Um Homem Chamado Caetano

Marcus Preto Publicado em 22/09/2008, às 18h56

Caetano avisa: "O rock tem, desde o princípio, esse componente sexual quase como tema central"
Daniel Klajmic
Ele reafirma a importância do sexo em sua vida e obra e acrescenta ódio e violência a sua poesia. Aos 65 anos, nosso artista maior protagoniza um êxtase coletivo em disco e show - quatro décadas depois de estar à frente do tropicalismo. Agora, sim, todos querem comer o roqueiro Caetano Veloso

A platéia parece estar no cio. Lotação esgotada. São 3 mil pessoas em pé, mais ou menos uniformemente divididas entre homens e mulheres. A maior parte parece ainda não ter chegado aos 25 anos, mas há também senhores com mais de 60. E adolescentes de 15, 16. É quinta-feira, 5 de julho, estou no Ginásio do Sesc de Santos (SP). Cada vez que o artista lá no palco, passeando pelos versos de suas novas e antigas canções, atravessa uma palavra carregada de alguma carga sexual, o público reage com gritinhos lascivos. Todos ao mesmo tempo, em uníssono, como se também tivessem ensaiado.

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Estamos em plena turnê de Cê, o álbum "roqueiro" de Caetano Veloso. Álbum "roqueiro"? Se esse rótulo não é abrangente em medida suficiente para definir a sonoridade de Cê, muito ele pode dizer a respeito do conteúdo poético do disco (e desse show que dele se originou), tomado principalmente por sexo e ódio (ou seu par perfeito, o amor). Pode também explicar muito sobre esse reflorescimento sexual à volta de Caetano - o artista, o homem - que, neste mês de agosto, completou 65 anos. "O Caetano está em uma fase meio Beatles. Tem rolado um assédio, uma loucurinha", comenta o guitarrista Pedro Sá, o mais velho dos três jovens músicos que dividem o palco com o cantor. "Nas outras turnês que fiz com ele sempre teve fã, gente que assediava, que chegava, que queria falar. Mas agora, além disso, tem um frisson, um faniquitozinho. Mulher que agarra, que pega, que quer tirar a roupa, que quer comer. Que perde a linha mesmo", conta.

Não é à toa. Cê é o trabalho no qual Caetano mais se expõe sexualmente em toda sua carreira. Se não isso, desde pelo menos o começo da década de 1980. "Desde o [disco] que tem 'Vera Gata', eu acho", tenta pontuar o próprio artista. Composta para Vera Zimmerman, a canção a que ele se refere está no álbum Outras Palavras (1981) e descreve a história, imagina-se que real, de sua "rápida transação" (como o próprio diz na letra) com a atriz. Sim, estamos falando de sexo. Em Cê, com Caetano na casa dos 60, a transação não precisa ser tão rápida. Em alguns momentos chega a ser delicada, minuciosa, muito mais poética - mas nem por isso menos erótica. Irmã caçula de "Vera Gata", "Um Sonho" foi composta para Luana Piovani e descreve a história, não necessariamente real (principalmente se levarmos em conta o significado onírico de seu título), de seu "malho" (como o próprio diz na letra) com a atriz. Enquanto mostra a canção no palco, Caetano desenha com o gestual do corpo uma relação sexual inteira. "Sexo é um assunto central, um absoluto - não um tema entre outros. Para mim, para a minha vida, essa é a importância que o sexo sempre teve. Não tem nada a ver com ser atleta sexual, nem obcecado por sexo. Pelo contrário: reconhecendo que é um absoluto, o sexo basta que se dê. É muito simples. Porque é o que é. Não precisa muita coisa. Tendo aquele negócio, pronto. Rolando, chegando lá, já é importante", avalia.

O artista diz não saber detectar diferenças entre o ato de criação de um disco "sexual" quando ainda se está na casa dos 30 anos e fazê-lo agora, aos mais de 60. E explica suas razões para recorrer ao tema com tanta sede neste momento. "Queria criar uma banda de rock que tivesse um som próprio, que desse um toque relevante para o panorama de criação de rock no Brasil do ponto de vista sonoro e estilístico. Timbrístico, também. E isso se deu. Nesse ponto, acho que fomos 100% bem-sucedidos", afirma. "E precisava fazer um repertório que se adequasse a isso. O rock tem, desde o princípio, esse componente sexual quase como tema central - mesmo quando não é explicitado. Então, tendi a explicitá-lo em algumas letras...

Você lê a matéria sobre Caetano na íntegra na edição 11 da RS (agosto 07)

 

O jornalista Marcus Preto assinou a matéria "Mas Que Tudo", sobre Jorge Ben Jor, na RS 09 (junho 07).