Fabricando Sgt. Pepper

Em 1967, os Beatles se encontravam em uma encruzilhada - pararam de fazer turnês, experimentaram várias drogas e decidiram mudar o rock'n'roll para sempre

Mikal Gilmore Publicado em 21/09/2007, às 18h53 - Atualizado em 01/06/2016, às 14h16

Beatles lançam Sgt. Pepper’s 1967
Ap Photo

No começo de 1966, os Beatles queriam acabar com a banda de vez; a fama tinha tomado conta de suas vidas e trazido muitos problemas. "Estávamos cheios de ser os Beatles", contou Paul McCartney alguns anos depois. "Realmente, odiávamos aqueles ridículos cabelos tigelinha. Não éramos mais moleques, já éramos homens. Tudo já tinha acabado, aquela merda de juventude, toda aquela gritaria - não queríamos mais nada daquilo."

Depois de um histórico show em San Francisco (Califórnia), no dia 29 de agosto, eles resolveram parar de fazer apresentações ao vivo. Rumores de tensões se espalharam, principalmente porque o grupo não havia lançado nenhuma música em muitos meses. Até esse ponto, a influência dos quatro tinha sido inegável - a popularidade dos Beatles fomentou o surgimento de um grande número de bandas rivais na metade dos anos 60 - mas quando um estilo novo, mais experimental e alucinógeno começou a aparecer nos Estados Unidos (vindo também de Londres, com bandas como Pink Floyd), parecia que a música pop podia ter passado por cima deles.

Os ventos estavam mudando rapidamente. Apesar de o disco mais recente, Revolver, ter sido o mais inovador, os Beatles sabiam que qualquer trabalho novo poderia significar um retorno triunfal ou o fim da banda; tinham que gravar um disco que restabelecesse a eminência dos quatro. Nesse processo, durante o final de 1966 e começo do ano seguinte, o grupo acabaria gravando o álbum mais importante da história do rock: Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. "Foi ótimo, na verdade", McCartney contou à Rolling Stone. "Porque como tínhamos parado de fazer shows as pessoas na mídia começavam a sentir que havia muito silêncio, o que criou um vácuo, permitindo que começassem a falar mal de nós. Eles diziam: 'Oh, eles secaram'. Mas sabíamos que não era verdade. Era muito interessante - de maneira velada, sabíamos bem o que estávamos fazendo e que não estávamos nem um pouco 'secos'. Na verdade, era exatamente o oposto - estávamos passando por uma tremenda explosão de criatividade."

Intencional ou não, o fato é que Sgt. Pepper veio para simbolizar - imediatamente - as ambições, anseios e medos de uma geração. Desde o surgimento da banda, poucos anos antes, a cultura jovem havia mudado drasticamente. O que começou como um consenso em termos de gosto e estilo - com os Beatles no centro de tudo - se transformou em uma visão de mundo desafiadora. O rock dos anos 1960, junto com a campanha por direitos civis, o movimento contra a Guerra do Vietnã e a vontade geral de experimentar maconha e LSD deram à juventude uma nova sensação de poder. Esse momento - quando havia uma real mudança nas opções de como a vida poderia ser desfrutada e de como se poderia resistir ao sistema - era uma época de promessas, mas também de dúvidas e riscos. Nenhuma obra tinha ainda personificado essas novas sensações comunitárias, idéias e forma de fazer arte. Nenhuma, quer dizer, até Sgt. Pepper.

Depois da turnê de 1966, os Beatles entraram em um hiato, pela primeira e última vez na carreira. Em 24 de novembro, os quatro integrantes se encontraram no estúdio Abbey Road da EMI, em Londres. Durante esses meses após o concerto final, tinham pensado seriamente em acabar, mas agora estavam animados pelas oportunidades de criação que poderiam realizar em estúdio. Acabaram se surpreendendo. John Lennon tinha composto uma música durante o recesso, "Strawberry Fields Forever", cheia de estranhas associações estruturais e letras desconexas. Todos adoraram imediatamente - era uma nova direção a explorar. Os Beatles trabalharam na música por semanas - algo que nunca tinham feito antes - e, no final, criaram algo inesquecível e abstrato, assim como o maior avanço na história da música pop. O novo disco estava a caminho. "Não poderíamos ter criado um melhor protótipo do futuro", escreveu mais tarde o produtor George Martin.

Quando o empresário Brian Epstein e a EMI insistiram em ter algum material novo para o próximo single da banda (seis meses haviam se passado desde o último lançamento, um período excessivamente longo para qualquer artista de rock naquela época), Martin entregou a eles "Strawberry Fields Forever" e a brilhante "Penny Lane", de McCartney, gravada junto com a canção de Lennon. O produtor, mais tarde, se arrependeu de seu ato, sentindo que havia perdido o fundamento do novo álbum. Mesmo assim, as duas músicas funcionaram muito bem: eram duas versões de uma mesma lembrança - uma atormentada, outra melancólica - de épocas e lugares abandonados, e durante anos persistiu o mito de que os Beatles quiseram fazer uma exploração autobiográfica de sua juventude na Liverpool pós-guerra. McCartney mais tarde repudiou esse rumor: "Nunca falamos nada sobre 'vamos sentar e lembrar nossa infância'", declarou em 1995.

Se os Beatles estavam ou não olhando para trás, isso não tinha nada a ver com busca por um santuário. Eles queriam distância da imagem que haviam criado, e McCartney apresentou uma solução: "Pensei: 'Não vamos ser nós mesmos'". Sugeriu, então, que inventassem identidades e obras dentro do conceito de uma banda formada por alter egos que estava gravando um disco. "Tudo em relação ao disco", disse McCartney, "deveria ser imaginado a partir da perspectiva dessas pessoas, assim não precisava ter a ver conosco, não precisava ser o tipo de canção que você quer compor, pode ser a música que eles querem compor". McCartney propôs o nome de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band para esse grupo e escreveu a canção-título para apresentar a premissa do álbum. John Lennon e George Harrison, segundo se conta, tiveram dúvidas sobre essa situação imaginária, mas nenhum dos dois teve alguma ideia alternativa para apresentar o novo tipo de música que estavam fazendo.

Para McCartney em particular, essa tática abriu grandes oportunidades. Apesar de Lennon ter, no final, ganhado a reputação de ser o principal vanguardista da banda, McCartney foi o pioneiro. Por algum tempo, McCartney tinha se interessado pela vanguarda musical, estudando e ouvindo compositores modernos como John Cage e assistindo a shows de Pink Floyd e Soft Machine na florescente cena underground de Londres. O biógrafo de McCartney, Barry Miles, escreveu que Paul contava a John suas idéias musicais e que este o pressionava para realizá-las. McCartney estava, na verdade, desafiando a divisão entre as artes cultas (música clássica) e populares (rock'n'roll) e essa ambição, bem como qualquer coisa relacionada a Sgt. Pepper, teve conseqüências significativas.

Essa linha de ação de McCartney lhe deu uma vantagem dentro dos Beatles. Ele já tinha incluído visões vanguardistas em Revolver, mas com Sgt. Pepper, escreveu depois o engenheiro de som Geoff Emerick, McCartney estava surgindo como "o verdadeiro produtor" da banda. Lennon mais tarde concordou: "Eu estava... realmente deprimido durante a gravação de Pepper e sei que Paul estava bem. Ele se sentia muito confiante. Eu estava querendo matar alguém". George Martin também sentiu que Lennon pode ter ficado com ciúme pela atenção que o produtor dava às idéias e músicas de McCartney. Apesar da crise pessoal de Lennon - que estava insatisfeito com sua vida pessoal e confuso em relação a sua carreira artística -, ele estava entusiasmado, com tanta vontade de romper fronteiras conceituais quanto McCartney. De acordo com Richard Lush, um engenheiro de som da Abbey Road, Lennon disse que o que mais queria nesse projeto era "nada normal... quero soar, hoje, totalmente diferente do que soava ontem". Os Beatles também insistiam em realizar sessões fechadas. Raramente permitiam visitantes; não queriam ninguém roubando suas idéias.

Essa dinâmica fez com que Sgt. Pepper tivesse duas vidas: a pública famosa e uma realidade interior mais delicada com um resultado imprevisto. Havia outros elementos misturando-se com tudo isso também - principalmente uma influência que os Beatles esconderam por muito tempo. "Quando [George Martin] estava apresentando um programa na TV sobre o Sgt. Pepper", se recorda McCartney, "ele me perguntou: 'Você sabe o que levou ao Pepper?'. E eu respondi: 'Em uma palavra, George, drogas. Maconha'. E George respondeu: 'Não, não. Mas vocês não usavam o tempo todo'. 'Usávamos sim'. Sgt. Pepper foi um álbum feito à base de drogas."

Os Beatles foram apresentados à maconha por Bob Dylan em 1964 e continuaram usando desde então. Mas as drogas psicodélicas - as que estavam tomando agora - abriam possibilidades mais intensas e mais imprevisíveis. Os primeiros dois membros da banda a usarem LSD - Harrison e Lennon - ingeriram sem saber, em um jantar em 1965. O ácido os assustou, mas também seduziu. Lennon sentiu que seu processo de composição se beneficiou inicialmente da experiência psicodélica ("She Said She Said" e "Tomorrow Never Knows", de Revolver, e "Strawberry Fields Forever" foram todas feitas sob influência do LSD). Mas na época das sessões de Sgt. Pepper, de acordo com vários testemunhos, Lennon estava tomando a droga tão freqüentemente, e experimentando alguns efeitos devastadores sobre o ego de forma tão constante, que às vezes sentia que estava desaparecendo dentro da banda e dentro de si mesmo. No começo, McCartney tinha ficado cauteloso em usar LSD com os outros, mas uma noite Lennon reagiu mal a uma dose de LSD e aquilo fez com que parassem de trabalhar. McCartney levou Lennon para casa e decidiu experimentar a droga para tentar se reaproximar de seu parceiro de criação. Foi uma noite intensa quando os dois viram as conexões da amizade que os unia e também as divergências que iriam separá-los. "Foi uma experiência muito estranha", contou McCartney anos depois, "e eu fiquei completamente impressionado".

O efeito das drogas psicodélicas em Sgt. Pepper se transformou em polêmica assim que o álbum foi lançado. Para alguns, o LSD permeou todo o disco. Isso ficou ainda mais evidente com a vívida representação de uma viagem de ácido feita por Lennon em "Lucy in the Sky with Diamonds". Drogas também foram vistas - de forma leviana ou não - em "With a Little Help from My Friends" (as drogas juntam os amigos ou são, na verdade, os próprios amigos), "Fixing a Hole" (alguns moralistas indignados afirmaram que era uma referência ao uso de heroína) e "Getting Better" (melhoria pessoal causada pela euforia da droga). No final, o objetivo dos Beatles era inventar algo novo. Os alucinógenos podem ter influenciado, mas também a ambição de liberdade e experimentalismo - ideais centrais nos anos 60: a natureza do momento era descobrir novas possibilidades.

Ao mesmo tempo, não há como negar que as drogas podiam afetar a visão de significado e as convenções sociais das pessoas. As músicas mais importantes do álbum, "She's Leaving Home", "Within You without You" e "A Day in the Life" refletem pontos de vista não ortodoxos. "She's Leaving Home" é o retrato simpático de uma garota que foge de casa e dos pais que ela abandona - a única faixa do álbum que trata diretamente de um dilema social. "Within You without You" foi a única faixa de George Harrison no álbum e mostra outra influência dos Beatles. Harrison tinha o comportamento mais estranho fora da banda e foi o primeiro a se rebelar contra a fama. Mas, nas sessões de Pepper, sentiu-se renovado pela longa viagem pela Índia e pelos estudos da filosofia oriental que falavam sobre a negação do efêmero. Na verdade, as crenças orientais no transcendentalismo pareciam combinar bem com a crescente contra-cultura, que se desiludia com os princípios modernos. "Within You without You" foi um pedido de Harrison dirigido ao público de quem ele quase se afastara: "We were talking/About the love that's gone so cold and the people/Who gain the world and lose their soul/They don't know/They can't see/Are you one of them?" (Estávamos falando/Sobre o amor que esfriou e as pessoas/Que ganham o mundo mas perdem a alma/Elas não sabem/Elas não conseguem ver/Você é uma delas?). Depois de alguns anos, "Within You without You" foi ridicularizada por ser uma espécie de sermão, mas é difícil imaginar Sgt. Pepper sem a faixa. Em um álbum que ultrapassa limites, a majestosa contribuição de Harrison foi a que chegou mais perto de articular aquela aspiração em termos idealísticos.

"Within You without You" e "She's Leaving Home" foram essenciais para o sentido de Sgt. Pepper - elas traziam compaixão, esperança - mas "A Day in the Life" era a mais complexa e perturbadora. A canção foi, inicialmente, composta por Lennon - apesar de suas dúvidas sobre si mesmo e o disco, ele acabou criando o momento culminante do álbum. Na versão original de Lennon, "A Day in the Life" era um solilóquio encantador e triste, mas, assim como em "Strawberry Fields Forever", os outros Beatles e o produtor Martin viram uma chance de fazer algo excepcional. A história de um homem tão cheio da vida moderna que entrava em luto pela morte dessa mesma vida era cheia de imagens ambíguas, mas junto com uma música calma, eles chegaram a uma obra que traz sensações de pavor e epifania. Lennon pediu que McCartney fizesse uma parte nova no meio da música - ela precisava de um desvio que afastasse, e depois voltasse, ao tema principal de anseio desolado. McCartney mostrou um fragmento que tinha composto, mas também pensou em uma forma de fazer com que as mudanças essenciais da música fossem ao mesmo tempo hipnotizadoras e desorientadoras: uma orquestra que levasse a um caos em compassos ascendentes. Lennon adorou a idéia, Martin achou que seria excessivo. No final, os compositores prevaleceram, resultando no que pode ser a melhor gravação do catálogo dos Beatles. Na colaboração final dos dois, Lennon escreveu sua canção mais significativa e McCartney realizou suas ambições vanguardistas.

Apesar de ter sido gravada antes das outras faixas do álbum, "A Day in the Life" entrou no final do disco, depois que a banda imaginária tinha aparecido e sumido. Mas a música não era uma conclusão - pelo contrário, era um réquiem tanto para Sgt. Pepper como para sua visão de santuário. Quando começa a faixa, Lennon fala sobre um homem que "explodiu sua mente em um carro". Pode ser um suicídio, pode ser uma iluminação induzida por drogas, mas de qualquer forma o cantor não pode deixar de olhar: não é um homem que morreu, mas uma época que não se agüenta mais e que tampouco pode ser abandonada. A partir daí, a música se transforma em uma espiral em formação e outro cantor, McCartney, tenta nos mostrar as notícias de um sonho que se relaciona com a vida diária com insensibilidade narcótica, mas a voz de Lennon não permite que sejamos dominados pela esperança enganadora. Ele insiste em decifrar a farsa moderna, quando a orquestra nos remete para fora do conhecido mapa do século 20. "A Day in the Life" existe no espaço entre falta de consciência e desencantamento - o espaço no qual a situação entrava - e fecha com o momento musical mais famoso dos anos 60: um único acorde tocado por John Lennon, Paul McCartney, Ringo Starr, George Martin e o assistente Mal Evans em vários pianos ao mesmo tempo, reverberando ao infinito, como uma possibilidade sem resolução. Era o abismo no final do sonho, o vazio que ele deveria de alguma forma superar. Enquanto aquele acorde significativo persiste até começar a diminuir, une toda uma cultura em seus mistérios, implicações, o sentido de proteção perdida. Em algum sentido, foi o momento mais comovente que a cultura poderia ter produzido e o último gesto de unidade verdadeira que iríamos ouvir dos Beatles.

Quando a banda finalizou Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band no final de abril de 1967, tinha gasto quatro meses e US$ 75 mil no projeto - investimentos astronômicos para a época - e sabiam que o que tinham criado era algo diferente de qualquer coisa feita antes. Mas ninguém estava preparado para o que aconteceria com o disco. 250 mil cópias foram vendidas na Grã-Bretanha na primeira semana (500 mil no final de junho) e 2,5 milhões nos EUA até o final de agosto. Ficou no topo das paradas britânicas por 27 semanas. Nos EUA, ficou em primeiro lugar por quinze semanas. Era a primeira vez que um artista conseguia isso.

Os números demonstraram que Sgt. Pepper atingiu um ponto nevrálgico na cultura popular; ele definia uma era e quebrava fórmulas além de, intencionalmente ou não, conseguir capturar e mostrar o sentimento da época. O som inicial do álbum, com uma guitarra estridente cortando a pompa de uma banda de sopros antiquada, era o anúncio da mudança: o velho estava dando passagem para o novo - e aquele som, aqueles valores, de repente, tomaram tudo. "Por um breve momento," escreveu o famoso crítico Langdon Winner, "a consciência irremediavelmente fragmentada do Ocidente se uniu, pelo menos na mente dos jovens". Verdade ou não, isso foi visto - e ainda é muito lembrado - como uma ocorrência de, ou um chamado à comunidade. De certa forma, os Beatles representaram esse ideal junto com os valores da mudança de geração: eles deixaram claro desde o começo que tínhamos entrado em uma era diferente, que os jovens agora eram livres para se auto-inventarem em termos completamente novos. Com os Beatles, nós presenciamos o poder social e cultural que um grupo pop e sua audiência poderiam criar e compartilhar, e uma vez que Sgt. Pepper girava todo em torno de novas alturas possibilidades de todos os tipos se tornaram ilimitadas.

Alimentado pelo impulso dos Beatles, o rock'n'roll conspirou com as rupturas políticas e sociais dos anos 60. Lennon afirmou alguns anos depois: "A mudança de estilo de vida e aparência da juventude no mundo todo não foi algo que simplesmente aconteceu - nós propusemos isso. Sabíamos o que estávamos fazendo".

Mas o momento de Sgt. Pepper não podia durar nem poderia manter os Beatles. Só intensificou a necessidade de Lennon se sentir mais livre. Ele tinha aceitado e ajudado as idéias de McCartney para o álbum, mas Lennon achou que estavam compondo, cada vez mais, a partir de perspectivas diferentes. McCartney estava criando narrativas sobre o homem comum e peças celebratórias; Lennon escrevia a partir do que ele achava ser um ponto de vista mais autêntico e baseado em problemas pessoais. Mais tarde, Lennon afirmou: "Paul dizia: 'Venha ver o show'; eu dizia: 'Li os jornais hoje, oh Deus'".

Os outros aparentemente nunca perdoaram McCartney por seu domínio em Sgt. Pepper, mesmo depois do resultado final. Anos depois, todos os Beatles - menos McCartney - se distanciaram do álbum. Harrison e Starr freqüentemente diziam que se sentiam sem o que fazer nas sessões, esperando para tocar suas partes (apesar de que o trabalho de Starr no álbum redefiniu o som e a arte de tocar bateria no rock).

Com o passar dos anos, a reputação de Sgt. Pepper subiu, caiu e voltou ao alto - parcialmente porque as gerações subseqüentes não quiseram se limitar pela noção de que os exemplos dos anos 60 não podem ser superados. Mas também porque, certo ou errado, Sgt. Pepper agora é muito visto como o trabalho de McCartney e, no revisionismo sobre os Beatles, o gênio de McCartney foi relegado e definido como menos impressionante do que o de Lennon. Nada disso consegue, realmente, tirar os méritos de Sgt. Pepper nem a duração do seu valor, apesar de aumentar o enigma que está no centro do disco: que os Beatles queriam que nos ligássemos, mas que também queriam que ficássemos afastados (quem pode culpá-los, já que um fã louco assassinou Lennon em 1980 e outro esfaqueou Harrison no final de 1999?). As massas tinham perseguido os Beatles até o refúgio que era Sgt. Pepper, apesar de que o álbum só aproximava essas massas porque as comovia, falando por elas. Os Beatles permitiram um ideal momentâneo de aproximação que eles mesmos talvez nunca quisessem fazer parte e que acabaria destruindo a união entre eles.

Mas os Beatles não podiam evitar: afinal, queriam que o mundo ouvisse o que eles tinham feito. O maior dom deles foi sempre responder à altura o que o momento exigia. Eles nunca fizeram isso de forma mais memorável ou mais significativa do que com Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. O disco foi parte de um momento na história em que o século 20 estava se abrindo para revelar toda sua potencialidade interior, uma promessa que se fechou de forma muito rápida. O álbum exemplifica aquele momento porque Sgt. Pepper é também a história de um período em que os Beatles mostraram uma situação que não conseguiriam atravessar. Nem ninguém mais. Uma época que era só um momento, mas que acabou perdida e que não poderá mais ser recuperada.