Pulse

Não Basta o Perdão

Edgard Scandurra lamenta a saída de Nasi do Ira!, mas afirma que a banda continua

José Julio do Espirito Santo Publicado em 09/11/2007, às 14h28

"Pode ser que, além de perdoá-lo, a gente volte a amá-lo. Não é algo impossível", diz Scandurra, sobre Nasi
Divulgação (Ira!)

A partir de 8 de setembro, o Ira! passou a tocar como trio. Os detalhes da saída de Nasi e a briga com seu irmão e empresário da banda, Airton Junior, noticiados pela imprensa com sensacionalismo, não conferem, segundo o guitarrista Edgard Scandurra.

"Me vem a história de que Nasi foi ameaçado com uma faca pelo irmão", Scandurra fala. "Júnior jura - e eu acredito nele - que não agrediu, mas foi agredido." O guitarrista diz que há testemunhas que presenciaram a cena. "Nasi saiu de casa com um taco de beisebol e deu nas costelas do irmão", relata indignado. "Não bastasse isso, deu uma cabeçada na boca do Júnior, quebrando um dente." Até o fechamento da edição, Nasi não respondeu aos pedidos de entrevista da Rolling Stone.

Férias são essenciais em qualquer profissão. Merecidos meses de descanso poderiam ter acontecido para o Ira!, não fosse o contrato que tinham que cumprir para gravar Invisível DJ - um dos melhores discos do grupo. "Nasi falou que a gente jogou o ideal da banda fora, quando na verdade fui quem preservou esse ideal, essa herança de o Ira! ser nascido do pós-punk e ter uma identidade", ele desabafa sobre o que leu na imprensa. "Fui eu quem brigou para a gente nunca ter uma música mela-cueca no disco."

O estrago está feito e é fato que Nasi não irá retornar para o Ira! "Isso aí é abandono de emprego. Nasi deixou a gente numa situação delicada com contratantes, e procurou queimar o filme do irmão, que tem uma agência que trabalha com ótimos artistas", Scandurra diz, revoltado. Quando a conversa segue para trás, desde o ano em que os dois se conheceram, a raiva se mistura à tristeza. "Nasi era um cara legal, com senso de justiça incrível e que, de repente, foi virando um justiceiro, assumindo essa personalidade de Wolverine", o guitarrista comenta. "Nos quadrinhos, isso pode ser bacana, mas na vida real é inaceitável."

Edgard cita um verso de uma música do novo disco, "É Preciso o Amor, Não Basta o Perdão", para explicar o que sente no momento e conjecturar um futuro. "Pode ser que a gente, além de perdoá-lo, volte a amá-lo. Não é impossível de acontecer", fala, sem conter a emoção. "Como ser humano, quero atingir esse ponto. Quero ter essa nobreza, de perdoar Nasi pelo que ele fez para mim, para a banda e para as pessoas em volta dele."

Nem por isso o Ira! pára. "Nós temos tudo para ser o melhor power trio da história do rock brasileiro", afirma. "Mais do que The Jam, a gente tem que pegar como referência The Jimi Hendrix Experience e fazer um puta som como foram nesses shows que a gente fez aí." Scandurra fala como se fosse uma questão de honra. No fundo, é mesmo.