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Ecos Falsos

Auto-gerenciados, roqueiros investem no marketing e resgatam o pop

Pablo Miyazawa Publicado em 12/11/2007, às 19h46 - Atualizado em 20/02/2013, às 15h01

Ecos Falsos em supermercado de São Paulo: (da esq. para a dir.) Gustavo, Daniel, Davi e Felipe

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"A gente não tem pudores de explorar o marketing da banda. Rock é comercial mesmo", admite Gustavo Martins, principal letrista do Ecos Falsos. O grupo, formado por quatro paulistanos de vinte e poucos anos, se apresenta como um bem formatado produto da geração internet: os próprios integrantes gerenciam o site, a página no MySpace, o mailing e a criação de merchandising. "Nunca escondemos o sonho de nos tornarmos mainstream", assume o guitarrista Daniel Akashi. "Amamos tocar no circuito independente, porque é lá que se tem contato com os fãs, mas estamos sempre atrás da fama."

Recém-lançado, Descartável Longa Vida (Monstro Discos) consolida três anos de intensa atividade underground e marketing virtual. "Por mais que sejamos uma banda que coloca as coisas na internet, a gente sentia que precisava lançar um disco", diz Gustavo. "É uma divulgação de luxo. Quando o público e a imprensa vêem o CD, é outra abordagem", explica o baterista Davi Rodriguez. O resultado chama a atenção tanto pelo cuidado estético e sonoro quanto pelas participações especiais, de Fernanda Takai (no dueto "Dois a Zero") a Tom Zé (no refrão de "A Revolta da Musa"). "Desde que o Tom Zé elogiou nossas músicas em 2004, a gente já pensava em chamá-lo pra fazer alguma coisa", lembra Gustavo. "Fui na casa dele, escrevi o refrão num papel e fizemos uns takes."

Como uma cooperativa, o Ecos Falsos distribui obrigações burocráticas entre seus membros: Gustavo marca shows, Daniel administra o site, Davi faz clipes e Felipe Daros cuida do fotolog e marca ensaios. Na música, as funções também são compartilhadas. Após a saída do último baixista, a banda abriu mão das três guitarras simultâneas e passou a dividir o baixo e as vozes entre seus integrantes. Durante shows, a troca de posições no palco é constante. "Percebemos que cada um tinha um timbre diferente. Tentamos dividir os vocais e funcionou mais do que bem", explica o guitarrista Felipe, que canta em "A Revolta da Musa". "É uma coisa dos Titãs que gosto, de ser uma banda com várias possibilidades", completa Gustavo, que carrega o histórico de ter sido um dos mais jovens autores brasileiros a publicar livro (lançou seis desde os 9 anos). E apesar de ser o mais falante, rechaça a condição de líder. "A gente evita esse lance. Digamos que sou o gerente, mas todos são sócios igualitários."

Daniel concorda: "O fato de o Gustavo ser o mais desinibido leva à impressão de líder e gera amores e ódios. Acho que chamar a atenção das pessoas pro bem ou pro mal é ótimo. Ter essa postura é fundamental pra fazer algo acontecer".

Apesar de se auto-declarar bem-humorado - seja nas letras e interpretações cheias de ironia, seja na postura de palco despojada e milimetricamente planejada -, o Ecos é cuidadoso ao citar influências. "A gente se identifica mais com Ultraje, Língua de Trapo, Premeditando o Breque do que com Mamonas, Raimundos", diz Gustavo. "As pessoas acham que o artista deve ter uma postura séria o tempo todo, mas a gente não saberia ser de outro jeito." Carregando referências variadas que vão do rock oitentista ao típico barulho indie, a própria banda tem dificuldades em definir seu som. "Rock sofrido, não no sentido do sofrimento, mas na dificuldade de se encaixar em um gênero", brinca Felipe. "Tem muita gente que acha barulhento, e muita gente que curte barulho e nos acha pop demais", explica Daniel. "A gente é indie na postura, mas não no sentido estético", resume Davi.