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Asfalto Selvagem

Por André Vieira Publicado em 09/11/2007, às 13h25 - Atualizado em 20/02/2013, às 15h00

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Construída pelo governo militar no começo dos anos 70, os mais de 1,7 mil quilômetros da BR-163 (Cuiabá-Santarém) concentram todos os problemas surgidos com a ocupação da Amazônia, entre eles desmatamento, grilagem, violência desenfreada e desvio de recursos públicos. Com a promessa de asfaltamento, a estrada, criada para ser um símbolo do desenvolvimento no Brasil, pode se tornar o arauto da destruição do que resta na maior floresta tropical do planeta

Uma tímida claridade começa a se insinuar sobre as árvores à esquerda do micro-ônibus, mas dormir se tornou impossível, ao menos para mim. Já esgotei as opções de posição que a apertada poltrona oferece a um corpo de 1,83 m e não há mais o que fazer a não ser esperar. A chuva ainda cai, então, pelo visto, a espera será longa. Paramos há pouco mais de seis horas, por volta das 11 da noite, mais ou menos na metade de nosso caminho de 400 quilômetros entre Novo Progresso e Itaituba, no Pará. Dois caminhões estão atravessados na estrada e não há por onde passar. Com sorte, lá pelo meio da manhã a chuva pára e perto do meio-dia o sol sai. O calor ficará insuportável, mas pelo menos a estrada vai secar. Tem sido assim todos os dias desde que começamos a pegar chuva, cerca de uma semana atrás. Mas tenho a impressão de que essa não será uma manhã de sorte. A chuva está diferente da dos dias anteriores, parece disposta a ficar.

Leva duas horas para que todos os meus companheiros de viagem acordem. Somos apenas sete num micro-ônibus para 19 passageiros, então lugar para tentar dormir não foi um problema. Quando saio pra esticar o corpo, percebo que ganhamos vários vizinhos durante a noite. A fila atrás de nós tem dois ônibus, duas carretas carregadas e cerca de cinco picapes cabine dupla, que ali, no meio da BR-163, são considerados carros de passeio. Do lado de lá dos caminhões encalhados também há outra fila respeitável. Aos poucos, o atoleiro começa a ganhar vida. Uns escovam os dentes em silêncio na beira da estrada ou se espreguiçam ainda semi-despertos, outros, como eu, passeiam sob a chuva agora fina para acordar o corpo e avaliar a situação. "Fui desviar dele e aí a traseira escorregou. Tentei tirar, mas tá liso demais. Se secar um pouco ele sai", se explica para quem se dispuser a ouvir o motorista do caminhão à nossa frente, traseira solidamente encaixada na vala na beira da estrada, apontando para o caminhão-tanque encalhado um pouco mais atrás, do outro lado da pista.

Ele está visivelmente constrangido de ter atolado tão feio num trecho aparentemente sem maiores dificuldades. Afinal, como todos não cansam de repetir, faz muitos anos que a estrada não está tão boa. O motorista que me conduz desde o meio da tarde de ontem, no entanto, livra sua cara. Depois de usar toda sua experiência de anos de BR-163 periciando a estrada, ele elucidou o motivo de ela estar escorregando tanto. "Foi boiada que passou aqui e revolveu o barro. Aí, saiu do trilho, já era."

Também conhecida como Cuiabá-Santarém, a BR-163 foi uma das duas estradas (a outra foi a Transamazônica) construídas pelo governo militar no início da década de 1970 para abrir as portas da Amazônia à ocupação humana. Até então, a região era um enorme vazio demográfico, o que dava arrepios aos generais. Tanta terra sem dono poderia despertar a cobiça de vizinhos mal-intencionados.

O bordão tão sonoro quanto populista "as terras sem homem da Amazônia para o homem sem terra do Brasil" serviu para atrair agricultores, sobretudo do Sul e Nordeste do país, áreas que já começavam a ser palco de conflitos pela posse da terra, a se instalar ao longo das estradas recém-abertas. A promessa era terra grátis, crédito fácil e o braço (e bolso) protetor do Estado para aqueles dispostos a enfrentar a natureza e trazer o progresso à região.

O povo veio, mas o que o governo prometeu não. De todas as promessas não cumpridas, a que mais ressoa, ainda hoje, na memória dos que responderam ao chamado é o asfalto. Dos 1.756 quilômetros da 163, apenas 800 são asfaltados, todos ainda no Mato Grosso, que abriga metade da estrada. No Pará, cortados pela outra metade, há apenas dois pequenos trechos de asfalto que juntos não somam 150 quilômetros, perdidos em meio ao mar de lama. Não há candidato a cargo eletivo, de presidente de clube a presidente da república, que em época de eleição não prometa trazer o asfalto que falta. Mas, como Godot, ele nunca chega. Este ano, o governo Lula promete acabar com a espera de uma vez, mas são poucos os que ainda se permitem ter a esperança de um dia chegarem limpos a seu destino depois de uma viagem pela 163.

Você lê "Asfalto Selvagem" na íntegra em nossa edição 13, que está nas bancas