Iggy Pop 2007

"Estávamos loucos de LSD quando batizamos os Stooges", conta Iggy Pop. Mais: "Penso no meu pau o tempo todo"

David Fricke Publicado em 22/09/2008, às 18h44 - Atualizado em 21/04/2016, às 20h16

O cantor Iggy Pop foi capa da segunda edição. Leia aqui.

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Ele se lembra claramente da calça jeans apertada transformada em short e do mocassim que usou no palco; do modo como se autoflagelava repetidamente com uma baqueta, deixando vergões ensangüentados por todo o peito; do seu mergulho de cabeça no público. Os Stooges - Iggy, o guitarrista Ron Asheton, o baterista Scott Asheton (irmão de Ron) e o baixista Dave Alexander - lançaram o álbum, na época novidade e hoje lenda, chamado The Stooges, em 1969, e estavam abrindo para o Joe Cocker no World's Fair Pavillion, no bairro do Queens, em Nova York. Depois do show dos Stooges, Iggy recorda: "Fui andando no meio do público, de short e com esses vergões pelo corpo, para falar com o empresário Frank Barselona sobre a possibilidade de contratar o grupo. Ele falou: 'Iggy, acho que daqui a uns 20 anos você vai ser um cara muito importante. Mas, por enquanto, não, obrigado'". Iggy ri um rosnado subterrâneo. Metade da diversão em ouvi-lo contar as histórias de guerra dos Stooges está no seu modo animado de narrá-las. A outra metade vem do triunfo da sobrevivência - que pontua cada conto como um riff cheio de energia. Iggy Pop - nascido James Newell Osterberg em Ypsilanti, no Michigan, em 1947, o malucão cujo abuso camicase de drogas e o extremismo físico durante o ritual no palco quase o mataram no meio dos anos 70 - completou 60 anos no dia 21 de abril.

Ele também é um Stooge de novo. "Estive em uma banda impossível, vivendo uma vida impossível", admite, referindo-se ao notório caos, em cima e fora dos palcos, que separou os Stooges depois de Fun House, de 1970, e que se repetiu no Raw Power, de 1973. "Mas nunca, desde que conheci Ron e Scott, alguém levantou a voz ou cerrou o punho entre nós. Não havia nada no nosso caminho." Os Stooges (com o baixista Mike Watt no lugar de Alexander, que morreu em 1975) estão em turnê desde 2003 e agora tocam músicas do primeiro álbum da banda depois de mais de 30 anos sem lançar, The Weirdness.

Por oito horas ao longo de dois dias, na pequena casa em Miami, onde ele e os Ashetons compuseram The Weirdness, Iggy falou sobre sua vida inteira: as origens no Michigan; os loucos nascimento e rompimento dos Stooges; o papel de David Bowie na ressurreição da banda e as gravações que eles fizeram juntos em Berlim (Alemanha) em meados dos anos 70; e, claro, ele debocha: "A minha lista das 32 importantes transgressões - minhas estações da Via Crucis". Mas, ele insiste, antes de chafurdar na bagunça, na maravilha e no legado da primeira, e ainda a, maior banda punk já criada: "Não acho que tinha nada de estranho nos Stooges quando começamos, só éramos criativos".

The Weirdness, o novo disco dos Stooges, abre com "Trollin'", em que você canta: "Meu pau está virando uma árvore" ("My dick is turning into a tree"). Seria algo que mesmo um Stooge deveria cantar aos 60 anos?

Você escreve sobre coisas que importam e tem que ser de verdade. Se penso no meu pau? O tempo todo. E se penso nele o tempo todo, tenho o direito de cantar sobre ele. Se não estivesse pensando nele o tempo todo, mas pensasse - "Tá na hora de fazer um rock, é bom eu falar do meu pau" -, então não conseguiria nem falar "pau" direito. Além disso, é uma frase ecológica. Tem uma relação com a natureza. [Pausa, olha sério, depois ri] É verdade!

Em outra faixa nova, "Claustrophobia", você canta: "Minha segunda mente está me enterrando vivo" ("My second mind is burying me alive").Este é o Jim ou o Iggy? Você atendeu por ambos os nomes a maior parte da vida.

Jim tem o segundo parecer. Eu chamaria isso de "área executiva". Estou ciente de termos como "bipolar". Quando li sobre esse tipo de coisa, com certeza vi ali meu passado.

Seus pais chegaram a ficar preocupados com seu comportamento quandocriança a ponto de te levarem ao médico?

Você está perguntando se havia ali indícios precoces de Iggy Pop. [Risos] Não em casa. Mas tive uma professora muito severa, a sra. Bordine. Não lembro o que fiz, mas, na frente da classe inteira, ela me amarrou na cadeira com uma corda vermelha. Amarrou meu tronco, meus braços e minhas pernas - por um período significativo de tempo. Devia estar muito agitado aquele dia. Mas meus pais ficaram preocupados? Não. Sempre achei que no rock'n'roll alguma coisa tinha que acontecer. Gostava da palavra "acontecimento" [happening]. Se não fosse acontecer na minha frente, eu faria acontecer. Na verdade, tentava não me repetir. Dizem que foi o Stiv Bators (que depois foi do Dead Boys) que me deu a pasta de amendoim [durante o famoso show dos Stooges, televisionado, em um festival de Cincinnati em 1970]: "Ele é estranho, vamos dar pasta de amendoim pra ele". Aquilo não estava no roteiro. Mas as pessoas começaram a levar a pasta aos shows. Eu falava: "Não, não vou brincar com sua pasta de amendoim". Eu me envolvi com coisas que tiveram implicações cafonas, mas nunca fui um pensador cafona.

Você teve uma bagagem incomum por conta da classe trabalhadora do rock de Detroit. Cresceu em um parque de trailers, mas seu pai era um professor de inglês de ensino médio, com nível superior.

Meus pais foram surpreendidos pela Depressão e empobreceram. Isso os transformou em pessoas cautelosas e econômicas. No começo, como professor, meu pai não ganhava dinheiro. Então, ele teve a idéia de ir morar em um parque de trailers - o aluguel era de 1 dólar o dia. Eu dormia na sala de jantar, em um banco. Éramos a única família com nível superior completo no local. Quando entrei no ensino médio, em Ann Arbor, comecei a freqüentar a escola com o filho do presidente da Ford Motors, com crianças ricas e distintas. Mas tinha uma riqueza maior que todos eles. Tinha o tremendo investimento feito pelos meus pais em mim. Recebi muitos cuidados e eles me ajudaram a explorar qualquer coisa que me interessasse. Isso culminou com a saída dos dois da suíte principal do trailer, porque era o único espaço grande o bastante para comportar minha bateria. Eles me deram o quarto deles.

Há alguma característica do seu pai em você, como Jim ou Iggy?

Sim. Ninguém me diz o que fazer e não gosto de papo-furado. Além disso, gosto de calma, de pouca gente ao meu redor. Ele era assim. E sua mãe?

Ela era surpreendentemente generosa e simpática com todos. Buscava harmonia e igualdade em todas as situações. Tenho um pouco disso, não funciono direito quando existe conflito - sou avesso ao confronto. As pessoas usam muito a palavra "confronto" quando descrevem o que faço profissionalmente. Mas isso é uma coisa, a vida é outra.

Qual a primeira vez que seus pais o viram se apresentando com os Stooges?

Fizemos a Feira Estadual de Michigan com o MC5. Meus pais ficaram sentados na tribuna de honra. Foi um show bem selvagem, com coisas sendo jogadas e devolvidas entre algumas pessoas do público e da banda. Depois, quando vi meus pais, perguntei sobre o show. Meu pai, que já havia jogado em algum time pequeno de beisebol, falou: "Você me fez lembrar os jovens lançadores que eu treinava - muita velocidade e pouco controle". Mas minha mãe não queria que eu me sentisse mal. Ela falou: "Quando todo mundo ficou em pé, seu pai subiu em uma pilastra para te ver melhor". Ele estava pelo menos interessado.

Então eles tinham noção do que você fazia no palco.

Tinham. Fiz um show na cidade em que meu pai dava aula. Quebrei uma garrafa no pedestal do microfone - achei que seria legal. Uma garota que estava particularmente empolgada ali na frente sofreu alguns pequenos cortes. Ela estava com os braços levantados em frente a um holofote, o sangue escorria e ela gritava. Houve certa agitação em casa por causa daquilo, porque depois saiu no jornal: "Pop quebra garrafas - tragam Elvis de volta". Mas não aconteceu mais nada além disso. Foi uma infração menor.

Sempre fiquei admirado por você ter concorrido a presidente de classe no ensino médio. Nos anos 60, isso era o máximo do "certinho".

Na hora em que pus os pés na escola e vi como os outros viviam, só queria ser como eles. Mas nunca consegui isso direito. Juntei dinheiro e comprei um par de sapatos, mas eram vermelhos. Minhas meias eram da cor errada. Nada dava muito certo para mim, até eu tocar bateria em um show de calouros. Aí as pessoas passaram a me tratar de outro modo.

E três anos depois você aparece surtando no palco no Grande Ballroom. Como explica esse sucesso todo?

No dia em que saí da escola, acabaram-se os cortes de cabelo, que eram uma imposição do meu pai. Comprei descolorante, tingi meu cabelo e comecei a tocar em um clube de rock em período integral: cinco shows por noite, seis noites por semana, 55 mangos. Comecei a pirar - ficava bêbado de vez em quando, pegava carros emprestados e batia. Deixei minhas primeiras impressões digitais e fotos na delegacia. E eu estava ouvindo: Bringing It All Back Home, do Bob Dylan, e Now!, dos Rolling Stones [discos lançados em 1965].

O que tinha no Dylan e nos Stones que fisgou você?

Estava aprendendo a estrutura da canção, como compor, como tocar. Uma música nunca pode ser muito boa, muito precisa, ela precisa te excitar. A música dos Stooges precisa fazer com que me sinta bem. E sempre acreditei que, se eu me sentisse bem, os outros também se sentiriam. E consegui provar essa minha crença [risos].

O que você aprendeu com - e pegou de - Mick Jagger e Jim Morrison quando começou a cantar com os Stooges?

Do Morrison: como ficar diante de um microfone - a postura e a pegada. Ele se pendurava no pedestal. Ninguém mais fazia aquilo. A outra coisa é que ele podia fazer o que quisesse e não respeitava ninguém. Não se exige respeito por dez mangos, sinto muito! Do Mick Jagger, foi o modo como ele se movimenta enquanto canta. E a voz como fator irritante. Quando ele cantava, era o oposto de agradável.

Então, você admirava os dois no palco?

Eles foram tão longe quanto precisaram ir. Como ia trabalhar seguindo o mesmo caminho, então precisava ir além. Mas não queria dizer necessariamente ir ao extremo. Os Stooges foram muito além das nossas influências. A gente ouvia [a banda de acid-folk] Pearls Before Swine e [o compositor avant-garde] Harry Partch. A levada de bateria em "1969" não é do Bo Didley. Veio direto de uma trilha de dança do ventre. A porra-louca do Fertile Crescent.

Qual a importância do LSD no nascimento dos Stooges?

Usei demais. Usei mesmo. Estávamos loucos de LSD quando batizamos a banda. Eu ficava louco de ácido quando trabalhávamos, principalmente na época do Fun House. Acho também que isso ajudou os outros caras da banda. Eu passava metade do meu tempo convencendo todo mundo que a gente podia fazer aquilo. Eu pedia muito - para seguir este maluco, para fazer música criativa. Não havia motivo para acreditar que iria dar em algum lugar. Mas, quando tomávamos LSD juntos, havia momentos criativos e todos acreditávamos que podíamos fazer alguma coisa.

Você pegou o apelido Iggy da sua primeira banda, The Iguanas. De onde veio o sobrenome Pop?

Jim Popp era um amigo dos Ashetons e de Dave Alexander. Eles faziam parte de uma gangue que matava aula e cheirava cola juntos. Sempre achei que Pop era um nome legal. E combina bem com Iggy. Se eu pudesse, teria ficado com Jimmy James. Mas fizemos um show e, imediatamente, tivemos um grande espaço de crítica no jornal Michigan Daily. Saiu uma crítica do Blood, Sweat and Tears. Eles ganharam um parágrafo. O resto falava sobre tudo o que a gente fazia. E dizia: "O ex-baterista Iggy Osterberg..." Pensei: "Porra, sou o Iggy. Mas tenho que acabar com esse Osterberg". O que é uma pena, porque gosto bastante do nome hoje em dia.

As pessoas realmente aplaudiam vocês nos primeiros shows?

Minha lembrança dos primeiros anos era de uma atenção congelada, paralisada. Poucas pessoas queriam ficar perto do palco. Eles só olhavam fixamente. Era como se o público fosse um grande desenho de cartolina, uma paisagem - ninguém se mexia, ninguém ia ao banheiro. Aos poucos, as pessoas passaram a gostar. Eram, na sua maioria, garotos no final do ensino médio. O que a gente fazia não os incomodava, eles até achavam os riffs legais. As músicas queriam dizer alguma coisa para eles. Aí apareceram os Ramones, sentados no Queens e falando que podiam fazer aquilo, que era fácil. Eles não se incomodaram nem um pouco.

O nome do segundo álbum dos Stooges é Fun House por causa da mal-afamada casa da banda em Ann Arbor. Descreva-me o dia-a-dia na Fun House.

Ali era para ser um lugar onde a gente pudesse morar, ensaiar e criar. Era uma encantadora casa de fazenda de três andares com um gramado majestoso e o que sobrou de um milharal na parte de trás do terreno. O fazendeiro, sr. Baylis, nos alugava por US$ 250 o mês. Não fazia nem um mês que a gente havia chegado quando todo o encanamento deu problema. Não dava para mijar, não dava para tomar banho, não dava para cozinhar. Dave Alexander usava proteção de metal nos sapatos, do tipo que os latinos usavam para brigar na escola, e ele destruiu todo o assoalho. Mas me lembro de uma época feliz - éramos caras relativamente saudáveis que fumavam maconha todo dia e que estavam deixando o cabelo crescer. Transávamos com o maior número de fãs que a gente conseguisse levar para lá, e levávamos nossa roupa suja para as mães lavarem. A gente tocava a vida como uma banda local.

Como a heroína mudou a vida da Fun House?

A gente tinha um roadie que morava no porão - ele apresentou a heroína para a banda. Na primeira vez que usei, deitei no capô de um carro abandonado que ficava nos fundos da casa, pensando que aquilo era a pior coisa que já tinha me acontecido. Me senti péssimo. Toda vez que me mexia, arfava - e isso durou umas 36 horas. Pensei: "Nunca mais vou encostar nesse troço". Mas, de algum modo, aos poucos, ela foi entrando em nossa vida e virou uma espécie de conforto, um refúgio. Eu era um baterista de blues da região fazendo a transição, muito rapidamente, para o compositor e líder de banda em um mercado competitivo. Estava tentando tomar a dianteira e me dei mal. As pessoas ao meu redor, que não estavam tão intensamente motivadas quanto eu, não se deram tão mal.

A heroína separou os Stooges?

A heroína e a economia. E o grupo não tinha uma ética de trabalho muito forte. Gostaria de ter visto um pouco mais de ralação. Então, em determinado momento, surtei. Se existisse um esquema de reabilitação, se a banda tivesse algumas economias, a gente talvez tivesse conseguido dar um tempo e se juntar de novo de maneira sensata. Mas eu fui fazer isso em casa, com a ajuda dos meus pais. Consegui ficar mais ou menos estável.

Foi difícil ir para casa naquele estado?

Foi. Eu estava dentro e fora, era bom e mau. Devo ter sido um peso horrível para minha mãe e um imenso pé no saco do meu pai. Mas estava basicamente ficando com meus pais, tomando uma modesta e decrescente dose de um tipo de metadona - Dolophine, a única metadona que já vi na forma de xarope de cereja. Parecia ótimo, se é que posso dizer isso. Tem alguma coisa naquela droga - quando você é jovem e não tem problemas - que deixa você com uma cara de verão.

Foi complicado, mais tarde, ver bandas como Kiss e Alice Cooper dando muito certo com uma versão caricata das táticas de choque dos Stooges? O Kiss abriu para vocês no ano novo em Nova York, em 1973.

Aquilo ficou gravado na minha cabeça. O Kiss era o terceiro no line up daquela noite, devem ter recebido uns 50 paus, mas tinha uma placa gigante: Kiss, feita de luzes e que devia pesar uns 300 quilos. Claro que alguém injetou dinheiro naquela banda, era um plano de negócios. É, eu me lembrei daquilo depois. E a culpa era de todos nós. Tínhamos uma banda descolada, mas eu estava muito fodido. Estava doente, e nenhum grupo comigo na formação iria a lugar algum.

Como você foi parar em Nova York para o fatídico encontro com David Bowie no (clube) Max's Kansas City?

O Steve Paul [empresário] tinha me dado uma passagem para a Flórida para que eu considerasse a idéia de me tornar vocalista do Rick Derringer, que depois seria do McCoys. O Steve tinha visto os Stooges no Goose Lake Festival [em 1970] e achou minha performance assustadora. Então, ele veio com a ladainha clássica: "Vamos tirar esse cara do grupo e colocar uns músicos de verdade ao seu redor". Eu sabia que não ia fazer aquilo. Fugi do negócio, fui parar no apartamento do Danny Fields [ex-A&R da gravadora Elektra], em Nova York. Estava lá, uma noite, vendo A Mulher Faz o Homem [1939] na TV, e tudo estava ficando nebuloso porque comecei a me identificar com o protagonista. Senti, e ainda sinto, que o negócio em que estou envolvido é mais corrupto que eu. Aí o telefone tocou e era o Danny, no Max's. Ele teve que fazer três telefonemas para mim até que eu fosse lá encontrar com o David: "Olha, esse cara pode te ajudar".

Tudo o que o Bowie fez por você como fã e amigo está bem documentado. Mas o que você fez por ele?

Uma coisa posso dizer com certeza: por três anos eu fui cobaia. Se ele tinha uma idéia e não sabia direito como realizá-la, escrevia ou arranjava alguma coisa que encaixasse em um dos meus projetos. Teve um período em que David experimentava os funcionários e os engenheiros primeiro comigo, até mapear todo o território. Aí ele ia lá e fazia seu álbum com eles. Esse é o lado prático de Bowie. Honestamente, fui uma válvula de escape para a torrente de talento e idéias que ele tinha. Quanto mais obscura e estranha a idéia, mais eu queria. Quanto ao fato de ele pegar algumas idéias minhas, ele estava sugando de todo mundo - tudo era uma fonte. Fomos para Bali anos depois. Ele comprou uma gamela e mandou para a Suíça: "Eu posso tocar isso". E ele tocou, em "Loving the Alien" [no álbum Tonight, de 1984]."

"Lust for Life" é a melhor e mais conhecida música de seus dias com Bowie em Berlim. Quanto dela é autobiográfico?

Isso é William Burroughs, dos livros The Ticket That Exploded e The Soft Machine. Adoro a fala do dr. Benway: "Amor, o que é, afinal? É como quando você hipnotiza uma galinha". Aí tem o Johnny Yen, o garoto verde e venusiano - ele que vai dar o golpe do baú. Ele entra nos armários enquanto as pessoas estão olhando para o espaço. Eu estava misturando aquilo com experiências pessoais. O riff foi tirado da TV das Forças Armadas. Até queria saber se eles ainda o usam. Às 4 da tarde, o canal exibia essa imagem em preto e branco de uma torre de rádio, fazendo bip-bip-bip-bip-bip-ba-bip. Exatamente assim. Estávamos assistindo aquilo um dia, e tinha um ukulele por perto. O David pegou o ukulele e falou pra eu pegar o gravador, e batucou aquilo ali.

Qual foi sua reação quando a (empresa de cruzeiros) Royal Caribbean Cruises quis usar a música em uma propaganda? É difícil imaginar uma música mais inadequada para vender viagens românticas.

Fiquei empolgadíssimo e a música se encaixava muito bem ali. Sempre prestei atenção em jingles de propaganda quando começava a compor. O primeiro comercial em que estavam os Stooges era um anúncio de rádio para a [corrida de carros] Detroit Dragway. Eles fizeram um loop com o riff de "Real Cool Time" enquanto o cara dizia: "Veja o carro divertido que desafia a morte!" A gente não foi pago, mas nem pensei nisso. Fiquei foi muito orgulhoso... Olha, sangue, suor e lágrimas nunca deram para mim, ou para minha música, uma audição justa no sistema totalmente enganoso, nauseante e inescrupuloso das rádios comerciais - que, ainda bem, está agonizando. Andei para cima e para baixo com aqueles caras durante anos, fazendo péssimas turnês promocionais, durante as quais era preciso sentar e ouvir o diretor do programa insultar você, se ele quisesse. Você fazia uma apresentação acústica para a rádio, mas ele nunca tocava a porra do seu disco. E ele ficava rindo disso enquanto você ia para o estacionamento pegar seu carro. Então, fico feliz em ouvir minha música em qualquer lugar? Sim. Não gosto do gueto da arte. Quero uma cultura mais aberta.

Você é um dos principais ícones da auto-destruição. Sente alguma responsabilidade por aqueles que morreram imitando seus excessos, como o Sid Vicious?

Ele era uma pessoa que reconhecia a destruição como um estilo, e eu fui uma entre várias influências. Eu o encontrei uma vez, nos bastidores de um show do Johnny Thunders. O Sid estava sentado com uma cerveja na mão, conversando com alguém tão normalmente quanto nós dois aqui. No segundo em que ele me viu, veio com aquela pose tipo "estou completamente louco e não consigo me comunicar". Pensei: "Ah, ele me viu". Ou então vai ver que o cara só era tímido. Muitos que se drogam. são só pessoas tímidas. E tem gente que odeia o que é, que quer se livrar daquela parte deles mesmos, esfregar até tirar tudo. Eles me olhavam, em certas fases, principalmente 20 anos atrás, como alguém que fazia aquilo - que conseguiu ficar loucão e... [longa pausa]

Ficou numa boa?

É. Então experimentavam aquilo tudo. Mas eles podem tirar algo positivo da experiência, também. Eles ganham esperança. As pessoas vêm me pedir conselhos o tempo todo, desde "meu relacionamento não vai bem" até "como faço para mostrar meu trabalho?". Hoje sou muito respeitado. Nos aviões, pessoas normais, de família, me chamam de "sr. Pop", sem nenhuma ironia. Gosto disso.

Tem alguma coisa que você não consegue mais fazer no palco, fisicamente falando?

Não consigo mais me arquear para trás e pegar uma maçã com a boca [aponta para a foto da época do Raw Power]. Se tenho que trabalhar duas noites seguidas, na primeira pulo muito alto, na segunda, não passo dos 20 centímetros. Tenho um ombro deslocado, perdi muita cartilagem do lado direito da bacia, os dois joelhos estão prestes a falhar e tenho uma perna 4 centímetros mais curta que a outra. Quando tinha 13 anos, fui atropelado por um grandalhão que estava jogando futebol americano e a minha perna direita ficou 1 centímetro mais curta. Com 20 e tantos anos, ela estava dois centímetros menor. Aí, nos anos 80, não tinha grana e viajava de avião, noite após noite, na classe econômica. A combinação daquela rotina com um tombo que levei dançando em cima de um amplificador me deixou com a coluna torta e um pouco manco. Antiinflamatórios e tai chi me colocaram em pé de novo. Mas conforme passei a perder o uso ilimitado do meu corpo, tive que começar a usar minha cabeça. Sou uma pessoa muito mais notável por causa da mente do que do físico.

Já pensou por quanto tempo ainda pode ser um Stooge?

Estou trabalhando muito para um cara da minha geração - promoção, turnê, negócios da banda, essa merda toda. É culpa do Ron Asheton [risos]. A gente ainda estaria ensaiando se estivesse tudo nas minhas mãos. Mas ele ficava me deixando essas mensagens no telefone, geralmente entre 2 e 5 da manhã: "Jim, sabe quando o comandante ordena para o pelotão ocupar aquela montanha? Eles vão lá e ocupam. Não pensam na preparação da coisa. Eles vão lá e fazem, rápido, agora!". Não vou conseguir manter esse ritmo para sempre. Mas vou trabalhar bastante. Esses garotos estão famintos e eu lhes devo. Estava chegando a algum lugar na minha carreira, antes de isso acontecer, mas cheguei aqui sob os olhos deles. Minha atitude é: tenho o privilégio e a sanidade de sair em campo e observar o que acontece. E quando começar a parecer errado em qualquer aspecto, então está na hora de bater em retirada.

Este é o Jim ou o Iggy falando?

Essa é uma pergunta interessante. [Pausa, depois ele sorri] Fazemos essas coisas juntos. Porque o Iggy sabe de muitas coisas. Uma coisa do Iggy é que ele banca a vida do Jim. Tenho a responsabilidade de um imenso passado para manter, redimir e, de certa forma, mudar de rumo. Aí tem humildade. Você precisa cair na real - "Olha, nem sempre tive esta casa". Nem sempre fui tão perspicaz. E esta não é a parte favorita da minha vida. Preferiria muito mais ser como uma moeda novinha e que todo mundo adora [risos]. Mas esse não é o meu destino.

Não, você é o sr. Pop.

E tudo bem.