemporâneo.