Marta, a melhor do Brasil

Ela saiu com 14 anos do interior de Alagoas como uma adolescente que queria ganhar a vida jogando futebol. Hoje, é a melhor do mundo no que faz - e quer chegar ainda mais longe

Ubiratan Leal Publicado em 22/09/2008, às 18h59

Ilustração: Marcelo Calenda

Aos 21 anos, a alagoana Marta Vieira da Silva é uma colecionadora de feitos futebolísticos: foi escolhida a melhor jogadora do mundo na atualidade, é a principal atleta da liga da Suécia e melhor jogadora e artilheira nas campanhas da medalha de prata nas Olimpíadas de Atenas (2004), assim como nas medalhas de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo (2003) e Rio de Janeiro (2007). Os prêmios, as medalhas e os gols marcados a credenciam como maior esperança brasileira na Copa do Mundo Feminina, a ser disputada em setembro, na China. Não por coincidência, compartilha atualmente do mesmo empresário e estafe de Ronaldo "Fenômeno", centroavante do Milan e ex-melhor jogador do mundo.

E é justamente quando questionada sobre sua relação com um de seus principais ídolos no esporte que surgem os lampejos de timidez que se mostrariam uma de suas marcas registradas. "Ainda não tive muito contato com o Ronaldo", lamenta Marta, quase que se desculpando. "Chegamos a nos encontrar na festa da Fifa na Suíça, quando fui eleita a melhor do mundo. Mas como a gente não tem tanta intimidade, fiquei meio com vergonha, acanhada."

Parece improvável que a mais celebrada atleta do esporte mais popular do mundo ainda soe como a adolescente que deixou o sertão de Alagoas há sete anos para tentar uma desacreditada carreira de jogadora de futebol no Rio de Janeiro. Entretanto, contrariando a cartilha normalmente seguida pelos boleiros, Marta não encara as perguntas de uma entrevista como um ataque pessoal que deva ser respondido com frases evasivas e sem conteúdo. Também não tem medo de falar o que pensa ou de parecer o que não é. A conversa telefônica internacional soa surpreendentemente fluente, um alívio, ainda mais porque não foi fácil chegar até Marta. Foram dois meses de negociações, telefonemas internacionais, vários e-mails trocados com o assessor de imprensa, incontáveis desencontros.

Aliás, parte dos obstáculos para a realização da entrevista está diretamente conectada ao status conquistado pela jogadora nos últimos meses, antes do Pan no Rio. Na primeira ligação que fiz para a Suécia, em março, na hora combinada, ela não pôde atender por estar participando de um evento beneficente, conforme explicou a amiga que cuidava de seu celular naquele momento. Mais tarde naquela mesma noite, a própria jogadora fez questão de explicar o motivo do cano: "Uma amiga brasileira que estuda aqui na Suécia se juntou a outras duas garotas para arrecadar roupas usadas e revendê-las. O dinheiro angariado foi destinado para entidades na África. Fui lá mais para ajudar, dar uns autógrafos, fazer umas embaixadinhas e conceder umas entrevistas".

Compromissos desse gênero se tornaram mais constantes depois que Marta foi eleita a melhor jogadora de futebol do mundo pela Fifa, a entidade que controla o futebol mundial, no final de 2006. Até então, o fluxo de visitas a sua casa em Umeå, cidade de 80 mil habitantes a 600 km ao norte de Estocolmo, era bem menor. A "legião brasileira" do time sueco é composta por apenas duas jogadoras: a zagueira Elaine e ela própria. Visitas de gente de fora, portanto, são sempre bem-vindas. Marta ainda convive com os poucos brasileiros que moram na cidade. Seu programa de verão favorito é passear pelo centro da cidade e tomar um café ou um sorvete.

Durante a conversa, fica evidente a necessidade de retornar alguns anos no tempo, quando Marta ainda vivia na minúscula Dois Riachos, de apenas 12 mil habitantes, para se compreender o porquê de seus esforços para conservar sua privacidade intacta. A atacante não tem site pessoal e não costuma ter sua imagem ligada a badalações. A mãe de Marta, Tereza, hoje conhecida em todo o Brasil, se negou na época a conceder entrevista para falar da filha ilustre. "Ah, já teve repórter ligando aqui antes. Prefiro não falar. Tem um moço do Rio que faz essas coisas por ela", se desculpou, se referindo ao assessor de imprensa Paulo Júlio Clement. As amigas de Marta em Umeå também não quiseram conversa.

Filha de pais divorciados, Marta se acostumou a ver a família passar por dificuldades. O irmão mais novo começou a trabalhar com 12 anos para ajudar a casa. Ainda criança, a coisa que Marta melhor fazia era jogar futebol com os meninos...

Você lê a matéria sobre Marta na íntegra na edição 11 da RS (agosto/2007), que tem Caetano Veloso na capa.

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