DE OLHO NO PODER

O pai trabalhou no Palácio do Planalto na ditadura; o filho, agora na democracia, acompanha de perto nosso presidente-operário. Conheça a dinastia dos Stuckert, uma família de fotojornalistas que registra com suas lentes a história política do Brasil

Lucas Figueiredo Publicado em 21/09/2007, às 18h36

Ricardo Stuckert/Arquivo da Presidência

Quando era criança, Tuca costumava pular cedo da cama aos sábados (cedo mesmo, antes das 6 da manhã), porque sabia que, dali a pouco, João iria ligar. Era batata! Não demorava muito e o telefone tocava no amplo apartamento da charmosa e arborizada Superquadra 104 Sul, em Brasília. Do outro lado da linha, João perguntava, com sua costumeira elegância: "Cadê seu pai, porra? Estou esperando vocês aqui". Como o nome diz, Roberto Stuckert Filho, o Tuca, é filho de Roberto Stuckert, que na época vinha a ser o fotógrafo oficial da Presidência da República. E o tal João era o general-ditador João Baptista Figueiredo, que aos sábados costumava montar seus cavalos na Granja do Torto, uma das residências oficiais da Presidência.

Em seu momento preferido de lazer, Figueiredo não tolerava a presença de autoridades, puxa-sacos e outros tipos muito comuns na capital federal. Preferia a convivência dos Stuckert, conhecidos pelo nariz grande e, sobretudo, pelos olhos atentos e pelo faro privilegiado para a notícia.

A história da família Stuckert se confunde com a história do fotojornalismo em Brasília. Para contá-la, no entanto, é preciso voltar à Paraíba do início do século passado. Fugindo da pouco auspiciosa Europa, que começava lentamente a se reerguer da tragédia da Primeira Guerra Mundial (1914-18), o suíço Eduard Francis Stuckert entrou num navio e veio dar na praia de águas mornas e esverdeadas de Cabedelo, na Paraíba. Rapidamente, constituiu família e passou a defender-se na praça com os ofícios que conhecia: cartografia, ensino de línguas e fotografia.

Um de seus filhos, Eduardo Roberto, migrou para Alagoas e logo encontrou serventia para o ofício ensinado pelo pai. O governador do Estado, Arnon de Mello (pai de um garotinho chamado Fernando Collor), precisava de um fotógrafo oficial. Da Paraíba, Eduardo Roberto seguiu para o Rio, onde se tornou especialista em cobrir incêndios para os jornais locais. Entre uma labareda e outra, fotografava dançarinas de rebolado e jogos de futebol no Maracanã.

Quando a pauta era futebol, Eduardo Roberto carregava o filho Roberto para o campo. Cada um ficava numa trave, com uma câmera na mão, e assim o fotógrafo não corria o risco de perder nenhum lance. Aquela trave foi uma escola. Com 14 anos, Roberto (o futuro Stuckão, pai do Tuca) já era fotógrafo-estagiário do Diário Carioca.

Em 1960, Eduardo Roberto e o filho tiveram a chance de cobrir a inauguração de Brasília. Acabaram ficando naquele fim de mundo poeirento e pouco habitado, dando início à dinastia dos Stuckert no fotojornalismo da capital federal. Depois de trabalharem para alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país, Stuckão e seu pai montaram a Stuckert Press, a primeira agência de fotojornalismo de Brasília, que chegou a atender 33 jornais e revistas. Antes disso, porém, Stuckão teve a chance de, como fotógrafo, ocupar um cargo público, sonho de nove entre dez pessoas na época. O emprego pagava bem, exigia pouco e era garantia de estabilidade. Mas definitivamente fotografar defuntos no Instituto Médico Legal do Distrito Federal não estava nos planos desse voyeur do poder. O que ele gostava mesmo era de congelar a notícia com suas lentes.

Entrava presidente, saía presidente, e lá estava Stuckão. Fotografou JK extasiado com sua cria, Brasília. Registrou, quase que por acaso, o último compromisso oficial de Jânio Quadros na Presidência, antes da dramática renúncia, em agosto de 1961. Captou a angústia de João Goulart às vésperas do golpe militar de 1964. E assistiu, de camarote, o início, o meio e o fim da ditadura, clicando todos os generais-presidentes: Humberto Castello Branco (1964-67), Arthur da Costa e Silva (1967-69), Emílio Garrastazu Médici (1969-74), Ernesto Geisel (1974-79) e Figueiredo (1979-85). "Eu era o terror do fotojornalismo em Brasília", diz, sem falsa modéstia.

Um dia, quando ainda ocupava a chefia do temido SNI (Serviço Nacional de Informações), Figueiredo chamou Stuckão em seu gabinete para revelar-lhe um segredo e fazer-lhe uma proposta. O segredo: com a bênção do Alto Comando das Forças Armadas, Figueiredo ia ser o próximo presidente do Brasil. A proposta: quando ascendesse ao poder, ele queria Stuckão como seu fotógrafo oficial. Stuckão se dava bem com Figueiredo. Já inclusive fizera fotos de passaporte e de festinhas de aniversário dos filhos do general. Por causa disso, topou a oferta na hora. "Ele era uma pessoa espetacular, maravilhosa", derrete-se ao lembrar o patrão-amigo.

Depois de anos de convivência nos palácios e na caserna, Stuckão tinha acesso quase ilimitado ao presidente. Entre os dois, não havia secretárias, ajudantes-de-ordem ou assessores. Figueiredo era íntimo (e cara-de-pau) o bastante para ligar para a casa de Stuckão às 6 da manhã, no sábado, com um palavrão engatilhado para o pequeno Tuca.

Roberto Stuckert Filho e seu irmão Ricardo (o Stuckinha) gostavam de ajudar o pai, carregando as bolsas com equipamento, trocando lentes e montando o estúdio. Com o tempo, foram aprendendo a operar diafragmas e fotômetros e a conjugar a luz do ambiente com a velocidade do obturador. Tudo isso, tendo em volta presidentes da República, ministros de Estado e autoridades em geral. Pode-se dizer, sem exagero, que eles cresceram no quintal do poder. "Quando meu pai ia fotografar o Figueiredo saltando com seus cavalos na Granja do Torto, eu ficava ali vendo tudo. Um dia, o general perguntou se eu gostava de montar. Respondi que sim e ele me deu uma bota de cavaleiro, de couro marrom, que eu tenho até hoje", conta Tuca. Não deu outra: ao se tornarem adultos, Tuca e Stuckinha viraram repórteres fotográficos. E de forma tão natural quanto inusitada.

Tuca iniciou sua carreira de repórter fotográfico aos 22 anos. Ao cobrir suas primeiras pautas no Congresso, percebeu então o peso de seu sobrenome. "O [senador] Marco Maciel me olhou e perguntou se eu era filho do Roberto Stuckert. Antonio Carlos Magalhães [então governador da Bahia] fez a mesma coisa. Depois foram [os deputados] Renan Calheiros e Roberto Fiúza. Os caras das antigas no Congresso passaram a me cumprimentar, por causa do meu avô e do meu pai", conta ele.

Em 1992, quando já contabilizava três anos de praça, Tuca mostrou que sabia não só operar bem uma câmera como também lia com facilidade os símbolos do poder. Na sessão do Congresso que determinou a abertura do processo de impeachment de Fernando Collor, a quase totalidade dos fotógrafos que se encontrava ali estava de olho no deputado que, com seu voto, daria o golpe de misericórdia no presidente. Tuca inclusive. Só que ele fazia mais: não tirava o olho do advogado de Collor presente à sessão. Antes do término da votação, o advogado recebeu uma ligação. Era Collor, anunciando que acabara de renunciar, uma tentativa frustrada de interromper o processo de impeachment e, com isso, impedir a perda de seus direitos políticos. Tuca pescou o lance e pimba! No dia seguinte, a foto histórica, que registrava a tentativa de Collor de evitar o naufrágio, estava na capa do jornal onde trabalhava. Só mais um fotógrafo presente no Congresso aquele dia - um veterano que ocupava cargo de chefia num grande jornal - teve a mesma sacada. O resto boiou.

No mês passado, Tuca, hoje com 40 anos, voltou a dar um baile. No segundo dia da sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) que decidiu sobre a abertura de processos do caso do Mensalão, ele reparou que três ministros trocavam mensagens eletrônicas entre si, por meio de seus laptops. Tuca não teve dúvidas. Trocou a lente de sua câmera por uma teleobjetiva poderosa e deu um zoom nas mensagens. Acabou flagrando diálogos que mostravam a suposta disposição de dois ministros do STF de recusarem, em parte, as denúncias contra os chamados mensaleiros. No outro dia, quando o conteúdo das conversas foi estampado na manchete de O Globo, só se falou nas fotos de Tuca. (Possivelmente, ele será o primeiro repórter fotográfico do mundo a ganhar um prêmio por fotografar não uma cena, animais ou personagens, mas sim palavras.)

A história de stuckinha não é menos interessante. Seu début aconteceu em 1988, quando, aos 18 anos, ele acompanhava o pai numa viagem ao coração do Brasil. Stuckão deveria ficar 45 dias no Tocantins para registrar tudo o que se mexia ou ficava parado no mais novo Estado da Federação. Stuckinha, como de costume, carregaria equipamentos, trocaria lentes, identificaria os filmes e ficaria encarregado de despachá-los para o laboratório. Na noite do 15º dia, o pai chamou o filho num canto: "Vou ter de voltar para Brasília, para um outro trabalho urgente. Mas você vai ficar aqui e terminar este serviço. Fique tranqüilo porque você vai conseguir", disse Stuckão. Tranqüilo, Stuckinha respondeu: "Tudo bem", para espanto do pai. Stuckinha não só terminou o serviço, como deixou o pai todo babão na volta, ao apresentar fotos maravilhosas, a luz certa, os melhores ângulos, o enquadramento perfeito.

Poucos meses depois, Stuckinha conseguiria um emprego de laboratorista num jornal de circulação nacional. Com 19 anos de idade, já estava contratado como fotógrafo. "Quando fui cobrir minha primeira pauta no exterior, meu pai teve de me emancipar para que eu pudesse viajar", relembra.

Em 2002, Stuckinha fez um ensaio fotográfico do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva para a revista em que trabalhava. Lula gostou das fotos e mandou convidá-lo para ser o fotógrafo oficial da Presidência - caso, é claro, o PT vencesse as eleições. Venceu. Stuckinha então deixou o emprego e passou para o outro lado do balcão do fotojornalismo. Detalhe: com um salário um terço menor. "Nunca passou pela minha cabeça seguir os passos do meu pai e me tornar fotógrafo oficial da Presidência", revela. Então por que topou? "Só porque era o Lula. Afinal, era a primeira vez que um operário chegava ao poder. Qualquer fotógrafo gostaria de fazer o que estou fazendo. Além do mais, é interessante pensar que meu pai trabalhou no Palácio do Planalto na ditadura, e agora, na democracia, eu acompanho um presidente-operário", diz ele.

A rapadura de Stuckinha é doce, mas não é mole. Quando Lula está em Brasília, o fotógrafo chega ao Planalto por volta de 8h e nunca sai antes de 21h. Corre o dia inteiro atrás do homem, sempre de terno, sempre com uma pesada bolsa no ombro (são 18 quilos de equipamentos que ele não larga por nada neste mundo).

Depois dos seguranças, ninguém segue Lula mais de perto. "Desde que o presidente tomou posse, no dia 1º de janeiro de 2003, eu o acompanhei em todas as viagens internacionais. Já fui com Lula a mais de 50 países. Nas viagens pelo Brasil, só deixei de fazer uma, para Goiânia", conta Stuckinha, com uma indisfarçável ponta de orgulho. "A minha sorte é que cheguei no auge da minha carreira no mesmo momento em que estava no auge do meu pique e da minha forma física."

Com Tuca e Stuckinha na crista da onda, Stuckão pode enfim considerar sua missão cumprida. Mas quem disse que ele quer se aposentar? Aos 64 anos de idade, ele é o fotógrafo oficial da Infraero. Continua com o radar ligado e o dedo nervoso. Em julho, quando o Airbus-A320 da TAM não conseguiu posar na pista do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, causando a morte de 199 pessoas, Stuckão foi chamado às pressas. No dia seguinte à tragédia, estava em Congonhas, tirando fotos da pista - de todos os 1.940 metros da pista. Suas imagens foram essenciais para afastar a tese de que o avião não conseguira frear por defeitos da pista.

Há no país, atualmente, mais de 30 fotógrafos com o sobrenome Stuckert. E a quinta geração não demorará a surgir. Os filhos de Tuca e Stuckinha adoram tirar fotos com os celulares dos pais. A maioria das imagens não tem nada de especial. Já outras...

"SUERTE!" Com oito meses no poder, Luiz Inácio Lula da Silva (ainda) era o rei da cocada preta. Após discursar na abertura da sessão anual da ONU, em Nova York, em setembro de 2003, o ex-operário esticou até Havana, onde se encontrou com Fidel Castro, o mito.