Alá, Barulho e Anarquia

Na estrada durante a primeira turnê de punk muçulmano nos Estados Unidos

Evan Serpick Publicado em 12/12/2007, às 00h00 - Atualizado em 14/01/2008, às 18h55

A banda Kominas toca em um porão em Chicago
Kim Badawi

Em agosto passado, um barulhento ônibus escolar verde com camelos vermelhos desenhados na lateral dirigiu-se até o Centro Islâmico da Grande Toledo, em Ohio (Estados Unidos). Dezessete punks exaustos, cheirando a cerveja, com penteados moicanos, se arrastaram até a mesquita procurando um lugar para descansar. "Fiquei surpreso: eles nos deixaram ficar lá", diz Kourosh Poursalehi, 19 anos, líder da banda Vote Hezbollah. "Eles até quiseram comprar nossos CDs!"

Vote Hezbollah (o nome da banda é uma piada) é uma das cinco bandas punks muçulmanas que organizaram uma turnê de dez shows nos Estados Unidos, durante agosto e setembro. As bandas, originárias de Chicago, San Antonio, Boston e Washington, compartilham uma visão de esquerda e antipatia pelo presidente George W. Bush. E todas usam o punk como uma forma de expressar raiva, confusão e orgulho de serem jovens e muçulmanos em um país traumatizado após os atentados de 11 de setembro.

Vinte e quatro horas depois de deixarem a mesquita de Toledo, a banda Kominas - "os bastardos", no idioma punjabi -, de Boston, está tocando em um porão na praça Logan, em Chicago. Os punks locais se misturam com jovens muçulmanos curiosos - incluindo algumas poucas garotas usando lenços na cabeça - quando o líder da banda, Shahjehan Khan, começa a cantar a letra de "Sharia Law in the USA": "Sou um islâmico/E sou o Anti-Cristo!" Ao seu lado, o baixista Basim Usmani - em cuja camiseta pode-se ler "Sou Muçulmano" - acompanha a música enquanto dança ao lado de um rapaz usando uma burca feminina.

"Esse é o melhor momento da minha vida", diz Khan, 23 anos, que cresceu em Boston, filho de imigrantes paquistaneses. As bandas em turnê fizeram contato online e a maioria se conheceu no primeiro show da turnê. Apesar de todos serem filhos de imigrantes de países como Paquistão, Irã e Síria, eles se juntaram através dos esforços de um convertido norte-americano, Mike Muhammada Knight. Knight - que comprou o ônibus por US$ 2 mil em um leilão de internet e é o principal motorista - é o autor de The Taqwacores (algo como "Os conscientes-hardcore de Deus"), um romance sobre uma cena de punks muçulmanos que acabou inspirando o nome da turnê (Taqwatour).

Há mais de 1 milhão de muçulmanos vivendo nos Estados Unidos, e a geração mais jovem ainda está lutando para encontrar seu lugar. "Mudou tudo para nós depois de 11 de setembro", diz Khan. "A melhor forma de lidar com isso é através da música." Os Kominas são um dos grupos mais estabelecidos, já fizeram turnês e gravaram discos. Suas músicas misturam a velocidade e a atitude punk com sons do Oriente Médio. As letras, confrontadoras, também são pessoais. Em "Par Desi", Usmani descreve como foi surrado por skinheads: "Em Lahore, está chovendo água/Em Boston, está chovendo botas".

Todos na turnê possuem histórias sobre perseguições por serem muçulmanos. "Há um estigma, 'Oh, ele é do Paquistão, é terrorista'", diz Omar Waqar, da banda Diacritical (Washington). Vários membros também foram criticados por seus pais ou outras pessoas na comunidade muçulmana. "Desde 'música é errado, proibida' até 'vocês não deveriam cantar versos do Corão nas canções'", conta Khan.

No dia seguinte após o show no porão de Chicago, a turnê foi convidada a tocar em uma conferência da Sociedade Islâmica da América do Norte. A audiência jovem que eles atraem, segregada entre setores masculino e feminino, clama com adoração como se eles fossem estrelas do rock. Mas, quando o grupo feminino Secret Trial Five tomou o palco, os organizadores tiveram que chamar a polícia para encerrar o show, uma vez que é proibido para as muçulmanas cantarem em público. "Foi completamente insano", diz Knight. "O show estava indo muito bem até elas começarem a cantar."

À medida que a turnê seguia, o ônibus ficava cada vez mais sujo, com roupas, lixo e grafite em várias línguas. Metade dos assentos foram trocados por sofás esfarrapados. "Os sofás são o pior lugar para dormir", conta Khan. "Eles estão desconjuntados porque o ônibus não tem amortecedor." Então, em vez de dormir, os músicos conversam. "Falamos sobre como somos religiosos, como é viver aqui", diz Khan. "Quase sempre nos pegamos na porrada."

Mas a maior parte da turnê foi uma fonte de conforto e solidariedade. "Eu estava deprimido pra caralho, tipo, 'Merda, como vou sobreviver como músico neste país?'", conta Waqar, líder do Diacritical. "É bom estar ao lado de um grupo de pessoas com quem a gente pode se relacionar, que estão passando pelo mesmo tipo de crise de identidade por virem de países diferentes."