Uma visita a Colniza, a cidade mais violenta do Brasil

Por Felipe Milanez Publicado em 12/12/2007, às 00h00 - Atualizado em 20/02/2013, às 15h01

Distrito de Colniza tem uma rua só, de terra

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Esquecido pelas autoridades federais, o município de Colniza foi agraciado com o prêmio de "cidade mais violenta do Brasil". Uma terra onde propriedade se ganha na violência e na corrupção, e as árvores amazônicas não passam de metros cúbicos de madeira à espera de serem cortados e vendidos

Reflexivo, o madeireiro sentado ao meu lado na mesa do bar, junto do fotógrafo Araquém Alcântara e do sertanista da Fundação Nacional do Índio (Funai), Pedro Rodrigues, é magro, tem 54 anos, cabelos grisalhos, um jeito simpático, meio dissimulado, e um tranqüilo sotaque mineiro. Com algumas cervejas, ele, Júlio Pinto, baixa a guarda que adotara no início da conversa, desconfiado de nossa presença na cidade. E se dá a falar particularidades da vida, como a relação que tem com um filho deficiente, a tristeza que sente desde que foi largado pela esposa, e sobre seu pai, Renato Pinto, a quem considera um homem sábio. "Meu pai me diz isso desde pequeno: 'Aqui na Amazônia, terra não tem dono, mulher não tem honra, homem não tem palavra e árvore não tem raiz'."

Naquele bar, no fim de mundo que é o distrito de Guariba, no município de Colniza, no Mato Grosso, quase 1.110 quilômetros distantes da capital, a máxima paterna é recebida como uma lição de moral inquestionável. Pedro, nosso guia, era ameaçado de morte, e nós estávamos a seu lado. Todos ficam quietos na mesa. Afinal, esse madeireiro já tinha dito, com o peito cheio, que carregava 18 processos criminais nas costas. Na intenção de se mostrar sincero, fitava nos olhos, era atencioso. Até deixou transparecer um orgulho que sente desses processos que responde na Justiça, como para deixar claro que defende com a própria vida a terra que seu pai diz ser da sua família. Seu pai, a quem ele sempre se refere com admiração, é acusado pelo Ministério Público Federal de cometer crime de genocídio contra os índios dentro da área de sua fazenda. Dizendo estar há quase três décadas lá, a família Pinto hoje é temida e respeitada em Colniza. Quase toda sua propriedade está sendo reivindicada pela Funai, desde o fim de 2006, para se tornar terra indígena. Como estávamos sendo guiados por um sertanista, parte oposta nesse processo, era natural a apreensão de Júlio Pinto.

Colniza, esquecida pelas autoridades federais, foi agraciada com o prêmio de "cidade mais violenta do Brasil" pelo Mapa da Violência, uma pesquisa feita pela Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) e divulgada no início de 2007. A pesquisa, de 2004, contabilizou a média de 165,3 assassinatos por 100 mil habitantes, mas o número é efêmero. Afinal, Colniza tem só, oficialmente, 11,5 mil moradores, segundo o Censo de 2000, contando a área rural. De 2004 pra cá, se tornou a cidade que mais recebe migrantes no estado do Mato Grosso.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cresceu 135% de 2000 a 2007. Hoje, fala-se em 30, 40 mil habitantes. Cartazes nas ruas esbanjam dizeres - "Venha para Colniza, apoio para todos", "Em Colniza, plantando, dá". Mas o aumento do preço das commodities no mercado internacional deixou a cidade como uma fronteira a ser invadida, gerando grande oferta de emprego e elevando a taxa de desmatamento em 107% com relação ao ano passado, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Com a mão-de-obra, a disputa por terras também aquece. Pelo que tem sido recolhido de corpos em cemitérios clandestinos em operações recentes da Polícia Federal, e pelo que se comenta na cidade, o número apontado na pesquisa da OEI não faz jus à realidade. Um senhor chamado Piauí, 60 e poucos anos, dono de um bar no distrito de Guariba, dá a dica: "Isso só conta quem morreu no hospital da cidade. Mas quase ninguém morre no hospital. Grileiro mata grileiro é no campo. Lá sim que morre gente". Em Colniza, notícia fresca se pega em bar e hotel, onde as pessoas passam e as conversas ficam. Difícil quantificar as mortes, mas inegável é que existam em número assustadoramente elevado.

"Em Colniza não se faz muita ameaça. Quando sujeito descobre que tem gente contra ele, já está morto", explica, didaticamente, o madeireiro Pinto na mesa do bar. Antes de nos encontrar, Pinto já havia sido informado de nossa presença desde que começamos a viagem. Gente da imprensa, fotografando caminhões de tora, queimadas, locais de assassinato, tudo isso chama a atenção dos transeuntes. Imprensa só vai lá com proteção da polícia, e esse não era o nosso caso. Ao contrário: Rodrigues, nosso companheiro de viagem, era persona non grata. Mas, além de me convidar educadamente para conhecer o seu plano de manejo sustentável, a sede da sua empresa, e pedir para que falássemos bem da cidade, o madeireiro desejava desfazer um "mal-entendido" sobre uma ameaça de morte contra um funcionário da Funai, que trabalhava com Rodrigues. "Se alguém aqui fosse ameaçar, o senhor sabe o que já teria acontecido com ele. Isso é boato que esse funcionário mesmo criou. E você, Pedro", diz, fitando o sertanista nos olhos, "é presa fácil, tem muita gente querendo te comer vivo, mas nós vamos resolver nossa briga na Justiça. No final de tudo, lá dentro da terra, daí, sim, vai ser só eu e você. E eu só saio de lá morto".

Olhando de fora, um recém-chegado demora para perceber o clima de violência que permeia o ar. As pessoas desviam o olhar. Não há roubo ou assaltos por ali - uma mochila nossa esquecida na rua não foi tocada por nenhum transeunte nas quatro horas em que ficou à deriva. São 13 farmácias, oito sorveterias e um número flutuante de prostíbulos. A cidade é cheia de bares com mesas de sinuca. Há poucos campos de futebol. A grande loja local de motosserras se chama Corta-mato. Colniza parece plenamente urbanizada, ainda que só quatro ou cinco ruas sejam asfaltadas. Lá, nome é apelido, e papel é documento. Nome registrado em cartório ninguém gosta de falar. Já não gostam muito de "cartório", que é o entrave para transformar as terras em propriedade privada.

Também não gostam de quem vem de fora porque sabem que, se chegou para passar só alguns dias, não vai respeitar a regra local do silêncio. Por essa razão que o simpático madeireiro veio até a nossa mesa. "Vim dizer para o senhor escrever uma matéria falando bem daqui, porque eu estou cansado dessas que saem por aí dizendo que aqui é violento, sem que os repórteres sequer visitem a cidade para se informar." Pedi para me ajudar a entender o local, e perguntei para ele o que eu poderia falar bem dali.

Tentou explicar os planos de manejo que possui nos seus 54 mil hectares, que é a autorização do Ibama e da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema) para explorar a floresta. Quase toda a propriedade está dentro de Terra Indígena Kawahiwa do Rio Pardo, e em litígio. Sobre isso, tendo em vista que os planos de manejo exigem uma metodologia complexa de exploração, ele preferiu resumir: "Quero preservar a floresta, e o único meio de trazer progresso para cá é vendendo madeira". Mas e quando ela acabar? "Daí a gente vai embora, porque não vai ter mais nada para fazer aqui."

Certamente, sem madeira não haverá mais nada. O solo em alguns lugares já parece um deserto, seco e coberto apenas por areia. A produção de gado é ínfima. E, enquanto houver metro cúbico de madeira na floresta, vai ter alguém para serrar. Cada hectare pode render R$ 5 mil no comércio ilegal. Em fazendas com 50 mil, 200 mil, 400 mil hectares, as contas passam dos bilhões de reais. É muito dinheiro, e não faltam compradores. Um documento, um calhamaço de 200 páginas, preparado por um grupo de madeireiros da empresa Coprocentro, em que denunciam seus concorrentes ao Ministério Público Federal, explica a rota da exploração da floresta.

A madeira é serrada na região - na beira da rua única de Guariba, há seis madeireiras; segue-se então para Machadinho d'Oeste, em Rondônia, onde, mais uma centena de quilômetros em estrada de terra depois, chega-se à BR-174, asfaltada, para então seguir a Curitiba, no Paraná, e ao destino final, o porto de Paranaguá, de onde são exportadas. Algumas madeireiras também negociam um volume grande para os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul, e um outro tanto segue para a Europa e Estados Unidos via porto de Belém, no Pará. Mas são porcentagens pequenas comparando-se ao que segue para a China.

Segundo investigações da polícia Federal e do Ministério Público (MP), algumas madeireiras trabalham em um pool de empresas criado somente para vender para a China. Uma das maiores entre as investigadas é a holding Marinebox, que vende para uma das maiores compradoras chinesas, a Shanghai Anxin Floor, que produz piso no aquecido mercado imobiliário chinês. "Ou seja, as árvores nobres da Amazônia são exportadas para virar chão de luxo na China", diz uma fonte do MP. E nesse processo, além da destruição ambiental, é financiado um dos maiores esquemas de corrupção e violência do Brasil.

O metro cúbico da madeira de lei é vendido a R$ 10, um preço considerado ridículo que só é possível em razão da ilegalidade de todo o processo. Para se ter uma idéia, o preço médio do metro cúbico do eucalipto custa R$ 18. Numa média real do mercado, essas toras nobres deveriam sair por bem mais de R$ 100. Pelo porto de Paranaguá, só a Marinebox exporta mais de 400 contêineres por mês de madeira. É muita árvore que cai por motosserras compradas na Corta-mato. A Marinebox se autoproclama "a maior agência exportadora de madeira da América Latina". Possui sedes em Paranaguá, Curitiba, Ji-Paraná e Belém, e fornecedores no Pará, Mato Grosso e Rondônia. As madeiras comercializadas são cerejeira, ipê, massaranduba e jatobá, entre outras. Em geral, para disfarçar as madeiras que são proibidas de serem vendidas, como o mogno e a castanheira, atribuem-se a elas outro nome na nota fiscal.

Um engenheiro florestal que pediu para não ser identificado por sofrer ameaças de morte explicou como funciona o esquema, visto com o olhar de um funcionário responsável por colocar no papel os chamados Planos de Manejo Florestal Sustentável. "Fazem um plano dividindo a área de que conseguiram documentos em 25 unidades, como manda a lei. As outras áreas eles abrem para grileiros entrar e virar seus fornecedores", diz. Esses pequenos grileiros vendem toras para as serrarias, onde a madeira, tanto do plano como essas outras, são "lavadas" subornando o pessoal local do Ibama e da Sema. Das serrarias, segundo ele, ou comercializam direto as pranchas de madeiras por suas empresas ou revendem para um grande comerciante de Rondônia, que ele prefere, mesmo sob absoluta insistência, não citar o nome.

Mas colniza está sendo investigada também por seus crimes que vão além da extração ilegal de madeira. Volta e meia, a Polícia Federal manda agentes à paisana para lá. Aparecem como migrantes comuns, em busca de emprego. Um agente da Polícia Federal, junto de funcionários da Funai e do Ibama, confessou: "Se for menos de 70 quilos de cocaína, não vale nem a pena o deslocamento. Nós só conseguimos trabalhar com quantidades realmente grandes, que é o que passa mesmo por Colniza". É possível sair da Bolívia e cruzar o Brasil até a BR-163 apenas em estradas de terra, sem passar por nenhuma fiscalização. Mas o meio preferido dos traficantes é o aéreo. Utilizam as pistas das madeireiras ou os longos trechos da estrada em linha reta para deixar a droga para algum receptador. Muitas vezes dá certo. Outras não.

Em abril deste ano, um grupo de três garimpeiros, andando pela região, viu um avião descer e, logo em seguida, subir. Sabendo do esquema, eles foram até a beira da estrada e encontraram 75 kg de cocaína. Colocaram nos seus jamanxins - mochilas feitas de palha - e carregaram para vender no Amazonas. Em um dos piores trechos da estrada MT-206, que era só areia, um cerrado escaldante no meio do que seria a Amazônia, topamos com um caminhão frigorífico de aparência suspeita, protegido por dois times de batedores, uma dupla em uma moto e outra em um Fiat Uno. Estávamos fotografando uma casa destruída, que foi incendiada em junho passado. Segundo relatos, uma família havia sido assassinada ali e os corpos foram deixados para os porcos comerem. Restou no local o esqueleto da casa e alguns porcos soltos. Os batedores da moto, percebendo algo de errado no caminho do transporte, pararam para conferir quem éramos. Pediu água, fitou-nos nos olhos, um a um, enquanto seu companheiro dava a volta pelo outro lado do carro, ambos com revólveres na cintura. Eu gaguejava, Araquém, o fotógrafo, abaixou a câmera, e Pedro, o sertanista, explicou que estávamos indo para Rondônia sem dizer quem éramos ou o que fazíamos. E nada mais foi falado. O sujeito, cerca de 35, 40 anos, braços fortes, vestindo uma bermuda e uma camiseta regata, boné na cabeça, olhos escuros, pele clara e uma aparência mal encarada, agradeceu a água e disse: "Ok, vocês podem ir, obrigado pela água".

Não há assassinatos em Colniza, dizem. "As pessoas morrem, só isso", explica um simpático sujeito hospedado no Hotel Vitória. Nos corredores, cruzamos com os agentes da Polícia Federal que vieram para a intitulada Operação Ouro Verde. Tranqüilos, chinelos, bermudas e coletinhos pretos com os dizeres em amarelo - Polícia Federal. "Aqui ninguém é assassinado. Gente morre. Só isso. E ninguém diz mais. Não fala de que morreu, nem porque foi morto. Se morreu, não existe mais", explica o hóspede. Não dá para esquecer as talvez sábias palavras do pai de nosso companheiro de copo: "...homem não tem palavra". Logo, não há por que indagar testemunhas.

Em Guariba, o único hotel da cidade, o Hotel Dias, é inteiramente feito em madeira, como quase todas as construções locais. A fachada parece ter sido importada de algum cenário de velho oeste norte-americano. É uma réplica ironicamente impecável, que enche de orgulho sua dona, Dorothy. Estabelecida ali há nove anos, vinda da cidade de Londrina, no Paraná, Dorothy diz que está no paraíso. "Não acho aqui violento, violento mesmo é Curitiba", diz, sem titubear. "Mas aqui a gente tem que saber viver. Muita gente passa aqui, fico sabendo das coisas, mas não me meto", explica. Em seu hotel, ficam hospedados funcionários dos órgãos públicos, gente da Funai, Ibama, Incra. Vários deles ameaçados de morte. "Prefiro não saber. Peço até para não me avisarem se vão vir ou não. Mas aqui dentro nunca houve nada", afirma.

Em Colniza, um dos mais ilustres moradores da cidade me conta: "Eu não acho que isso aqui seja tão violento assim". Seu Dino, dono do Bar e Restaurante Seu Dino, quase 70 anos, diz saber do que fala. "Antes de vir para cá, eu vivia em Cerejeiras, em Rondônia. Lá sim era barra-pesada. Eu trabalhava numa marcenaria. Em 21 dias tive que fazer 49 caixões. Tava tudo muito agitado, muita gente matando muita gente por terra, ninguém tinha documento de nada. Resolvi sair de lá e procurar um lugar mais calmo e vim parar aqui." Ele é atencioso. Gosta de falar, e fala sem pudor, mas nada que comprometa a ponto de se caracterizar denúncia. Então o senhor veio parar aqui em Colniza em busca de paz? "De paz não, mas de trabalho, de um modo para ganhar dinheiro. Mas, do jeito que andam as coisas aqui, eu já quero sair. Tá ficando como lá em Cerejeiras quando me mandei." Papo vai, papo vem, ele se solta: "Aqui não tem lei, você precisa divulgar isso. E ninguém faz nada para melhorar. Ninguém do governo se importa. Essas operações da polícia não mudam nada".

O tempo passa diferente em Colniza. As histórias de um passado próximo se tornam distantes na gramática local. Quando se ouve os relatos dos assassinatos pela primeira vez, a imagem que vem à cabeça é de algo que aconteceu na segurança do pretérito perfeito. Por exemplo, o caso do assassinato da família na margem da MT-206, ocorreu em abril, mas quando falam dele parece algo de tempos distantes. A ocupação de Colniza foi intensificada apenas em 1999, um ano depois de a área virar cidade, desmembrada do antigo e gigantesco município de Aripuanã - uma ação no Supremo Tribunal Federal contesta a criação do município por fraudes. No mapa do Brasil de 2005 estampado na parede do Hotel Vitória, a cidade nem aparece. Simplesmente não existe, é só uma mancha verde.

As lendas de bandidos famosos na região enriquecem o imaginário local, e não é difícil juntar histórias por ali. Há o tal Gauchinho, gerente de uma fazenda, assassinado no início deste ano, que se dizia "o juiz, o promotor e o advogado". Há cerca de cinco anos, Gauchinho acertou as contas com um sujeito na cidade. Como ficou por isso mesmo, ele não deixou de freqüentar o local e até ficou amigo do filho do morto. O garoto acumulou a raiva até completar 17 anos de vida. Em maio de 2007, como costumava fazer, saiu para tomar uma cerveja e jogar sinuca com Gauchinho. Na volta, deixou Gauchinho se distanciar alguns passos e deu três tiros pelas costas, no meio da rua. Aproximou-se da vítima, caída no chão, e desferiu mais 13 facadas. Largou o corpo e foi para casa se banhar. Contas acertadas, ninguém fala mais sobre isso. Virou história de Colniza.

O Jesse James local é um bandido fino e popular que atende pelo vulgo Manoel Cumprido. Um elemento alto, pele morena, cabelo enrolado, simpático, que não chegamos a conhecer pessoalmente porque, diz-se, está escondido em algum lugar do Amazonas. Todos que falam de Manoel Cumprido o fazem com um sorriso no rosto ao lembrar de suas façanhas. "Só não escreve aí que fui eu que disse isso, porque o Manoel tá vivo e pode vir aqui me pegar", dizem. A ficha de Manoel Cumprido na polícia é longa, mas a lenda local é maior - e com um ar mais romântico.

Manoel Cumprido cresceu sozinho. No início da carreira, foi o pistoleiro de grandes grileiros. Fazia o serviço de "acertar as contas com funcionários". A fama de temido fez com que passasse a buscar o apoio popular. Um ex-seringueiro diz que o cabra, de hora para outra, passou a ser simpático com o povo. "Ele entrava no puteiro e gritava: 'Ninguém sai, ninguém entra, podem beber à vontade e se divertir com as moças que é tudo por minha conta!'." O ex-seringueiro diz que, ao escutar esse grito, que ouviu umas quatro vezes, saía de fininho. "Mas parece que a coisa ficava animada. Agora, se alguém saísse sem ele deixar, ele mandava matar ali mesmo, na porta."

Ouvindo essas histórias, Júlio Pinto, no bar em Guariba, solta gargalhadas. "Grande Manoel, ele é uma figura." Copo cheio, gole fundo, ele começa a contar mais sobre a saga do Jesse James brasileiro na Tombstone da Amazônia. "Nunca ouvi falar de cartão-postal em Colniza, mas um dia o Manoel fez um. Era uma foto com um baita diamante, grandão, meio rosa, que ele dizia ter encontrado numa de suas terras." Essa história, confirmada pelo Ministério Público Federal, aconteceu no ano de 2004, logo após o massacre, por índios cinta-larga, de 29 garimpeiros em uma terra indígena na região. Os garimpeiros estavam à procura de um garimpo, e Manoel apareceu com a solução. Júlio continua: "Ele distribuiu esse cartão- postal por tudo quanto é lado e disse: 'R$ 10 mil reais para entrar lá'. E foi um corre-corre danado, apareceu muita gente. Todo mundo pagou, entrou e, no final, era blefe! O garimpo era uma furada. E quem iria cobrar o dinheiro?".

Segundo outra máxima sábia de Colniza, o pistoleiro profissional é sempre um homem elegante para os padrões locais. Sujeito calmo, dizem que pode até tomar um tapa na cara em um bar que não vai reagir na hora. Na hora, é preciso frisar, pois logo depois o sujeito ousado pode aparecer morto. São respeitosos, falam pouco, a voz é mansa. E são cristãos. Não largam a cruz. Nem ela nem as modernas pistolas que carregam. Por ali, o revólver calibre 38 é equipamento de segunda categoria.

Há poucas mulheres nas ruas de Colniza, mas quando aparecem em público elas têm poder. Quem primeiro mandou na cidade foi uma prefeita: Nelci Capitani (PFL). A chefe da Associação dos Pequenos Agricultores, conhecida como a associação dos grileiros, é uma mulher. À boca pequena, comenta-se que ela tem o pulso tão firme que mandou matar o marido no ano passado. "O marido dela morreu de forma meio estranha, tem boatos de que foi ela quem mandou matar. Mas isso tudo é normal aqui", me conta um freqüentador do restaurante do seu Dino. Mas política em Colniza não acontece muito nos lugares convencionais. Perguntando pela cidade, ninguém sabia me dizer quem era o prefeito "do momento". Prefeito não dura muito no cargo. No ano passado, Sérgio Bastos (PMDB), o Serjão, foi afastado pelos vereadores. O vice-prefeito Adir Ferreira de Souza, sem partido, assumiu. Bastos conseguiu voltar, mas foi em seguida afastado novamente, dessa vez pelo juiz de direito - em 2005, o Tribunal de Justiça do Estado (TJ) mandou um juiz para a cidade. Adir saiu, voltou. Saiu novamente, depois que o TJ reconduziu Bastos ao cargo. Na Câmara de Vereadores, houve briga para tentar assumir. José Luiz de Paula (PP), presidente da Câmara Municipal, que em uma dessas alternâncias teve a chance de assumir a prefeitura, foi seqüestrado e espancado. Não se sabe ainda se o seqüestro foi real ou planejado. Está sob investigação. O descrédito popular aos representantes legislativos é tanto que seu Dino, que já foi vereador, diz temer até pisar na Câmara. "Última vez que eu tive lá foi uma briga tremenda. Era cadeira voando, gente pulando em cima da mesa, saindo pela janela, daí começou um tiroteio. Eu é que não entro lá nem pra ver", conta.

Uma das principais denúncias que chegaram ao Ministério Público Federal sobre Colniza foi feita, ironicamente, pelos próprios madeireiros. Uma briga de poder deflagrada entre as grandes famílias faz com que uma acuse a outra. E, nisso, quem se fortalece é o Poder Público - a última estância a que podem recorrer. Os madeireiros da Coprocentro representaram criminalmente a família Spinelli de uma série de ilegalidades. A recente Operação Ouro Verde 2 chegou a indiciar o filho de Ubiratan Spinelli, presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE), Rodrigo Spinelli. Mas a quem interessa colocá-lo atrás das grades? Ao Brasil e à floresta ou aos madeireiros concorrentes?

"O Estado não tem como enfrentar isso", assume Mário Lúcio Avelar, procurador da República no estado do Mato Grosso. "Mas não podemos negar que o Estado existe, sim, em Colniza. Por exemplo, na aprovação dos planos de manejo. Mas o Estado que existe é o Estado comprometido, que não fiscaliza, corrompido. O plano de manejo e a madeira saem porque o Estado autoriza, pelo menos parte disso. É o Estado corrompido", diz.

O próprio representante do MP assume que nunca esteve na região, e afirma categoricamente que nós assumimos risco de vida indo para lá sem proteção. Ele e várias outras pessoas entrevistadas pela reportagem pediram para eu perguntar à ministra Marina Silva o que ocorre com o Ibama, que autoriza o desmate na região. Acusam a imprensa de ser omissa e o Estado de ser corrupto e só servir aos interesses exploratórios. Várias pessoas com quem falamos para esta reportagem estão sob ameça de morte - algumas chegaram a ser claramente ameaçadas na nossa frente. Mas se na Amazônia homem realmente não tem palavra, eles podem estar salvos. Porque uma coisa é certa: as árvores que oxigenam o mundo não possuem mais raízes em Colniza.