Mainstream Independente

Contrariando rótulos, a 10ª edição do Porão do Rock leva a Brasília uma estrutura de festival de grande porte

Adriana Alves Publicado em 01/07/2007, às 00h00 - Atualizado em 21/08/2007, às 10h26

Mark Arm, do Mudhoney: o menos indie entre os indies
Clausem Fotografia/Divulgação

O que faz um evento de grandes proporções como o Porão do Rock ganhar o rótulo "independente"? A 10ª edição do festival, realizada em Brasília nos dias 1 e 2 de junho, foi orçada em torno de R$ 1 milhão, contou com dois palcos bem equipados em uma arena de 40 mil m2 montada no estacionamento do Estádio Mané Garrincha, e apresentou 16 DJs e 26 bandas, das quais quatro estrangeiras. Além de grupos menos conhecidos do público, se apresentaram nomes como Sepultura, Angra, Nação Zumbi, os portugueses do Born a Lion, os norte-americanos Mudhoney e The BellRays e os argentinos do Satan Dealers, assistidos por 28 mil pessoas distribuídas por dois dias. A organização e a estrutura eram de festival mainstream, com horários de shows respeitados, assim como os das coletivas de imprensa com as bandas ao final de cada apresentação. Na apostila com as informações do evento entregue aos jornalistas, constavam os nomes de 41 empresas e órgãos do governo que apoiaram esta edição do Porão, patrocinado oficialmente pela Petrobras. Com tanto tamanho, estrutura, patrocínio e apoio, fica a questão: independente onde?

"O independente aqui é não depender de atrações do mainstream", explica Marcos Pinheiro, vice-presidente da ONG Porão do Rock e coordenador de comunicação do festival. "O Porão é como se fosse o mainstream dos independentes, em termos de estrutura, visibilidade, mas a proposta do festival é trabalhar com pelo menos 90% de bandas independentes."

Tudo aconteceu conforme o planejado no maior festival de Brasília. "A proposta é dar a mesma condição a todas as bandas, não existe diferença de estrutura entre nenhuma delas. Todas fizeram o mesmo circuito com a imprensa, deram entrevistas, ficaram no mesmo hotel, tiveram equipamentos e palcos absolutamente iguais", completa Gustavo Sá, diretor artístico do festival, que destaca a principal dificuldade de se organizar o evento: "Todo ano é uma guerra pra conseguir patrocínio por conta do preconceito do empresariado em relação ao rock. Eles dizem: 'Ah... festival de rock, muito doidão, esse público não tem grana'".

Além de comprovar que nem toda independência representa necessariamente desorganização e improviso - aliás, longe disso -, o sucesso da 10ª edição do Porão do Rock aponta para o fato de que os novos meios de distribuição, somados à popularização de novas e baratas ferramentas para se gravar música, diminuam a diferença entre estar ou não vinculado a uma grande gravadora. Um exemplo é a trajetória da big band brasiliense Móveis Coloniais de Acaju, responsável por um dos shows mais celebrados do festival: além de disponibilizar músicas gratuitamente na internet, o grupo aos poucos conquista o eixo Rio-São Paulo com elogiadas apresentações - tudo organizado por eles mesmos.

E qual seria o papel fundamental dos festivais neste cenário? O diretor artístico Gustavo Sá é quem define: "Hoje, o circuito de festivais divulga a música e cumpre o papel de rádio como um multiplicador e fomentador da música brasileira. Essa é nossa importância".