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A Fábrica do Medo

Atualmente, o FBI tem mais de 100 forças-tarefa dedicadas à luta contra o terrorismo. Mas será que o governo dos Estados Unidos não estaria criando seus próprios crimes?

Guy Lawson Publicado em 09/04/2008, às 14h59 - Atualizado em 15/05/2008, às 18h30

"E aí, o que você vai fazer?", perguntou o amigo. "Escolher um alvo?", respondeu o aspirante a terrorista. "Quero algum tipo de edifício governamental, quem sabe um tribunal federal."

Era fim de novembro de 2006. Derrick Shareef, de 22 anos, e seu amigo Jameel estavam em Rockford (Illinois), sonhando com a idéia de um ataque terrorista aos Estados Unidos. Os dois não tinham certeza de que tipo de atentado seriam capazes de orquestrar. A única coisa que Shareef tinha como certa era a intenção de causar grandes danos e se vingar do país responsável pela opressão contra os muçulmanos. "Devia apagar um juiz", disse Shareef. "Talvez explodir um prédio do governo."

Mas, embora Shareef cultivasse fantasias violentas, seria difícil considerá-lo uma ameaça como terrorista. Norte-americano convertido ao islamismo, o jovem não tinha treinamento militar ou armas à disposição. Além disso, tinha menos de 100 dólares em sua conta bancária. Trabalhava em um subemprego como balconista de uma loja de video-games. Não tinha carro. Sua situação era tão precária que não tinha sequer onde morar. Certo dia, um outro muçulmano, Jameel, apareceu na loja em que Shareef trabalhava e lhe ofereceu abrigo. Poucas horas depois de se conhecerem, o jovem já estava morando com Jameel, suas três esposas e seus nove filhos. Os dois passaram então a fantasiar prováveis alvos em Rockford, uma cidade do meio-oeste norte-americano de cerca de 150 mil habitantes e uma minúscula população muçulmana. Meramente conhecida por ser a cidade natal da banda Cheap Trick.

Encontrar um alvo significante em Rockford não é fácil. Cidade de infra-estrutura precária situada no meio dos Estados Unidos, o lugar não é mais do que uma intersecção de estradas e ferrovias, com pouca coisa relevante o suficiente para chamar a atenção de terroristas. Justamente por isso, Jameel sugeriu a maior atração da cidade: o Shopping Cherry Vale, um amontoado medíocre de lojas de roupa e tênis na periferia. "É uma boa", admitiu Shareef. "Cara, juro por Alá. Por mim eu topo", respondeu Shareef. "Topo pela causa. Topo viver pela causa e morrer pela causa."

Quando o carro voltou da oficina, os dois foram checar o shopping.

"Se você em algum momento quiser pular fora... você tem que me avisar", disse Jameel. "Preciso saber se é o que você quer."

"Tô dentro", respondeu Shareef.

"Ninguém vai pegar a gente", garantiu Jameel. "Não se preocupa."

"Não me preocupo em ser pego", respondeu Shareef. "Não com vida."

Apesar de todas as possíveis ameaças, Shareef era, em uma análise objetiva, um pretendente a terrorista patético e infeliz - um dos novos tipos de terroristas domésticos que o governo federal tem desfilado para a mídia desde o 11 de setembro. O FBI, de certo modo, elevou Shareef, se esforçando para transformá-lo de um balconista metido a terrorista suicida. Como muitos outros supostos extremistas que têm servido de alvo para as autoridades, Shareef não sabia que seu mais novo amigo e parceiro - tão empenhado em fazê-lo avançar em seu plano - era, na verdade, um informante do FBI.

Enquanto amaldiçoava judeus e norte-americanos, Shareef estava sendo vigiado quase constantemente pela Força- Tarefa Antiterrorista (FTA) do Distrito Norte de Illinois. Desde o 11/9, esse tipo de operação triplicou. Com mais de 2 mil agentes do FBI designados para 102 forças-tarefa, as FTAs tornaram-se uma espécie de exército semi-secreto a serviço do Governo Federal norte-americano, dotado de poderes que superam os de qualquer outra agência aplicadora da lei. As FTAs são compostas não só de policiais locais, agentes especiais do FBI, do serviço de Imigração e do Imposto de Renda, mas também de agentes secretos da CIA. Sendo assim, elas efetivamente destruíram a "parede" que historicamente existia entre autoridades da lei convencional e as agências de inteligência. Durante a administração Bush, as FTAs se transformaram em agências de espionagem doméstica, como a MI5 britânica. Uma agência com o poder de dar voz de prisão.

Uma movimentação tão enorme de recursos para encontrar supostos terroristas inevitavelmente exige resultados. Planos precisam ser descobertos, células terroristas precisam ser infiltradas. Ataques precisam ser prevenidos - ou, ao menos, parecerem ter sido evitados. E, para encontrar ameaças que mereçam ser neutralizadas, as forças-tarefa vêm usando informantes pagos a fim de persuadir e manipular alvos como Shareef a prosseguir com seus planos desmiolados. Na declaração feita por um agente do FBI no indiciamento de Shareef, o co-conspirador que era chamado de Jameel era citado apenas como "FC" (Fonte Cooperativa). FC era, na verdade, William Chrisman, um ex-traficante de crack com uma condenação por tentativa de assalto, que recebeu $ 8.500 e foi enviado especificamente com o objetivo de armar para cima de Shareef. Como outros informantes em casos de terrorismo, Chrisman foi designado por agentes federais para apoiar e incentivar as fantasias de Shareef - enquanto ao mesmo tempo garantia que o jovem se incriminasse. "A esperança é prender um verdadeiro terrorista ou prevenir que um pretendente se torne um", explica David Cole, professor de direito na Universidade Georgetown e co-autor de Less Safe, Less Free (Menos Seguro, Menos Livre), um novo livro detalhando como o 11/9 transformou as forças domésticas da lei. "No geral faz sentido. Mas quando você pressiona pessoas para que elas ajam de um modo que jamais agiriam se não houvesse um informante as conduzindo nesse sentido, é preciso se perguntar se não se trata de criar o crime em vez de preveni-lo."

Em Rockford, "Jameel" seguidamente encorajava Shareef a pensar nos detalhes mais sangüinários do caos que pretendia causar no shopping. Chrisman disse a Shareef que havia recebido um telefonema de um homem que ele chamava de "Cap" - um contato disposto a vender armas aos dois. Eles poderiam comprar "abacaxis" - o codinome para granadas de mão - do tal fornecedor por 50 dólares cada uma. Cap, logicamente, era um agente disfarçado. De acordo com Chrisman, Cap tinha 11 abacaxis disponíveis. Andando pelo shopping, Shareef sugeriu que os abacaxis fossem jogados nas latas de lixo para criar estilhaços. Eles jejuariam por três dias antes da operação. Se depilariam, meditariam e rezariam. "Não esquece que a gente tem que pegar as granadas na semana que vem", disse Chrisman.

"Por isso, vê se consegue pegar o máximo de grana que você puder."

"Tenho uns trocados no banco", revelou Shareef.

"Tudo o que você precisa é de mais ou menos $ 100. Isso dá para duas granadas."

Mas Shareef não tinha como levantar sequer essa quantia. Por isso, com a FTA determinada a fazer com que o "plano" andasse, Chrisman contou que Cap havia concordado em trocar as granadas por alguns alto-falantes usados que o possível terrorista tinha. No sábado seguinte, enquanto a neve caía sobre Rockford, Chrisman e Shareef iniciaram o ritual dos homens-bomba, gravando depoimentos em vídeo relatando seus testamentos. O relatório da FTA não revela de quem foi a idéia de olhar para a câmera e jurar vingança contra os Estados Unidos, mas o impacto prejudicial de tal ato perante um júri seria enorme. "Meu nome é Talib Abu Salam Ibn Shareef", disse o jovem usando o nome de guerra que ele mesmo criou. "Sou norte-americano e esta gravação é para que vocês saibam, para aqueles que não crêem em Alá saibam e para que todos os muçulmanos saibam que a hora da jihad é agora."

Na quarta-feira seguinte, os dois homens se encontraram com Cap em um estacionamento, sob os olhares dos agentes da FTA. Shareef trocava seus alto-falantes usados por quatro granadas desativadas e uma pistola 9 mm com munição falsa quando foi cercado pelos oficiais. Notícias da prisão correram o mundo. "Tinha todos os requintes de um feriado sangrento", relatou a Fox News sem fôlego. Shareef foi acusado do crime máximo na chamada Guerra Contra o Terror: tentativa de uso de armas de destruição em massa.

A prisão de Shareef foi mais um sucesso da FTA, salvando a pátria de um ataque selvagem, desta vez planejado por um homem que o governo taxou como "lobo solitário". Ou foi apenas uma ilusão, um enredo ficcional desenvolvido para sustentar o círculo vicioso da caça aos inimigos imaginários.

Pois as forças da lei, o medo e a própria política do medo se juntaram para criar um novo e radical paradigma. Mesmo o termo "força da lei" se tornou antiquado na administração Bush. Hoje em dia, o termo da moda é "lawfare" - a junção do trabalho policial com as táticas militares. Com as FTAs estabelecidas por todo o país para coordenar as ações das agências federais e da polícia local, o FBI atualmente aplica quase 2/3 dos seus recursos - algo em torno de 4 bilhões de dólares - na guerra contra o terrorismo. A abordagem atual não é mais a da tradicional investigação policial do crime já ocorrido, e sim a arriscada tentativa de prevenir os ataques antes mesmo que eles ocorram.

Se depender do que diz o governo federal norte-americano, as FTAs podem ser consideradas um sucesso estrondoso. São creditadas às forças-tarefa, operações bem-sucedidas de descoberta e desmantelamento de células terroristas domésticas no Oregon, Seattle, Detroit, Miami, Buf-falo e Nova Jersey. No total, os federais acusaram 619 pessoas de "atividade terrorista" desde o 11/9 - um recorde que, insiste o FBI, tornou os Estados Unidos um país mais seguro. Só em 2005, foram feitas mais de 10 milhões de pesquisas através do Depósito de Informação Investigativa, uma central de documentos relacionados ao terrorismo mantida pelas FTAs. Números tão elevados passam, de fato, a idéia de que a nação está cercada - e que o governo norte-americano acompanha a ameaça de perto. "Estes extremistas se alistam, treinam e executam seus planos de maneira independente", declarou o diretor do FBI, Robert Mueller, em 2006. "Estes terroristas domésticos podem ser tão perigosos quanto grupos como a Al Qaeda. Se não mais."

Mas examinando de perto os casos descobertos pelas FTAs, descobre-se que a maior parte tinha uma coisa em comum: os acusados representavam pouca ou nenhuma ameaça real. De acordo com um estudo realizado pelo Centro de Direito e Segurança na Escola de Direito da Universidade de Nova York, somente 10% dos 619 casos de "terrorismo" citados pelo governo resultaram em condenações com penas relacionadas ao terrorismo - uma categoria tão ampla que já se tornou indistinguível. No último ano, nenhuma das condenações envolveu terroristas da jihad com planos de atacar os Estados Unidos. "O governo divulga números escolhidos a dedo", afirma Karen Greenberg, diretora do Centro. "Eles nunca definiram a palavra 'terrorismo'. Eles usam as estatísticas para nos manter no escuro."

De fato, Shareef faz parte de apenas um de muito casos em que as FTAs usaram de meios dúbios para alcançar fins ainda mais duvidosos. Em Buffalo, o FBI passou 18 meses rastreando o grupo conhecido como "Lackawanna Six" (O Sexteto Lackawanna) - meia dúzia de homens da maior comunidade muçulmana da cidade que haviam sido recrutados por um operativo da Al-Qaeda no início de 2001 para treinamento no Afeganistão. Somente dois resistiram ao treino de seis semanas; os outros fingiram sentir alguma coisa ou abandonaram a missão prematuramente. Apesar de toda a vigilância, o FBI não encontrou nenhuma evidência de que os homens tivessem alguma vez discutido, quanto mais planejado, um atentado - o que não impediu os agentes federais de prenderem os suspeitos com alarde, acusando-os de operar uma "célula de terroristas treinados pela Al-Qaeda" em solo norte-americano. Os seis se confessaram culpados por auxiliar a Al-Qaeda e foram condenados a sete anos de prisão.

No Brooklyn, em Nova York, o guianense e ex-operador de carga Russell DeFreitas foi preso por planejar explodir os tanques de combustível do Aeroporto Internacional JFK. Na verdade, antes de seu encontro com a FTA, ele era vendedor de incenso nas ruas do Queens e nas horas vagas procurava moedas esquecidas nas cabines telefônicas. Russell não tinha como colocar em prática um plano da magnitude do suposto ataque ao JFK . Pelo menos até receber a ajuda de um informante federal conhecido somente como "Fonte", um traficante condenado que estava colaborando com os federais para reduzir sua própria pena. Com a assistência da FTA, DeFreitas repentinamente conseguiu meios para viajar até o Caribe, pesquisar o JFK através do Google Earth e elaborar uma complexa e multifacetada conspiração terrorista internacional - embora fosse o tipo de plano incapaz de ser posto em prática. Depois da prisão de DeFreitas, a procuradora federal Roslynn Mauskopf disse que o plano era "um dos mais assustadores já concebidos".

Usar informantes para conduzir conspirações terroristas denota um abandono radical do modo tradicional com que o FBI costumava utilizar forças cooperativas contra o crime organizado ou traficantes, onde um padrão de crimes era bem estabelecido antes que a investigação se iniciasse. Hoje em dia, na nova era do terrorismo, as forças-tarefa só querem provar que os suspeitos têm uma predisposição ao terrorismo - mesmo que sejam completamente incapazes ou desprovidos de recursos para seguir essa predisposição. Evidências tecnologicamente avançadas de áudio e vídeo unidas à histeria anti-terror tornaram praticamente impossível para um suspeito alegar coação como defesa legal. O resultado na maioria dos casos é a confissão - e não o exame minucioso da conduta do governo.

Muitas vezes, por não haver sequer julgamento, poucos detalhes emergem além das poucas e parciais descrições contidas nos autos. Quando os fatos surgem durante um julgamento, é jogada uma aura de dúvida sobre a seriedade do caso. O "Caso da Pizzaria de Albany" serve como exemplo irrefutável. A investigação começou em junho de 2003, quando soldados americanos tomaram um "acampamento inimigo" no Iraque e encontraram um notebook contendo um nome de um árabe em Albany. Seu nome era Yassin Aref.

Para capturar Aref, a FTA enviou um imigrante paquistanês chamado Shahed "Malik" Hussain, que cumpria pena de alguns anos por golpes envolvendo carteiras de habilitação. Em vez de abordar Aref diretamente, os agentes federais orientaram Malik a fazer amizade com Mohammed Hossain, um imigrante de Bangladesh que freqüentava a mesma Mesquita que o suspeito. Hossain, cidadão norte-americano dono de uma pizzaria chamada Little Italy, em Albany, não tinha nenhuma conexão com terrorismo ou qualquer forma de islamismo radical. Após os ataques do 11/9, foi citado em um jornal local dizendo: "Tenho orgulho de ser norte-americano". Mas, provocado por Malik, Hossain logo se viu envolvido em um plano terrorista armado pelo governo. Fingindo-se de traficante de armas, Malik disse a Hossain que precisava de um míssil para um ataque a um diplomata paquistanês em Nova York. Ele ofereceu $ 5.000 em dinheiro para que ele o ajudasse a lavar $ 50.000 - acordo que Hossain jura jamais ter aceito. De acordo com a tradição muçulmana, é preciso haver uma testemunha em transações financeiras significativas. Assim, a FTA chegou ao verdadeiro alvo do esquema: Aref.

No julgamento, o juiz deixou de lado questões relacionadas ao porquê de o governo estar atrás de Aref. "O FBI tem certas suspeitas. Suspeitas boas e válidas que justificam a procura pelo sr. Aref", disse ele ao júri. "Mas o porquê disso não deve ser levado em consideração por vocês." Pelo papel desempenhado em uma conspiração totalmente construída pelo FBI, Aref e Hossain foram condenados por tentativa de suprir material a terroristas e sentenciados a 15 anos de prisão em penitenciária federal. "Sou apenas um pizzaiolo", soltou Hossain confuso, ao ser sentenciado. "Faço uma boa pizza."

Apesar da proliferação repentina e ampla das FTAs, pouco foi relatado sobre o que acontece na frente doméstica da Guerra Contra o Terror. O edifício do FBI que abriga a FTA do Distrito Norte de Illinois foi transferido do centro da cidade para uma construção mais espaçosa e com ares de forte, no lado industrial oeste de Chicago. A torre de vidro tem uma cerca de metal alta em volta e linhas e mais linhas de seguranças dentro e fora, o que aumenta a sensação de cerco. Quando o agente especial Robert Holley, que supervisiona o Esquadrão Contra-Terrorista 1 da FTA se oferece para me escoltar até seu escritório no 8º andar, somos parados por seu superior mesmo antes de chegar ao corredor. O andar inteiro é considerado área de segurança - há documentos secretos nas escrivaninhas - e, como tal, é considerado área proibida para estranhos. Holley, um tipo ex-militar, suspira, mas concorda. Não é difícil achar outra área para a reunião. Existem acres de escritórios e cubículos vazios no edifício. Muito mais do que o necessário, se consideradas as necessidades atuais, mas ideal para abrigar uma expansão caso haja um novo ataque terrorista.

Esquadrões Contra-Terroristas (CTs) como o que Holley supervisiona são designados para monitorar distantes "Áreas de Responsabilidade" - África, Iêmen, Arábia Saudita, Iraque. Os seis esquadrões de CTs em Chicago são divididos em duas categorias: cinco grupos "prioritários" como o de Holley, que coletam informações e conduzem investigações de indivíduos específicos a longo prazo; e outro esquadrão, que fica encarregado de seguir pistas e determinar o "perfil de ameaça" dos suspeitos para determinar se vale a pena uma investigação. O grupo de Holley tem no momento cerca de 75 investigações - ele se nega a dar o número exato - em praticamente todos os países sob sua supervisão. "Você não vê a maioria dos nossos sucessos", argumenta. "Não medimos nossa vitória pelo número de processos."

Quando pergunto em que tipo de casos seu esquadrão de CTs tem se empenhado, Holley cita o exemplo de um motorista de táxi local que andou sob os olhares das FTAs há algum tempo - ele não diz como ou por quê. O homem era da parte leste da África, situa Holley, suspeito de ser um islâmico extremista "ligado a malfeitores do outro continente". Depois de ser entrevistado pela FTA, o motorista decidiu deixar o país. Nenhum crime ocorreu e nenhuma acusação foi feita. O suspeito chamou a atenção daFTA e isso por si só foi suficiente para encerrar a questão. "Podemos considerar a ação um sucesso mesmo considerando que ele não foi preso?", pergunta Holley. "Absolutamente. O cara não está mais aqui. Ele não é mais ameaça a ninguém nos Estados Unidos."

Na manhã seguinte me encontro com três membros do Grupo de Inteligência de Campo (GIC). Os GICs analisam informações do mundo todo, bem como as fornecidas pela Operação Escudo Virtual, a iniciativa de vigilância criada para tornar Chicago uma das cidades mais vigiadas do mundo. Milhares de câmeras instaladas nas esquinas, plataformas de trem e ônibus fornecem um mapa visual do movimento público na cidade.O trio do GIC se esquiva da maioria das questões que faço sobre as fundações da segurança nacional. Mike Delejewski, um analista de informações de fala mansa, diz que cada chamada feita para a FTA é encaminhada para o GIC, que segue cada pista, não importa o quão improvável.

Delejewski cita uma chamada envolvendo a Torre da Sears e três homens de aparência suspeita vistos nas redondezas. No fim das contas descobriu-se que se tratava apenas de turistas mexicanos. "Recebemos muitas dessas chamadas", avisa Delejewski, rindo.

Muitos dos que ligam para a FTA sabem que estão dando pistas falsas, somente com a intenção de se vingar de namorados, vizinhos ou companheiros de trabalho. Esse tipo de trote é tão comum que o setor de relações públicas das FTAs mantém um arquivo separado com todas as notícias a respeito de bombas falsas publicadas pela imprensa. Nenhum dos três analistas do GIC sabe qualquer idioma árabe ou tem maiores experiências com os países que supostamente são responsáveis por monitorar. Eles costumam ler jornais e relatórios de inteligência para se manterem informados. Depois disso, enviam boletins para os departamentos de polícia citando as ameaças encontradas.

"Qual a maior ameaça?", pergunto. Há uma longa pausa. "Acho que seria muito perigoso se começássemos a identificar esse tipo de coisa", diz uma analista chamada Julie Irvine. "O inimigo está nos ouvindo", acrescenta o agente especial assistente Gregory Fowler. "Coloco isso na cabeça do meu pessoal todos os dias. Agentes inimigos e terroristas estão escutando. O FBI está preparado para a guerra."

Quando demonstro ceticismo diante dos casos apontados pela FTA e a corrida inútil que parece ocupar seu tempo, Fowler diz que as pessoas não entendem a quantidade de ameaças a que a nação está exposta. Existem duas razões, ele insiste, para que os casos concluídos pela FTA não sejam encarados com a seriedade necessária. Primeiro, os advogados de defesa manipulam o público para criar a impressão de que o acusado é um pobre infeliz - mas, uma vez que poucos deles chegam a ser julgados, essa explicação se torna no mínimo improvável. Segundo, diz Fowler, o próprio FBI minimiza as ameaças para não causar pânico. Como exemplo, ele cita Richard Reid - o homem que montou uma bomba com explosivos plásticos no próprio sapato - réu confesso por terrorismo. Reid, insiste Fowler, representava um perigo muito maior para os Estados Unidos do que o que foi percebido pelas pessoas em geral - uma afirmação que tem que ser considerada levando apenas a palavra da FTA como garantia.

"O público nunca vai ver a evidência que nós temos", diz Fowler. "Não queremos mostrar o que temos nem revelar nossas fontes. Não se pode julgar a natureza da ameaça terrorista aos Estados Unidos com base apenas nos documentos públicos." "Mas com tantas restrições", pergunto, "como um cidadão se informa a respeito?" "Eu tenho acesso à informação", continua Fowler. "E tenho muita fé no julgamento do cidadão comum. Muitos deles entendem a natureza da ameaça."

Para ter uma idéia de como a Guerra Contra o Terror vem sendo encarada pelos policiais nas ruas, me encontrei com dois oficiais locais filiados à FTA. O Sargento Paul DeRosa, do Departamento de Polícia de Chicago e o Mestre Sargento Carl Gutierrez, da Polícia do Estado de Illinois, atuam como oficiais de ligação entre as respectivas forças. Ambos estão em serviço 24 horas por dia, sete dias por semana e todos os 365 dias do ano. Os dois são chamados com freqüência às 3 da manhã para investigar prováveis atividades terroristas em Chicago.

"Este final de semana, recebi duas chamadas", diz Gutierrez. Quando pergunto o motivo das ligações, Gutierrez diz que em todas envolviam "incidentes suspeitos" que "poderiam possivelmente ter um contexto terrorista". Um exemplo: algumas pessoas dentro de um trem vêem alguém suspeito tirando fotos e chamam a polícia. "Você tem que entender que levamos esses telefonemas muito a sério", explica. "Se não encararmos deste modo, algo acontecer e vidas forem perdidas, de quem é a culpa?"

Para ilustrar os tipos de caso que a FTA gera, o Sgt. DeRosa cita um incidente ocorrido três anos antes. Dois homens do Oriente Médio entraram em um ônibus na estrada Lake Shore. Eles tinham barba, estavam vestidos em trajes árabes tradicionais e estavam sentados um ao lado do outro. Enquanto o veículo rodava, um deles clicava uma espécie de contador - do tipo que se usa em clubes noturnos para controlar o número de pessoas que entram no local. Um passageiro ligou para a polícia. "Um relatório foi feito e nosso esquadrão CT foi notificado", diz DeRosa. "Nós pegamos a filmagem do ônibus. Assistimos. Vimos o homem clicando e nos perguntamos: 'Eles estão contando o número de passageiros? Ou clicam conforme passam por certos edifícios? Estariam contando a quantidade de carros?' Acionamos um alerta. Encontramos o ponto onde eles subiram e fizemos uma tocaia com sete ou oito carros. No terceiro dia vimos o cara e falamos com ele." Ninguém foi preso. Não houve acusação. Mas DeRosa diz orgulhoso que a FTA teve sucesso em encontrar o "Homem do Contador".

"O que ele estava contando?"

"Eles tinha que rezar 50 mil vezes", responde DeRosa. "De início achávamos que era conversa. Desde então, temos tido alguns incidentes como esse. Estes caras são terroristas? Provavelmente não. Mas em três dias eles foram identificados e interrogados pelas forças da FTA - polícia do estado, da cidade, FBI e Serviço Secreto. Isso não serve de mensagem para a comunidade deles?"

Chicago tem uma das maiores populações muçulmanas do país - cerca de 400 mil, de acordo com as estimativas de DeRosa. "Os experts afirmam que entre 5 e 10% dos muçulmanos são extremistas. Se você considerar 1%, Quanto é 1% de 400 mil? 40 mil? Tecnicamente, poderiam haver 40 mil extremistas."

"Você quer dizer 4 mil", interrompo.

DeRosa faz uma pausa. "Certo, 4 mil." E continua. "A maior parte das pessoas que vêm do Oriente Médio para os Estados Unidos tem uma boa razão. Mas ainda assim existe uma porcentagem que está aqui e não gosta de nós."

Os dois oficiais (Gutierrez e DeRosa) me contam sobre um caso acontecido na Taste of Chicago, uma feira de alimentos, no ano passado. Em todo evento público de grande porte, a FTA ajudou a planejar a segurança. Como parte disso, o Joint Hazardous Assessment Team (JHAT) - grupo especializado em medir o nível de ameaça de ataques através de substâncias químicas, biológicas ou radiológicas - espalhou aparelhos e detectores por toda a área. De repente, um dos dispositivos disparou: houve indicação de substância radiológica perto de uma fileira de banheiros químicos. Por uma hora, a JHAT tentou freneticamente determinar se a cidade de Chicago havia sido vítima de uma "bomba suja" - uma arma que espalha material radioativo misturado com explosivos convencionais - e finalmente a causa do alerta foi encontrada. "Algum paciente de quimioterapia tinha defecado no banheiro", conta DeRosa.

Há um ceticismo considerável nos departamentos de polícia do norte de Illinois no que diz respeito à natureza e extensão da ameaça representada pelo terrorismo. Há 415 agências no distrito, muitas das quais ainda não se convenceram de que o perigo é tão terrível quanto prega a FTA. Muitos deles se recusam a deslocar um ou dois oficiais para um treinamento básico sobre terrorismo com a duração de quatro horas. Em vez de considerar que os policiais de rua podem ter uma melhor perspectiva de suas comunidades, a FTA abordou o problema formando o Comitê de Relacionamento Polícia-Terrorismo (CRPT). O objetivo é fazer propaganda do perigo terrorista para os policiais. "É uma questão de estratégia de marketing", afirma Mark Lundgren, agente especial que supervisiona a CRPT. "Esses atos estão ligados a terroristas caseiros independentes. E os métodos que normalmente usaríamos para detectar terroristas não funcionam, porque essas pessoas estão fora dos padrões. Nove de cada dez casos de terrorismo na próxima década serão evitados por policiais." Lundgren, que lembra um jovem (ator) Gary Busey, quase brilha de convicção pelo valor de seu trabalho.

"O que você tenta vender aos departamentos de polícia?", pergunto.

"Percepção. Motivação", explica. "Não é fácil. Você vai até um chefe de polícia em algum distrito com alto índice de criminalidade e a primeira coisa que ele te diz é: 'Tem caras aqui nesta área matando gente. As pessoas de quem você fala - e elas são reais, entendo isso - não mataram ninguém por aqui recentemente'."

"Ou sequer mataram alguma vez", digo.

"Exatamente."

Quando Derrick Shareef foi detido pela FTA, o chefe de polícia de Rockford reclamou que quase nada foi dito ao seu pessoal a respeito da investigação. A cidade tem um dos maiores índices de assassinato do estado, bem como tráfico intenso de drogas e problemas de delinqüência juvenil. Dominic Iasparro é um investigador que trabalha no caso de um viciado encontrado morto na periferia da cidade. Ele me conta que não tem nenhuma pista efetiva. Existe um pequeno posto do FBI em Rockford, com cerca de dez agentes, mas eles não prestam assistência em casos de homicídio. A polícia local tem pouca interação com a FTA e Iasparro não vê o terrorismo como a principal prioridade da região. "Não somos um alvo grande o suficiente", admite. Veterano, ele acompanha as ações da FTA através de boletins e updates online. O investigador não tem dúvida das boas intenções dos agentes envolvidos na força-tarefa. Mas também entende que a pressão do governo federal norte-americano para que evitem um novo ataque é enorme. Para um policial local como Iasparro, a quantidade de recursos que o governo desloca para tal tarefa é inacreditável.

"Você acha que a FTA vem perseguindo inimigos imaginários?"

Ele balança a cabeça, espantado. "Nunca vi nada parecido em toda a minha carreira."

A atitude dos policiais frustra os membros do CRPA. Eles querem treinar os oficiais para que fiquem atentos a qualquer tipo de "comportamento terrorista suspeito", mas sem revelar como é esse tipo de comportamento. "Estamos ensinando a polícia a abordar um suspeito em lugar público", ensina Lundgren. "Como interrogá-lo. Como identificar sua linguagem corporal, o modo como responde às perguntas, para determinar se ele é ou não uma ameaça. Tudo de modo com que a pessoa não se sinta maltratada. Há detratores por aí que afirmam que nossos casos não têm mérito. É uma questão filosófica muito fácil de ser posta em pauta. Até que você se torne uma vítima."

"Sem querer ser muito filosófico, lembre-se da solução do 1% de Dick Cheney", continua Lundgren. "Se há 1% de chance de que um dispositivo capaz de matar milhares, centenas de milhares de pessoas seja construído, então é nossa responsabilidade agir como se a chance fosse de 100%. Isso é algo que se perde da visão do público quando ele vê o trabalho de inteligência. Ele se preocupa com seus direitos civis e a Constituição por causa do jeito como a coisa é mostrada pela mídia."

No fim de novembro do ano passado, Derrick Sharref se declarou culpado de tentativa de uso de arma de destruição em massa. Por causa da evidência em vídeo contra ele, Shareef não pode alegar coação como defesa legal. Mas no tribunal, disse que foi "coagido a fazer coisas". Em Rockford, pouco depois da declaração de culpa, já havia uma placa de vende-se na pequena casa onde ele tinha morado. O local estava vazio, os móveis haviam sido retirados. Membros da FTA me disseram que gostariam de poder revelar o resto da história, para provar que Shareef era mesmo um malfeitor. De acordo com o inquérito de um outro suposto terrorista acusado, Hassan Abu-Jihaad, Shareef estava envolvido em uma conspiração maior, que tinha como objetivo um ataque à base militar de San Diego. Entretanto, nos procedimentos pré-julgamento, descobriu-se que Abu-Jihaad havia sido entregue justamente por William "Jameel" Chrisman, o mesmo informante que armou para Shareef. Abu-Jihaad não só se recusou a participar do suposto plano como também pôde ser ouvido na filmagem de uma câmera de segurança taxando Shareef de idiota e mentiroso. "Não sou terrorista da jihad", contou Abi-Jihaad a Jameel.

Enquanto não há dúvidas de que existem ameaças reais, o que a administração Bush promove como um padrão de atividades terroristas em escala nacional é, em grande parte, o resultado de suas próprias políticas na era do "lawfare". Em maio último, o FBI prendeu o "Fort Dix Six" (O Sexteto do Forte Dix), acusando seus integrantes de planejar um ataque à base militar de Nova Jersey. A suposta célula terrorista foi descoberta quando um atendente da loja Circuit City recebeu uma solicitação de transferir para DVD um vídeo do grupo supostamente recebendo treinamento terrorista nas Montanhas Pocono (na Pensilvânia) e gritando "Allahu Akbar! (Deus é grande). Como em outros casos, o FBI mostrou-se como o verdadeiro arquiteto de todo o plano. Os suspeitos - incluindo três pedreiros, um taxista e um ex-entregador da Super Mario's Piz-za - tinham pouco dinheiro e nenhum contato com extremistas verdadeiros. Todos estavam na faixa dos 20 anos e passavam os finais de semana jogando paintball. Conduzidos por dois informantes da FTA, eles planejaram um ataque ao Forte Dix usando lança-foguetes e AK-47s - sendo que nenhuma dessas armas existia.

Há sinais, entretanto, de que tanto juízes quanto jurados estão se cansando dessas ameaças fabricadas. Em dezembro último, o processo do "Liberty City Seven" (Os Sete de Liberty City) terminou em absolvição para um dos integrantes e suspensão do julgamento dos outros. A suposta célula foi acusada de preparar um "ataque total" contra os Estados Unidos. No julgamento veio à tona o fato de que os envolvidos não tinha habilidades operacionais e que o plano foi imaginado sob persuasão de dois informantes pagos pelo FBI enquanto todos fumavam maconha. Além disso, havia sido a FTA quem havia suprido o grupo de câmera, botas militares e um galpão. Apesar das gravações de vídeo dos Sete, incluindo uma em que todos juram lealdade a Osama Bin Laden, o júri se recusou a condená-los. "Isso tudo foi escrito, produzido, coreo-grafado e ensaiado pelo governo dos Estados Unidos", disse Albert Levin, advogado de um dos acusados, durante suas considerações finais. Irredutível, o governo federal levará os seis acusados restantes de volta à corte.