Jerry Seinfeld fala à RS sobre Bee Movie e Brasil

Teté Ribeiro Publicado em 22/09/2008, às 19h45

Seinfeld se veste de abelha para promover seu novo filme, Bee Movie
Cortesia da Dreamworks à RS EUA
Jerry Seinfeld é o criador de uma das maiores séries de humor da tv norte-americana, que leva seu sobrenome. Nove anos depois do fim de Seinfeld, quando todos achavam que ele estava à toa, o comediante finaliza seu primeiro longa-metragem, Bee Movie, em que mostra as semelhanças entre a vida das abelhas e a dos humanos. Entre uma risada e outra, faz planos de conhecer o Brasil, o país em que todos "gostam de sacanagem"

Assim que os primeiros acordes da música "Good Riddance" (algo como Já Vai Tarde), do Green Day, começaram a tocar no final do último episódio de Seinfeld, na trágica noite de 14 de maio de 1998, não tinha mais volta. "Espero que você tenha aproveitado muito, que tenha sido a melhor época de sua vida", dizia a letra. E era o fim da história de Jerry, George, Elaine e Kramer - a TV jamais seria a mesma depois desses personagens.

Cinco anos depois, o documentário Comedian, dirigido por Christian Charles, foi lançado e registrava a volta de Jerry Seinfeld aos palcos fazendo "stand-up comedy". Na frente da platéia, sozinho, ele sofre um pouco - algumas vezes as piadas não colam - mas Jerry é Jerry e, ao final do show, sem nunca perder a calma, seu ato chega à perfeição. Na vida pessoal, viveu uma revolução: o eterno solteiro da TV se apaixonou por Jessica Sklar assim que se instalou em um triplex no Upper West Side (em Nova York). Os dois se casaram no Natal de 1999 e tiveram três filhos (Sascha, Julian e Shepherd). Segundo Jerry, é por culpa de sua prole que ele tem tido tão pouca vontade de trabalhar - ou pelo menos era isso que alegava nas entrevistas que dava de vez em quando.

Secretamente, estava mergulhado em seu primeiro longa-metragem, a animação Bee Movie, que chega aos cinemas brasileiros em dezembro. O filme se passa em Manhattan e em uma colméia instalada no Central Park onde mora o personagem principal, Barry B. Benson (voz de Jerry), um jovem idealista e sonhador que não se conforma com o destino das abelhas: trabalhar, trabalhar, trabalhar e morrer. Barry quer conhecer o mundo e, apesar da oposição de seu melhor amigo, Adam (Matthew Broderick), ele decide deixar a colméia. Em Manhattan, se apaixona por uma florista (Renée Zellweger), a única pessoa que não parece se incomodar com a presença de uma abelha falante, mas se decepciona com os outros humanos quando descobre que o mel, produzido com o suor de seus colegas, é enlatado e vendido nos supermercados. Decide dar uma de Robin Hood dos insetos e consertar essa injustiça toda com uma arma inesperada: um processo contra toda a humanidade.

O filme em questão começou como uma brincadeira. "Sempre gostei de abelhas. Um dia, estava almoçando com o Steven Spielberg e, só para ser engraçado e inteligente, disse que queria fazer uma animação sobre abelhas chamada Bee Movie [um trocadilho com filme de abelha e filme B]", conta. Mas essa não é uma história que se encaixa com o que todo mundo sabe sobre Jerry Seinfeld. Ele não liga para os "títulos". Por isso, seu seriado na TV chamava simplesmente Seinfeld e cada um dos 90 episódios tem um nome simples, começado com o artigo "The" (como em "The Contest" - em que os quatro protagonistas apostam quem vai conseguir passar mais tempo sem se masturbar). Jerry não queria perder tempo com títulos, preferia que todos os esforços mentais fossem usados para que os roteiros ficassem melhores.

Sabe o que mais não se encaixa no perfil que todo mundo mais ou menos tem do comediante? Ele mesmo. Jerry é muito mais interessante pessoalmente - talvez a tela das TVs dos anos 90, quando o seriado foi ao ar, fizesse seu nariz parecer maior e o lábio superior e seus dentes de cima mais, digamos assim, cavalares. O homem que está na minha frente no hotel Ritz Carlton (em Nova York) é até bem bonitão, com os olhos atentos e de uma cor indescritível, entre verde-musgo e mel. Tem o rosto levemente bronzeado pelo sol dos Hamptons ("ninguém agüenta passar os verões em Nova York", explica, esquecendo-se do fato de que bem pouca gente ganhou algo em torno de 500 milhões de dólares na última década - fora a venda dos DVDs). Ele é mais alto do que imaginava, tem 1,80m, e veste um figurino inesperado: um terno impecavelmente bem cortado, camisa e gravata chiquérrimas e um sapato sério, mas não careta - nada de tênis branco, uma de suas

marcas registradas, nem jeans, camisa de abotoar e cinto.

Jerry fala altíssimo, quase grita ("acho que é mania de quem freqüenta o palco", comenta), e consegue te fazer pensar que ele está exatamente onde quer estar e que suas perguntas são as mais interessantes que ele já ouviu e que você é a primeira pessoa que fez aquelas perguntas - às vezes dá até uma pausa para pensar a respeito antes de soltar a resposta. Ou talvez eu só tenha me deixado levar pela emoção de ter meia hora - ou oito minutos mais que a duração de um episódio da série - ao lado dele.

Seinfeld é um seriado completamente nova-iorquino. Você acha que Bee Movie segue o mesmo estilo?

Se eu não contasse para ninguém que tinha escrito esse roteiro, as pessoas adivinhariam. É meu humor, meu estilo, está tudo lá. Só sei fazer aquele tipo de piada [risos], não adianta inventar muito.

Piadas com judeus também aparecem muito - as abelhas são quase como uma caricatura dos judeus em Nova York. A mãe da sua personagem é uma mãe judia clássica.

[Risos] Não conheço nenhum outro tipo de mãe. Esse é o meu universo.

Mas esse personagem parece bem mais "do bem" que o do seriado&

Ele é mais inocente, menos cínico.

Foi mais fácil ou mais difícil escrever um personagem menos cínico?

Acho que o grau de dificuldade foi o mesmo. É incrível como o mundo das abelhas parece vir cheio de piadas semiprontas. A vida delas é parecida com a nossa. As abelhas vão para o trabalho, têm um chefe pentelho, os pais se preocupam. Mas o que é muito mágico no universo delas é o mel e as flores. Nenhum outro animal tem contato com duas coisas tão adoráveis quanto mel e flores.

Quanto tempo você ficou envolvido nesse projeto?

Quatro anos.

Durante esse tempo, os jornalistas sempre perguntavam o que você andava fazendo, já que o público tinha a impressão de que você estava à toa. Por que nunca mencionou o filme?

Era segredo. As pessoas me diziam que tinham a impressão de que eu não estava fazendo nada. Me divertia muito com isso. Não dou a menor importância para o que falam de mim. Revistas e jornais quase sempre mencionam quanto eu ganhei - e ganhei mesmo muito dinheiro -, mas trabalhei muito por isso e não devo nada a ninguém. E se não quisesse trabalhar mais não precisaria.

Seus filhos sabem o que você faz?

Não, mas minha filha mais velha (Sascha) me chama de "Jerry Seinfeld", o que é muito engraçado. Mas ela não sabe que os outros pais não têm programas de TV. Eles já viram trechos do Seinfeld, me viram em entrevistas, mas para eles não é diferente de quando a gente faz filminhos caseiros, é tudo a mesma coisa.

E por que ela passou a te chamar de Jerry Seinfeld?

Acho que de tanto ouvir outros adultos falando: "Ela é filha do Jerry Seinfeld". Um dia ela chegou em casa e me perguntou: "Você é o Jerry Seinfeld?". Disse que sim, que esse era o meu nome, e agora ela usa em frases como: "Mãe, o Jerry Seinfeld vem com a gente para a praia?". Só na terceira pessoa, mas usa mesmo que eu esteja presente, é muito divertido.

Você assiste desenho animado com os seus filhos?

Sim, mas temos assistido alguns antigos, como Tom e Jerry e Os Flintstones. Sempre gostei de animação. Sempre achei muita graça de fazer objetos que não falam falarem. Coisas simples como pensar em uma meia na secadora de roupas tentando escapar do seu destino sempre me pareceram divertidas.

O que você tem assistido na TV hoje?

Muito pouca coisa. Não gosto da maioria dos programas que vejo e odeio reality shows. TV é uma mídia para os artistas, botar a câmera na frente de uma pessoa qualquer e tentar colocá-la em situações em que ela é humilhada, envergonhada, desesperada ou entediada não é entretenimento para mim. É como ler uma dessas revistas de fofocas. Você se interessa por um minuto, depois perde o encanto e joga fora porque não tem nada lá. Acho que a indústria de entretenimento devia pegar de volta essa responsabilidade de ser criativo, de ter idéias. Os produtores querem fazer só o que o público quer e isso não funciona, é errado. Você não pode deixar a audiência ser seu líder, tem de liderar a audiência. Tem de instruir a audiência e mostrar o que é bom.

O que faz quando está zapeando e se depara com um episódio de Seinfeld? Pára e assiste ou troca rápido de canal?

Depende. Gosto das últimas temporadas. Então, se está em um momento especialmente divertido, assisto um pouco, mas nunca até o fim.

Algumas expressões criadas por você no seriado entraram no vocabulário norte-americano. Você fica entediado cada vez que dá de cara com mais um "yada yada yada"?

Adoro me deparar com um "yada yada" ou qualquer outro termo desses que saíram da série para o mundo real.

Desde o fim de Seinfeld, em 1998, não apareceu nenhum seriado na TV tão engraçado ou tão inteligente. Mas os dramas melhoraram muito. Acha que a comédia está em crise?

Às vezes acho que sim. Mas aí vejo um filme como Ligeiramente Grávidos ou um comediante como o inglês Ricky Gervais, e tenho esperança. Não sei se a comédia surge da cultura ou se é completamente aleatória. Mas concordo com você de que não há comédia boa o suficiente nos dias de hoje.

Pode ser porque o mundo está vivendo um momento não muito divertido?

Pode ser, pode ser. Acho que é a melhor teoria que eu ouvi até agora.

Por que fazer uma animação a essa altura de sua carreira?

Foi uma combinação de vários fatores divertidos. Um deles foi mergulhar no mundo das abelhas e criar um meio ambiente que fosse muito parecido com Manhattan, que foi como sempre imaginei o mundo das abelhas. Pelo que vi nos documentários, as colméias estão sempre lotadas, todas as abelhas estão sempre com pressa e moram umas em cima das outras. Eu pensava: "É exatamente como a cidade onde moro!". E a animação me parecia o único jeito de contar essa história. O outro fator: o Steven Spielberg e o Jeffrey Katzenberg (sócios na produtora Dreamworks) praticamente me ofereceram a chave do estúdio para que eu fizesse qualquer coisa. O Jeffrey me disse que isso nunca tinha acontecido antes, alguém de outra mídia entrar no mundo da animação sem saber absolutamente nada e produzir, escrever, dirigir e estrelar seu próprio filme.

E o que encanta você nesse universo?

É totalmente diferente de tudo o que já tinha feito. Depois de nove anos de série, saí da TV e recebi algumas propostas de filmes, mas tudo me pareceu muito igual. Mas animação é totalmente diferente, e a novidade me deixou muito cheio de energia. É como um brinquedo novo, que você tem de aprender como funciona para poder se divertir com ele. E uma maneira nova de se expressar, isso me interessa sempre.

O fato de escrever para uma animação o deixou mais livre para ter idéias?

Não há limites com a animação. Jamais conseguiria botar uma câmera dentro de uma colméia. Foi muito divertido criar dois universos - o dos humanos e o das abelhas - e fazer com que eles primeiro interagissem e depois entrassem em atrito. Isso é uma novidade, a maioria desses filmes acontece ou no mundo dos humanos ou no dos animais, quase sempre eles não se encontram. Ratatouille, que eu adorei, tem animais e humanos, mas só se passa no mundo dos humanos.

Você teve de aprender alguma técnica de animação?

Tive de aprender tudo. A maioria das pessoas que trabalham com animação não sabem tanto quanto eu hoje em dia. Passei meses aprendendo como as coisas acontecem. Tive que conhecer todas as fases, fiz quase uma pós-graduação em animação.

Então o filme foi dirigido por você?

Praticamente, mas não oficialmente. Como estava muito envolvido nas outras áreas, preferi que os dois diretores, Steve Hickner e Simon J. Smith, assumissem a direção-geral.

O fato de você não saber nada sobre animação o ajudou em alguma coisa?

Acho que sim, eu trouxe um entusiasmo e uma energia novos para o estúdio, assim como algumas boas idéias.

Spielberg e o Katzenberg vão lhe dar a chave do estúdio para outra rodada?

Eles parecem muito felizes com o resultado. E acho que essa liberdade que eles me deram tem a ver um pouco com as qualidades que eles viram em mim, mas também com o fato de eles perceberem que sou uma das pessoas mais pacientes do planeta. Esse processo é muito, muito lento e tedioso. É como construir um desses modelos de navio usando pinças. É um grande show de fantoches.

Você fica nervoso ao pensar em como as pessoas vão receber o filme?

Claro, quero que elas gostem, trabalhei muito nisso e meu único objetivo é fazer o público gostar.

Mesmo depois de ter sido tão elogiado, você já não tem certeza de que seu humor agrada ao público?

Não, de jeito nenhum. Acho que pensar assim é muito presunçoso e perigoso. Prefiro ser modesto e oferecer meu trabalho como um presente para as pessoas, e torcer para que seja bem recebido.

Você está fazendo alguns trailers para promover Bee Movie, não? Um dos melhores que vi mostra como seria impossível contar essa história se ela não fosse animada. Em algum momento considerou misturar as mídias?

Estava tão empolgado com a idéia de uma animação que só queria brincar com ela. E esse trailer foi uma brincadeira, como algumas vinhetas que a gente fez. Tem uma em que um garoto vem entregar café no escritório dos roteiristas e começa a dar idéias para o filme, e eu fico irritado e comento como todo mundo acha que sabe escrever comédias. Aí um dos roteiristas me conta que o sobrenome dele é Spielberg e, na próxima cena, ele está sentado na cadeira de chefe e eu saio para pegar um café para ele. É uma paródia do que algumas pessoas fantasiam sobre Hollywood.

Isso não acontece nunca?

Pode acontecer, mas em 99% dos casos quem se destaca nessa indústria tem talento de verdade, e talento não parece ser genético.

Você disse que sabe tudo sobre animação. Sabe tudo sobre abelhas também?

Estudei as abelhas por muitos anos, fiz minha lição de casa. Sempre achei que elas eram os insetos mais parecidos com os humanos, pelo menos com a sociedade que conheço, com as hierarquias sociais e a divisão do trabalho. As abelhas têm uma fábrica, o que pode ser mais humano do que ter uma fábrica?

Bee Movie é uma sátira ao capitalismo?

É uma sátira do que pode acontecer quando uma pessoa fica entusiasmada demais com uma idéia. O meu personagem exagera no entusiasmo e acaba mexendo com o equilíbrio da natureza. Ele não vê como o trabalho dele e o das abelhas interagem com o resto do universo, esse é o ponto principal.

Tinha algum especialista com você nas filmagens ou você mostrou o roteiro a alguém para que não tivesse nenhum erro em relação aos insetos?

Não. No filme não queria interferência científica, porque o que é real não me interessa, só o que é engraçado. Não é um filme educativo. Mas algumas coisas são reais e engraçadas, como o fato de que as abelhas não conseguem voar quando está chovendo.

A Dreamworks está cada vez mais investindo em animações que têm apelo entre os adultos. Por que isso?

Acho que porque o humor está ficando mais sofisticado, como é o caso de Ratatouille. Acredito que as crianças gostam de pequenos personagens, porque eles se vêem muito assim, e adoram quando um personagem pequeno faz uma coisa grandiosa. Então acho que vão gostar do Barry mesmo sem entender todas as piadas, todas as referências, eles não precisam entender todas as nuances.

E o que vai fazer depois desse filme?

Ainda não sei. Mas garanto que não vou fazer o filme da série Seinfeld nem voltar para um seriado de TV. Preciso de uma idéia que me interesse muito. E tenho filhos pequenos, então gosto de ficar em casa. A vida de comediante ainda me atrai, não tem reunião, não tem entrevistas, é simples e agradável. Talvez faça só isso para o resto da vida, não sei.

Você continua parecendo muito mais jovem do que é. Você é vaidoso?

Não sou vaidoso, mas cuido da minha saúde. Tento fazer exercícios e comer comidas saudáveis e não me encho de coisas que fazem mal, não fumo, não bebo muito, não tomo muito café. Hoje em dia me cuido mais do que antes, tenho 53 anos e quando fiz 50 achei que era a hora de começar a prestar mais atenção na minha saúde.

Aos 50 anos você resolveu começar a se cuidar? Mas os artistas se cuidam desde os 15 em geral, não?

Não entendo essas pessoas jovens obcecadas com a aparência. Todo mundo tem o corpo ótimo aos 20 anos, para que perder tempo com isso? Nunca liguei para minha aparência, o que era óbvio pelos meus desastrosos cortes de cabelo nos anos em que durou o seriado. Mas agora me vejo me forçando a andar para todos os lugares, ando sem parar, longas distâncias. Quero viver muito para ver o que vai acontecer com os meus filhos.

Você vai viajar com o filme para alguns lugares do mundo. Escolheu os países em que o seriado faz mais sucesso?

Sim, não faria sentido promovê-lo em lugares onde ninguém sabe quem eu sou. Sei que em Israel o seriado faz muito sucesso, assim como na Austrália, no Brasil, no México. Recentemente, descobri que Seinfeld é muito popular na Índia, então liguei para a Dreamworks e disse que quero ir para lá.

Vai conhecer o Brasil?

Ainda não tenho certeza, mas espero que sim, está na lista de lugares que quero conhecer.

E o que você sabe sobre o Brasil?

O que me contaram é que todo mundo é lindo, tanto os homens quanto as mulheres, que tem umas danças supersensuais e que as pessoas gostam muito de sacanagem. É verdade? É assim mesmo?

Todo mundo é lindo e gosta de sacanagem? Acho que alguém está querendo muito que você vá para o Brasil. Mas sim, há danças sensuais, boas festas, boa música, praias lindas, comidas e bebidas exóticas. Interessa?

Vendido! [risos] Estou casado mesmo, o que me importa se é todo mundo lindo? [risos]