Velvet Revolver: a disfunção do rock

Álcool, remédios e internação - os laços que unem a banda. E mais: onde está Axl Rose?

Brian Hiatt Publicado em 22/09/2008, às 18h56

A dupla Weiland e Slash durante show no Estádio do Morumbi, em São Paulo (abril de 2007)
Marcos Hermes

Para Duff McKagan, tudo começou de novo com um único comprimido. Depois de mais uma década de sobriedade, que se seguiu à vitória contra um vício em drogas e vodca tão monstruoso que fez seu pâncreas estourar, ele estava em sua primeira grande turnê desde que a formação original do Guns n' Roses abandonou a estrada em 1993. Os shows europeus do Velvet Revolver no verão de 2005 foram um borrão infinito e os integrantes da banda estavam começando a enlouquecer uns aos outros. Até mesmo McKagan e Slash, com seus 20 anos de amizade, mal se falavam.

"Fiquei estressado com aquela merda toda", desabafa McKagan, 43 anos. "Porra, não podia nem falar com meu guitarrista, como eu costumava fazer." McKagan está na edícula de sua casa, com decoração extravagante de lembranças da carreira do Guns n' Roses (discos de platina, uma máquina de fliperama, um retrato em estilo antigo de Duff pintado por um fã japonês) e fotos de sua mulher, a ex-modelo Susan Holmes, em roupas de banho. Lá fora, o sol brilha forte nesta manhã no bairro rico de Sherman Oaks (em Los Angeles), onde o casal e suas duas filhas pré-adolescentes moram em uma propriedade que já pertenceu a Tom Mix, antiga estrela de faroeste.

McKagan sofreu de síndrome do pânico durante anos. Nas viagens, sempre carregava consigo um frasco de Xanax, só por precaução. Um dia, ele o abriu. "Vou tomar um só, vai me deixar mais relaxado", ele se lembra. "No dia seguinte: 'Ah, não estou me sentindo igual a ontem, acho que vou tomar dois'." Em pouco tempo, já estava tomando 22 miligramas do sedativo por dia - mais de três vezes a dose recomendada. Começou então a participar de reuniões dos Narcóticos Anônimos, depois foi para uma clínica de desintoxicação. Largar o Xanax era mais difícil do que abandonar a heroína. "Acho que precisava passar por tudo aquilo de novo", diz McKagan. Devoto de artes marciais desde que ficou limpo, ele está tão em forma que chega a dar medo: seu rosto continua enquadrado pelos longos cabelos loiros e, hoje, ele se parece mais com a caveira da capa não proibida de Appetite for Destruction do que com a imagem inchada de muita balada no auge dos Guns n' Roses. "Tinha passado 12 anos e meio sóbrio", ele prossegue. "E pensei: 'Eu sou bom'. Não sou bom, sou um alcoólatra da porra."

O retorno inesperado de McKagan ao vício foi apenas o início dos problemas que o Velvet Revolver enfrentou no caminho até seu novo álbum, Libertad - que é muito mais melódico e animado do que a estréia sombria e implacável, Contraband (2004). Visto de fora, o Velvet Revolver parecia um supergrupo formado por sujeitos de meia-idade que andava sem problemas - uma empreitada caça-níqueis do líder desintoxicado do Stone Temple Pilots, Scott Weiland, com os ex-Gun n' Roses McKagan, Matt Sorum e Slash, além de Dave Kushner, guitarrista extra sem fama. Mas, na verdade, visto de perto era a maior zona, como acontece com qualquer banda nova.

Sorum, o único integrante solteiro, estava exagerando e acabou na mesma clínica de desintoxicação que McKagan. Slash engolia tanto analgésico que chegou ao ponto de cair no sono no meio dos ensaios. "Tinha um monte de merda negativa rolando", esclarece Slash. "Uma parte era coisa da banda, outra parte era coisa em casa, era um monte de merda. E eu fiquei enchendo a cara de OxyContin durante uns, sei lá, dois ou três meses. Até marquei a data para me desintoxicar", completa, bebericando chá gelado em um restaurante mexicano de Burbank (Los Angeles). Ele deixou a cartola em um jipe com chofer que o esperava em frente ao restaurante, mas com seu casaco de couro, óculos de aviador e cachos grossos caindo por cima dos ombros, Slash continua sendo o guitarrista de rock mais fácil de reconhecer de sua geração. Antes da desintoxicação, foi atazanado por um boato em que alguns de seus colegas de banda resolveram acreditar: "Acharam que tinha largado a banda e voltado para o Guns n' Roses", ele recorda, sacudindo a cabeça. "Fiz de tudo para convencer todo mundo que nunca nem pensei na idéia e eles ficaram olhando para mim: 'Talvez você só esteja falando merda'."

Slash reconhece que apareceu no portão da casa de Axl Rose em Malibu em um certo dia de outubro de 2005, mas explica que foi apenas para colocar fim em um processo judicial complicado a respeito dos direitos autorais do Guns. Em um comunicado que o empresário da banda divulgou à imprensa, Axl Rose afirmava que, durante aquela visita, Slash insultara diversos integrantes do Velvet Revolver, chamando Weiland de "fraude". O guitarrista nega tudo, e Weiland acabou respondendo, em nome de Slash, em um post na internet, xingando Rose de "gordo fodido com cara de botox que usa peruca". Quando Rose cruzou com Sorum alguns meses depois, informou-lhe que Weiland o tinha "magoado" ("Daí eu me senti muito mal", rebateu Weiland). "Axl morre de inveja do Velvet Revolver", alfineta Sorum, completando com a informação de que seu encontro com o cantor em uma festa em Nova York terminou sendo amigável. "Apesar de ele estar aí com a bobajada do Guns n' Roses, só está com uma inveja da porra e, por isso, fica tentando nos destruir. O porra do Slash está aí tocando rock e Axl nem gosta disso. É triste."

Assim como um assalariado japonês que enlouquece em um karaokê, Scott Weiland usa gravata e uma camisa branca completamente desabotoada, exibindo seu torso bronzeado e modelado pela ioga. Estamos nos bastidores do programa The Tonight Show with Jay Leno e Weiland está cantando para mim uma versão nasalada de "Creep", dos Stone Temple Pilots. Essa música é do álbum de estréia dos STP, Core (1992), que Weiland hoje diz ter sido o único álbum que ele fez sem a influência das drogas - além de Libertad. "Foi bem mais fácil", completa Weiland, que largou o vício em cocaína e heroína há três anos e meio. "Meu nível de produção era enorme. Tinha uma idéia depois da outra. Com a heroína, no começo, há muitos benefícios - ela permite que se tenha certo nível de objetividade. Depois de um tempo, você perde a conexão com o coração, com a emoção. É como se tivesse um cobertor molhado de narcótico enrolado em volta da alma." E a cocaína? "Só faz você querer mais cocaína. É por isso que sempre tinha que usar heroína junto com a cocaína. Use a cocaína durante umas duas horas, até começar a perder a cabeça - as porras dos demônios ficam tentando quebrar o espelho e atravessá-lo. Daí, você coloca aquela agulha no seu braço e desacelera o mundo de novo e fecha aquela porra daquele buraco para a próxima dimensão. Porque, uma vez que ele se abre, não dá para saber o que vai entrar por ali."

Depois de um período abortivo com Rick Rubin, o Velvet Revolver finalmente começou a dar andamento a Libertad, quando se associou a outro produtor peso-pesado, Brendan O'Brien. Mas enquanto Weiland estava gravando os vocais, ele recebeu a notícia de que seu irmão - que também lutara contra a heroína - havia morrido de overdose. "Foi a coisa mais pesada que já me aconteceu", confidencia, com a voz trêmula. A morte de seu irmão inspirou algumas das canções mais cheias de paixão de Libertad, incluindo a balada "The Last Fight".

Weiland - que está trabalhando em seu segundo álbum solo e gerencia um selo indie, o Softdrive Records - ainda aprecia a "camaradagem disfuncional" de fazer parte de uma banda de rock. Mas parece manter distância dos companheiros: tem camarim separado e não fica jogando conversa fora com os outros integrantes. Ele e Sorum têm a relação mais tensa: parece que os dois usam pulseiras iguais, e o baterista corpulento dá risada da idéia de que pode ser intencional. "Não somos homossexuais", explica Sorum. Mal nos falamos, muito menos nos beijamos... Sempre fui do tipo: 'Vou encher o vocalista de porrada'."

Assim, o Velvet Revolver continua sendo uma estrutura frágil - e também não ajuda nada o fato de Weiland recentemente ter reconciliado suas diferenças com Robert e Dean DeLeo, do STP. "É uma realidade que já considerei", diz Kushner, que, no início da banda, ainda mantinha um emprego - como responsável pelo equipamento do estúdio onde ensaiavam. "Scott pode voltar para o STP amanhã, e os outros podem voltar para o G n' R. Eu vou ter que inventar alguma coisa para fazer." Apesar de Sorum fazer piada com a possibilidade de considerar a volta do Guns em sua formação original se houver bastante dinheiro envolvido, ele lança dúvidas sobre as expectativas em relação ao STP: "Não acho que o mundo esteja em compasso de espera para ver a volta do Stone Temple Pilots", afirma, rindo.

De todo modo, Weiland promete pelo menos mais um álbum do Velvet Revolver - e a banda já sobreviveu ao seu pior momento. "Foi aterrorizante entrar em estúdio para fazer o disco porque realmente não estávamos nos entendendo", diz Sorum. "Houve momentos em que achava que a banda não continuaria - e esse é o meu maior medo. Acho que não tenho mais uma banda dentro de mim. Mas então nós nos olhamos. E dissemos: 'Não vamos ferrar com esta aqui'."

Onde está AXL?

Em novembro de 1999, Axl Rose tentou explicar por que estava demorando tanto para gravar o álbum Chinese Democracy: "O que estamos tentando fazer é reconstruir o Guns n' Roses de modo que vire alguma coisa", ele declarou à Rolling Stone. Quase oito anos depois, Rose continua sua edificação. A data provisória de lançamento - dia 6 de março de 2007 - chegou e passou, mas, no final do ano passado, uma fonte próxima ao projeto disse à Rolling Stone que Andy Wallace estava mixando Chinese Democracy e que o álbum estava mais próximo do que nunca de ver a luz do dia. Versões que parecem terminadas de várias músicas novas - inclusive a faixa-título e "The Blues", que se parece com "November Rain" - vazaram na internet.

Depois de uma turnê abortada em 2002, a versão atual do Guns n' Roses tornou-se um show confiável no último ano, tocando músicas novas e antigas e recebendo críticas sólidas no mundo todo. Depois que a banda conclui suas apresentações de meio de ano na Austrália, na Nova Zelândia e no Japão, está com a agenda aberta, mas não dá tempo de cumprir um último prazo: na entrevista que deu à RS em 1999, Axl Rose prometeu colocar seu novo álbum nas lojas até o fim daquele século. Agora, quem sabe consiga até o fim do século 21?