O senhor do tempo

Moderno como nunca, Paulinho da Viola revê a carreira em disco acústico

Antônio do Amaral Rocha Publicado em 08/11/2007, às 20h25 - Atualizado em 17/12/2007, às 17h26

Paulinho da Viola: recordar é viver
Divulgação

Nos 40 minutos de conversa para divulgar seu novo trabalho, o DVD e CD Acústico MTV, Paulinho da Viola divagou sobre temas recorrentes em seu repertório. O tempo, como não poderia deixar de ser, foi um deles: "Penso muito sobre o tempo, que passou a ser uma preocupação da maturidade. Algumas músicas que ouvia na infância me fazem lembrar rostos de colegas de escola, de situações vividas. Uso o tempo para me situar... tenho uma visão difusa, esfumaçada dos acontecimentos. O tempo é o senhor das revelações".

Realmente, o tempo parece estar sempre do lado de Paulinho. Aos 65 anos e com 27 discos na carreira, ele hoje não parece ter dificuldade para recordar o início de sua trajetória musical. "O rock e a bossa nova me deixaram literalmente perdido e me fizeram ficar ligado na música que meu pai [o violonista Cesar Faria] fazia. Queria ser como Zé Kéti, que via no programa do Sérgio Porto. 'Pai, esse é o tipo de música que quero fazer', e ele respondia ironicamente: 'Acho melhor você fazer twist!'.

Quatro das músicas do repertório de Acústico MTV são inéditas: "Vai Dizer ao Vento", "Bela Manhã", "Ainda Mais" e "Talismã" - esta última uma parceria com Arnaldo Antunes e Marisa Monte que nasce com cara de clássico. "Eu tinha uma música quase pronta e disse pra Marisa: 'Se você quiser, posso terminar e você pede pro Arnaldo colocar a letra'", conta Paulinho. "Mas não esperava que fosse tão rápido. Daí ela trouxe a música pronta e disse que também tinha entrado na parceria." A versão em DVD - o primeiro da carreira do músico - traz cinco faixas a mais que a versão em CD: "Dança da Solidão", "Onde a Dor Não Tem Razão", "Argumento", "Foi um Rio que Passou em Minha Vida" e "Só o Tempo", além de um bem cuidado making of que inclui depoimentos de amigos e de músicos que acompanham o cantor há longa data. De repertório variado, o disco realça a abrangência de estilos e temas abordados durante a carreira do compositor carioca - como desilusão, amor, passado, presente, futuro - e como essa variedade extrapola o universo do samba. "Essa coisa de ser moderno não depende da forma ou com que instrumento se toca uma música. Posso fazer samba, choro, valsa", ele concorda, e sem falsa modéstia, assume: "É sempre difícil falar da gente: a gente sempre é condescendente consigo mesmo, ainda bem. Mas me sinto moderno".