Quem quer música legalizada?

Lojas on-line de música investem para educar consumidor brasileiro

Henrique Martin Publicado em 08/11/2007, às 20h36 - Atualizado em 17/12/2007, às 17h34

Caetano Veloso optou por lançar seu último disco, Cê (2006), antes na internet do que em lojas físicas
Guto Costa/Divulgação

A iTunes Music Store, da Apple, é o exemplo da loja dos sonhos de música digital. São mais de 6 milhões de canções no acervo, muitas delas já vendidas sem proteção contra cópias. Só que os brasileiros não têm acesso a essa loja, já que, oficialmente, a Apple não trabalha com produtos de música no Brasil - apesar de vender seu iPod normalmente por aqui. A saída para o consumidor brasileiro que quer comprar álbuns e faixas com respaldo legal, no entanto, é partir para as lojas de música dos grandes portais, como Terra, IG, UOL, entre outros.

É quando o comprador esbarra em outro problema: é quase certo que a música adquirida nesses sites legalizados não irá funcionar em um iPod. E para fazer funcionar é preciso fazer um "trambique" tecnológico: gravar um CD e copiá-lo para o computador usando um formato diferente.

As lojas on-line brasileiras não são novidade. O iMusica, empresa que fornece a plataforma de comércio eletrônico musical para diversos sites (como MSN, Submarino e Americanas.com), surgiu em 2000. Nessa época, entretanto, as conexões de internet ainda eram, na maioria, por linha discada, e acessar a rede em alta velocidade era luxo para poucos. Hoje, a situação mudou e já há mais de 6,5 milhões de conexões rápidas em todo o país. E é a banda larga um dos principais motivos para os grandes portais investirem em música digital. "Até as lan houses nas favelas têm banda larga e o download de músicas é uma realidade. Mas a venda de músicas ainda está no começo", afirma Caíque Severo, diretor de conteúdo do Internet Group. "É possível dizer que cerca de metade dos internautas brasileiros visitam sites relacionados a música, sejam eles revistas, blogs, rádios on-line, páginas com letras", confirma Beni Goldemberg, gerente de produto do Terra Sonora.

O MusiG, assim como o MSN Music, os afiliados do iMusica e a UOL Megastore, trabalham em um modelo parecido ao da iTunes Store. Os sites vendem tanto álbuns completos como faixas individuais (preço médio: R$ 1,99). O comprador adquire créditos como funciona com um celular pré-pago. O acervo, porém, apesar de expressivo, ainda é bem menor que o da loja da Apple. Hoje, a UOL Megastore oferece aproximadamente 800 mil músicas, seguida pelas quase 600 mil da plataforma iMusica e pelas 500 mil dos demais. São catálogos extensos, com acervos das grandes gravadoras e de quase todos os selos independentes do país. E é aqui que se encontra a maioria do público-alvo dos sites: o UOL estima que 60% dos compradores buscam material que não encontram em sites de compartilhamento de arquivos e com maior qualidade de som. "Os 40% restantes são sucessos de rádio, para o público jovem", diz Jan Fjeld, gerente-geral da UOL Megastore. E há ainda os lançamentos exclusivos, como Cê (Caetano Veloso) e Daqui pro Futuro (Pato Fu), exemplos de discos que chegaram antes à web do que ao mundo físico.

Outro modelo possível de venda de música on-line é a transmissão via streaming de músicas com alta qualidade de som, um dos métodos usados pelo Terra Sonora. O usuário do site pode escutar rádios digitais gratuitamente, mas se quiser, pode pagar uma assinatura mensal (R$ 9,90) para ter acesso a todo o catálogo e ouvir sempre que estiver conectado. O consumidor não baixa as músicas, porém pode ouvi-las, o que acaba conduzindo à compra. "Os maiores compradores de downloads são assinantes do serviço", afirma Goldemberg. Um terceiro modelo de negócios, já adotado em algumas lojas norte-americanas, é a assinatura ilimitada de downloads: por um valor mensal, o usuário baixa quantas músicas quiser. O ponto negativo: devido à proteção tecnológica, o usuário perde o acesso às músicas que já baixou se um dia parar de pagar o serviço. Sites como MusiG e MSN Music estudam colocar no ar lojas com esse perfil. "Temos que lidar ainda com o problema cultural do brasileiro, que prefere ter as coisas de graça", resume Andréa Fornes, produtora executiva do MSN.

Nenhuma loja on-line divulga dados de vendas, mas todas são unânimes em afirmar que, apesar de existir audiência, os números são ainda modestos. Segundo dados da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), a comercialização de música pela web representou menos de 2% das receitas totais de venda de música no Brasil em 2006 - número que deve chegar a 7% em 2007. "O desafio é conseguir seduzir o consumidor com lançamentos e raridades", conclui Felippe Llerena, diretor-executivo do iMusica. "Tem que haver uma correção no preço também para diminuir o disparate entre o meio físico e o digital, que ainda é muito caro." Para o futuro, a extinção do DRM - o sistema de proteção anticópias nas músicas - é uma tendência inevitável. Tanto iMusica quanto UOL Megastore prometem "para breve" o fim da armadura. E a ampliação da venda para outras plataformas, como telefones celulares, é mais do que certa. Mas essa já é outra história.