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Uma Família Real

Os cinco irmãos homens do presidente venezuelano Hugo Chávez, seu pai e sua mãe dividem o poder em Barinas, um estado perto da fronteira com a Colômbia. Entender Barinas é, talvez, a melhor forma de descobrir o verdadeiro Chávez

Jorge Fontevecchia Publicado em 09/04/2008, às 16h15 - Atualizado em 15/05/2008, às 17h31

MÃE, PAI E FILHO: Dona Elena, candidata, Hugo de Los Reyes Chávez, governador, e Hugo Chávez, presidente: a política faz parte da história da família do líder venezuelano
Alejandra Vega

O homem não parece ser uma má pessoa, até seus adversários reconhecem que ele fica genuinamente indignado com a injustiça social. Mas parece louco. Por via das dúvidas, Hugo Chávez ordenou ao Ministério da Saúde da Venezuela que proibisse médicos e comunicadores de comentarem o estado mental dele, segundo revelou, no dia 13 de fevereiro, a jornalista María Angélica Correa, ganhadora da menção especial do último prêmio Rei da Espanha. Não é para menos, o doutor Edmundo Chirinos, ex-reitor da Universidade Central da Venezuela, que o atendeu quando em 1992 esteve preso durante dois anos por causa do frustrado golpe de Estado e depois o assessorou durante seu segundo divórcio, foi enfático no diagnóstico do presidente: "Precisa ser idolatrado, é narcisista". O perfil psicológico de Chávez mostra que ele "é impulsivo e temperamental; hipersensível às críticas, prefere se rodear de pessoas obedientes; muito desorganizado no âmbito administrativo, costuma ser impontual. Canta, recita poemas, domina a ironia, gosta muito de beisebol e é mulherengo. Quer ser respeitado e temido ao mesmo tempo, possui grande astúcia, mas pode chegar à temeridade. De pensamento errático, imprevisível em seus atos; trata pessimamente seus subordinados para demonstrar poder frente a eles e aos outros e, apesar disso, reconhece os próprios erros, para depois voltar a cometê-los. No confronto com os Estados Unidos existe algo de egolatria: desafiar Bush, por exemplo, é também uma maneira de colocar-se no mesmo nível do norte-americano. É demagogo e autoritário". Como se fosse um delivery de pizza, fez um pedido pela TV no último dia 3 de março: "Senhor ministro da Defesa, envie dez batalhões para a fronteira com a Colômbia". E, no dia seguinte, declarou: "O confronto com os Estados Unidos é inevitável".

Sobre Chávez, escreveu Gabriel García Márquez: "De repente, compreendi que estive conversando com duas pessoas muito diferentes no mesmo homem. Uma a quem o destino deu a possibilidade de salvar seu país; e a outra, que é capaz de entrar para a história como um déspota".

Quem é verdadeiramente Hugo Chávez Frías? Para construir uma das muitas possíveis respostas, viajei ao seu passado, para a cidade de Barinas, capital do estado homônimo, sua província natal, lugar onde freqüentou os colégios primário e secundário, onde, já egressado do Colégio Militar, se tornou oficial, onde se casou com sua primeira namorada, Nancy Comentares, "mulher de condição humilde e sua vizinha", com quem teve os primeiros três de seus quatro filhos, e o lugar onde ainda mora grande parte de sua família.

De Caracas a Barinas são 600 quilômetros em estradas que combinam os engarrafamentos monumentais da saída da Capital com caminhos de montanha sem sinalização e uma recém-inaugurada autopista na parte final, já dentro do território de Barinas, que, como indica a placa de boas-vindas, é "o berço da revolução" (e "da maldição" para outros); um estado grande como a Suíça e com mais de 1 milhão de habitantes. E vamos, primeiramente, ao clã Chávez ou, como é conhecido em Barinas, "a família real".

Hugo de Los Reyes Chávez. O pai do presidente e desde 1998, o mesmo ano em que seu filho foi eleito presidente, ele é o governador de Barinas. Considerado um homem nobre e de bons sentimentos, gosta muito de crianças e de seu cachorro Cokie, um poodle cinza que o acompanha por todas as partes. É bastante religioso. "De Los Reyes" não é um sobrenome, mas um segundo nome, "porque nasci no dia 6 de janeiro", conta [quando se comemora o Dia dos Reis Magos nos países de tradição espanhola]. Em seu escritório tem muitas imagens de santos, a Virgem de Coromoto, várias fotos de seu filho presidente e um boneco de meio metro que representa o presidente venezuelano. Às vezes, mostra para alguns visitantes, que se espantam com o boneco que fala.

Na hora de cumprir a agenda do dia, quase sempre está acompanhado por Lisbeth Paredes, secretária-executiva de recursos humanos, a mulher em quem mais confia, inclusive mais que em sua esposa. Lisbeth sente um especial afeto por ele e sempre está atenta, já que o governador, há oito anos, teve um problema cerebral e se curou em Cuba; desde então, vive acompanhado de dois bons enfermeiros que lhe apreciam e admiram - Elio e Miguel -, mais seu médico de cabeceira, que é cubano. Sua comida preferida é a cachama, um peixe muito popular em Barinas. É muito simples na forma de falar e de tratar as pessoas. Não anda com ostentações.

Dona Elena. É a mãe do presidente e esposa do governador. Uma senhora muito particular, praticamente a antítese do marido. Sempre anda muito bem penteada, com muitos anéis, pulseiras, batom, tudo um pouco carregado. Ao contrário do governador, não tem problemas em falar palavrões ou mostrar uma cara feia se não simpatiza com alguém. Gosta das maritacas tagarelas e tem várias em sua casa, a Residência do Governador. Ela as ensinou a gritar o tempo todo "Chávez! Chávez!". Também gosta das plantas. É presidenta da Fundação Infantil de Barinas.

Diz-se que tem um péssimo caráter e que domina seus filhos e netos. Seu filho predileto é Argenis, e o neto, Cléber, filho de Narciso, irmão do presidente. Quase nunca acompanha o governador, só em casos muito especiais. Gosta de fazer tratamentos de beleza. Dizem que já fez várias operações, coisa que é possível observar nas laterais do rosto. Também dizem que gosta muito de fofocar. Não gosta que Lisbeth Paredes seja tão próxima a seu esposo. E também não gostava da anterior secretária-geral de governo, a doutora Darvis Fernández. No dia em que ela entregou o cargo, dona Elena fez o sinal da cruz e agradeceu aos céus, e diante de todos os presentes, no Salão Tricolor da Casa de Governo.

Adán Chávez. O irmão mais velho do presidente e atual ministro da Educação. Viveu em Cuba por vários anos, com cargo diplomático. É um dos porta-vozes do PSUV, o partido oficialista, pelo estado de Barinas. Alguns rumores dizem que ele poderia ser o candidato proposto ao governo do estado. Os fatos provaram que Hugo Chávez confia muito nele e que é uma das maiores influências sobre o presidente.

Narciso "Nacho" Chávez. Irmão do presidente. Também viveu em Cuba por vários anos. Ao chegar à Venezuela, ficou a cargo do Convênio Cuba-Venezuela. Antes o enviaram a Ohio (Estados Unidos) e à embaixada no Canadá. Durante anos foi acusado de tráfico de influência. Em 2006 e 2007, seu nome foi muito cogitado para prefeito do município de Bolívar, vizinho a Barinas (capital). Convocou um referendo contra o atual prefeito dessa cidade, Iván Darío Maldonado. Setores da sociedade "bariniteña" não gostam dele. Fala-se que influenciou, inclusive, na destituição de um professor que se negou a convocar os alunos às concentrações proselitistas.

Aníbal Chávez. Irmão do presidente. Prefeito de Sabaneta, a cidade natal dos Chávez, a 50 quilômetros da capital de Barinas. É seu primeiro mandato na prefeitura; no final do ano ocorrerão eleições e, apesar de ainda não ter manifestado sua intenção de tentar a reeleição, é muito provável que concorra. É o que diz um cartaz que está na entrada dessa localidade. Ali se encontra o Centro Agroindustrial Açucareiro Ezequiel Zamora, o CAEEZ, um dos projetos centrais do governo para os chamados "cañicultores" (plantadores de cana-de-açúcar). Hoje, lamentavelmente, uma grande parte dessa semeadura foi perdida. Fala-se em esbanjamento e desvio de recursos na construção da obra.

No último dia 14 de fevereiro, ocorreu um saque no Centro de Provisões de Sabaneta. Dezenas de moradores chegaram ao local, quebraram as portas e saquearam toda a comida. Segundo explicam algumas pessoas, foi uma reclamação ante a falta de alimentos e por verem que muitos alimentos estavam sendo aproveitados pelos cubanos que trabalham no CAEEZ e nas missões (os opositores dizem que Chávez está construindo o país Cubazuela: há 30 mil assessores cubanos na Venezuela).

Adeliz Chávez. Irmão de Hugo Chávez. Presidente da Sofitasa-Barinas, entidade financeira em que se realizam os pagamentos dos funcionários públicos do governo do estado de Barinas e outras entidades governamentais. "Com todo o dinheiro malversado em dez anos de poder, perceberam que faltava um banqueiro na família", dizem em Barinas. Foi vice-presidente da Copa América 2007, o primeiro evento futebolístico que trouxe pessoas de diversas partes do país e de toda a América para Barinas, uma das subsedes. Sua gestão foi questionada em razão dos recursos que foram necessários para a construção do estádio.

Argenis Chávez. Irmão do presidente, o quarto cujo nome começa com a letra A. É secretário de estado do governo de Barinas. Muitos comentam que é o verdadeiro governador. Quando o "Professor" (todos chamam o governador, Hugo de Los Reyes Chávez, assim porque ele foi professor de escola) teve um problema de saúde, delegou o cargo ao filho. Argenis Chávez quer ser governador a todo custo e, desde 2005, vem fazendo campanha política. Chegou a aparecer mais do que seu pai. Dizem que tem o controle do partido oficialista em Barinas. Na grande maioria dos casos, é ele quem toma as decisões. Foi questionado pela grande quantidade de propriedades agrícolas que comprou nos últimos anos. Seu mais forte rival na eleição para governador é o prefeito da cidade de Barinas, Julio César Reyes, que luta - é o que se diz - contra a falta de recursos (que deveriam vir do governo do estado). Há um comentário que, inclusive, chegou a ser difundido nos meios de comunicação: o presidente teria destruído uma caminhonete Hummer, propriedade de seu irmão Argenis. Nessa oportunidade, o mandatário "perguntou" de quem era o veículo e onde tinha conseguido o dinheiro para comprá-la. A partir dali, há duas versões: dizem que pediu um taco de beisebol e começou a quebrá-la a golpes. Outra diz que passou por cima dela com um trator.

Existe um elenco melhor que este para uma versão cinematográfica de Cem Anos de Solidão, a obra-prima de Gabriel García Márquez? Mas ainda falta um protagonista, neste caso post mortem, Comodoro Py: o bisavô do presidente, "Maisanta", um famoso assassino cujo fantasma marcou três gerações com o selo de uma estirpe maldita, como a dos Buendía, fundadores de Macondo (a cidade do livro de García Márquez). Em 1895, com apenas 15 anos, Maisanta teria matado o coronel Pedro Macías, para preservar a honra da família, porque este havia engravidado sua irmã Petra Pérez Delgado. Sua mãe teria sido quem lhe induziu à vingança. Depois desse batismo de fogo, não parou mais e já adulto era conhecido como o terrível "general" Maisanta que assaltava quartéis e palácios governamentais com seus soldados... A morte era sua companheira de viagem. Segundo conta a família, o menino Hugo Chávez escutava essas histórias da boca de sua avó e sempre pedia mais.

Em Caracas há muitas fofocas políticas. Como as que indicam que sua paixão pela história teria levado Hugo Chávez a participar de sessões de espiritismo tentando comunicar-se com os heróis da independência e que, por causa de tanta aproximação com o Irã, até teria se convertido ao islamismo. Mas, em Barinas, tudo está à flor da pele, sem máscaras. Em Caracas, explica-se que a popularidade do presidente, que já chegou, em seus momentos de glória, a 65%, caiu para 20% antes do conflito com a Colômbia, e agora poderia ter chegado a 10%. Em um posto de caminhões na entrada de Barinas onde está o cartaz de "berço da revolução", há vários policiais. Paro o carro e pergunto: "Sou um jornalista argentino, posso estacionar por um momento e fotografar o cartaz?" Os policiais respondem: "Claro, compadre, e se quiser pode levá-lo para a Argentina". Mesmo sendo tão distintas, Barinas se parece com Santa Cruz, a província natal do casal Kirchner (um Maranhão dos Sarney?).

Em Caracas, os problemas de desabastecimento que geram o controle de preços são explicados dizendo que, em 1992, eram consumidos 106 litros de leite por habitante ao ano e em 2006, menos de 70. Em um posto telefônico de Barinas, me contaram que, para conseguir leite, é preciso ficar numa fila por quatro horas. E, para que as pessoas não comprem frango duas vezes, colocam uma marca no braço. No caminho de Barinas a Sabaneta, dei carona a uma mulher que voltava do hospital e ela me contou: "Não só te colocam uma marca no braço, tiveram de colocar uns soldados na porta dos chineses". "Que chineses?", perguntei. "Os dos supermercados."

Em Sabaneta, visitei a casa de Chávez, hoje transformada em uma mistura de museu e sede do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela). Em uma sala, sob um potente ar-condicionado, estava Lydys ("assim, com dois y"), uma exuberante mãe solteira - a família sem pai é muito comum - de Maracaibo que veio a Sabaneta porque conseguiu esse emprego, mas não sabe muito da história de Chávez. Ela me entrega um papel com a única informação que possui: a lista dos 15 candidatos à direção do PSUV para a eleição de domingo, encabeçada por Adam Chávez, o prefeito. A poucos metros do local, se encontra um "açougue bolivariano". Eu me surpreendo com o cartaz, tiro uma foto e entro no local. O açougueiro, Douglas Carrillo, me explica que vende com um desconto de 20%: a polpa da vaca custa 12 mil bolivares (R$ 10) o quilo, nos outros comércios custa 15 mil; e o frango a 7,5 mil e (R$ 6).

O estado de Barinas está na zona das planícies, porção agrícola da Venezuela. "Como pode ser que este país, que era exportador de carne, hoje precise importar quase toda a carne que consome?", pergunta o ex-deputado Antonio Bastidas, hoje pré-candidato opositor ao governo de Barinas e amigo de infância dos irmãos Chávez - porque viviam na mesma avenida Carabobo do bairro Rodríguez Domínguez, que ele me levou para conhecer. "Vê? Aqui jogávamos com as tampinhas... Usávamos as tampas dos refrigerantes como bola e uma madeira qualquer como rebatedor. Venha, aqui a dois quarteirões está o rio onde nadava com Hugo. Ele não é mais a mesma pessoa, quando jovem era tímido e não falava, estava sempre lendo. O poder fez mal a ele. Foi muito ingrato com Nancy, sua primeira namorada e mãe de seus três filhos mais velhos: quando ficou preso, ela ia todos os dias visitá-lo; depois, quando virou um político famoso, a abandonou. Agora comprou uma casa para ela em Caracas, mas para que ela fique perto dos filhos" (Chávez depois se casou com a jornalista Marisabel Rodríguez, mãe de sua última filha, Rosinés, de quem se separou em 2003: hoje não há primeira-dama na Venezuela). A diretora da escola Julián Pino confirma que o presidente era muito estudioso, exibe o registro de certificados de estudos de 1966: "Olhe, Hugo recebeu as melhores notas entre todos os alunos em espanhol e matemática".

Talvez uma explicação de por que a planície que conheceu vaqueiros no passado ("o mais parecido com o sul do Texas") e hoje não produz carne suficiente nem para o consumo regional está nesta história: no dia 14 de fevereiro de 2003, Rogelio Peña, ex-prefeito de Barinas, estava se preparando para comemorar o Dia dos Namorados com sua esposa quando descobriu, através de uma ligação telefônica, que sua propriedade Santa Rita, que dirigia desde 1966, tinha sido tomada militarmente pelo exército e quatro dezenas de camponeses. A tomada de Santa Rita foi liderada por Antonio Albarrán, o atual ministro da Agricultura e Terras, que, naquele momento, era diretor-geral do Instituto Nacional de Terras (INTI) em Barinas. Confiscos de terras e distribuição em miniparcelas comunitárias é parte do programa de reconversão agrária de Chávez (o sonho do MST brasileiro). Quando Adán Chávez assumiu a presidência do INTI, pôde anunciar que "foram ultrapassadas as metas de entregar 1 milhão de hectares este ano, foram entregues 2 milhões e 262 mil hectares". Só em Barinas foram doados 400 mil hectares, 9 mil concessões agrárias e 33 tratores. Escutei na Rádio Nacional a seguinte solução ao problema da escassez de alimentos: "Somos 3 milhões de venezuelanos, se cada um tivesse uma plantação de tomates, onde fosse, na sua varanda ou em sua terra, como cada plantinha produz cinco quilos de tomates por ano, teríamos 150 milhões de quilos de tomates, suficientes para alimentar toda a população".

Depois da trágica morte do segundo nome nas listas eleitorais do oficialismo em Barinas, Julio Rodríguez, teria havido uma disputa entre os irmãos para ver quem sucede o Professor como governador no fim do ano. O opositor Antonio Bastidas sustenta que "fala-se que Dona Elena seria a candidata de consenso para que não ocorram brigas". Dona Elena é pau para toda obra: seu cirurgião plástico, Bruno Pacilo, compareceu à Assembléia Nacional para se queixar de que tinha sido impedido de entrar em um clube social de elite em Caracas supostamente por suas conexões com a família Chávez.

Em Barinas, tudo é mais prosaico, até o sempre desopilante programa de rádio Alô Presidente (como o Café com o Presidente, de Lula) conseguiu ficar ainda mais hilário, quando foi transmitido a partir da terra natal do presidente: "Este é meu último programa dominical de Alô Presidente. Vou sair, resolvi adiantar o que estava previsto para 2021, este Alô Presidente é para me despedir de todos e de todas... Vim a Barinas porque hoje renuncio à presidência. José María Rangel (o vice-presidente) pode se encarregar da presidência, eu fico por aqui". E continuou, perante os olhares atônitos de seu gabinete, até que logo completou: "Bom, esse foi o 1º de Abril" [na Venezuela é o Dia das Piadas]. Nem tudo é brincadeira nesse programa: o presidente do Poder Legislativo de Barinas, Rafael Monsalve, precisou pedir desculpas publicamente depois de ter ficado "na geladeira" por haver dito que "não ia ao Alô Presidente porque considerava improdutivo ficar quatro horas em um programa sem a oportunidade de falar". Monsalve não havia entendido nada.

Em Camiri, também no estado de Barinas, está La Chavera, a estância familiar com 3 mil hectares, propriedade do Professor - antes de ser governador, era uma modesta chácara de 30 hectares - que não corre o risco de integrar-se à reforma agrária. O pensamento do Professor é eclético. Antes de seu filho se converter em político, foi diretor regional de Educação em Barinas e militava no partido conservador COPEI. Como governador, decretou a expropriação das instalações das Empresas Polar em Barinas, o maior grupo do setor manufatureiro de alimentos e bebidas do país. Também padeceu a fúria do povo: enquanto entregava ônibus escolares no município de Arismendi, um grupo de cidadãos que reclamava da falta de serviços - a energia é cortada regularmente - e de segurança "reteve" o governador e o exército precisou resgatá-lo.

Em uma das poucas entrevistas que o Professor concedeu em sua vida, disse: "Os sonhos são para os sonhadores, para os incansáveis". Provalmente o pequeno Hugo ouviu muito essa frase, por isso é chamado de presidente trabalhador compulsivo: literalmente incansável. O Professor é mais apegado a seus três filhos menores. Os dois mais velhos, o presidente e Adán, enquanto a família ainda vivia em Sabanetas, vieram estudar na cidade de Barinas e foram criados pela avó. Nacho, Adeliz e Argenis passaram toda a infância com os pais. O Professor e Dona Elena vieram morar em Barinas quando o presidente e Adán já estavam terminando o ensino médio.

A campanha política do Professor para governador foi construída com o lema: "Que pode pedir um pai que o filho recusaria?", em clara alusão ao fato de que se os bariniteños votassem no pai do Presidente, o estado teria ajuda nacional. Ao contrário, mas com o mesmo sentido, falou Adán sobre sua prefeitura de Sabaneta: "Que pode pedir um filho que o pai não daria?". Em seu caso, apoio do governo do estado para o município. Uma lógica selvagem, mas eficaz.

Um bom exemplo é o estádio Agustín Tovar de la Carolina, o da Copa América 2007 (vencida pelo Brasil em final, 3x0, em cima da Argentina) que ainda não foi terminado. Alguns o chamam de "o maior símbolo da corrupção" no Estado de Barinas. Foi prometido para a Copa, mas nunca ficou pronto. A princípio, pretendia-se realizar duas partidas, mas em vista da lentidão dos trabalhos, só uma pôde acontecer: Paraguai x Estados Unidos e às 4 da tarde porque a iluminação era uma das coisas que estava faltando.

Nos dias anteriores ao evento esportivo mais importante da história do país, o presidente chegou a Barinas e, ao ver a situação de inépcia, começou a gritar. Depois ficaram conhecidas as denúncias de superfaturamento na reforma do estádio onde aparecem envolvidos o Professor Hugo de Los Reyes Chávez, presidente honorário do Comitê de Trabalho Local da Copa América; Adelis Chávez, vice-presidente Executivo e o secretário de estado, Argenis Chávez.

Em Caracas, a denúncia foi apresentada perante a Promotoria Geral da República; em Barinas, havia sido denunciada anteriormente perante o promotor superior do Estado de Barinas por Omar Arévalo e Antonio Bastidas (em um passeio, Bastidas me mostrou o estádio enfatizando o que faltava). Graças a um decreto de "emergência esportiva", a obra foi entregue sem licitação à empresa Procica, cujos representantes legais são Franco Imperatori e Bruno Panato. Com um capital de 470 mil dólares, a Procica recebeu por concessão direta um contrato que o governo originalmente calculava em 19 milhões de dólares e depois de um ano de trabalho subiu para 61 milhões. O superfaturamento denunciado é de 40%. Para o cálculo, foi tomado como base o estádio Monumental de Maturín, o maior da Copa América 2007, construído em sua totalidade com capacidade para 52 mil espectadores a um custo de 70 milhões de dólares, pouco mais que os 61 milhões do La Carolina, que foi somente uma reforma e tem capacidade para 27 mil espectadores. Os assentos do Monumental de Maturín custaram 1.346 dólares cada um, os do La Carolina, 2.220. A oposição diz que "o superfaturamento equivale a 30 maletas como a que foi levada à Argentina [o Maletagate, um escândalo ainda não resolvido na Argentina e que envolve uma mala com 800 mil dólares apreendida, por ingressar ilegalmente, e que teria sido uma ajuda de Chávez para financiar a campanha política de Cristina Kirchner nas recentes eleições que ela venceu]".

"Os Chávez possuem dezenas de outras propriedades" - acusa Antonio Bastidas - e desde que eu os denunciei publicamente tomaram o cuidado de registrar suas novas aquisições usando laranjas. A maneira mais simples de detectar que são suas propriedades é ver que os acessos às terras são asfaltados e a eletricidade conectada rapidamente para valorizá-las."

Em fevereiro de 2001 já houve a denúncia de que o expediente com 800 folhas juntado pela Comissão de Controladoria contra o governador de Barinas havia desaparecido do comitê parlamentar. E em 2004 a Agência Antidroga dos Estados Unidos, o DEA, filtrou a lista de 128 nomes de venezuelanos com depósitos significativos em bancos norte-americanos. Entre eles, aparecia um membro da PDVSA com 79 milhões de dólares; José Rangel - conhecido na Argentina pelo Maletagate - vice-presidente de Chávez até a investigação judicial em Miami, com 26 milhões; um laranja que ligam diretamente ao presidente, Danilo Díaz Granados com 107 milhões; o presidente do Plano Bolívar 2000 com 98 milhões; e, entre outros, no posto 21 do ranking, Hugo de Los Reyes Chávez, pai do presidente, com 17 milhões de dólares.

O que na Argentina se denomina poder de caixa, na Venezuela possui uma expressão mais autóctone: "Nem paus, nem pedras, amendoim para pegá-los vivos". Algo que não se pode comprar com dinheiro é a segurança. Em janeiro último, em Barinas, ocorreram 48 assassinatos. Em fevereiro, aconteceu uma queda notável, mas já nos primeiros dias do mês de março, 13 vidas foram tiradas. Em nível nacional, a segurança é um problema que obrigou o presidente a declarar o ano como de luta contra o crime. Um dos novos partidos que obteve muitos votos se chama Primeiro Justiça. Fundado por um grupo de profissionais de todos os estratos sociais, embora para alguns eles representem os yuppies da sociedade, teve sua origem em um programa de televisão da extinta RCTV, a emissora que Chávez não renovou a licença no ano passado, chamado Justiça para Todos. Houve um programa com formato similar na Argentina e durou pouco tempo: os cidadãos levavam seus conflitos perante um tribunal televisivo e se comprometiam a acatar o veredicto dos juízes. O apresentador do programa venezuelano, o advogado Julio Borges, se converteu em uma figura muito popular e se apoiou nessa fama para lançar o partido.

Ouvir a rádio ou assistir à TV oficial é sufocante até mesmo para o bolivariano mais fiel. Mesmo nesses meios percebe-se o acelerado desgaste que vive o regime. Na rádio da cadeia do "poder popular de comunicação", ocorreu este diálogo entre os ouvintes e os apresentadores: "O problema é que a oligarquia nos faz competir com suas armas e aqui não houve, como em Cuba no começo da revolução, uma tomada da Bastilha, nem sequer uma tomada da pastilha: seguimos grávidos de capitalismo. Fazemos socialismo com um sistema capitalista". Segundo a biografia oficial, o livro de cabeceira de Chávez é Razão e Revolução, escrito pelos marxistas britânicos Alan Woods e Ted Grant.

No prólogo da última edição publicada em Cuba, os autores diziam: "Causou-nos uma grande satisfação saber que o presidente da República Bolivariana da Venezuela, Hugo Chávez Frías, em várias ocasiões tenha recomendado esse livro ao público; o sistema capitalista, que em seu momento conseguiu chegar a um tremendo avanço das forças produtivas, converteu-se em um gigantesco freio da indústria, da agricultura, da ciência e da tecnologia. Longe de fazer avançar a cultura e a civilização, está enterrando-as sistematicamente. Não só os resultados da ciência moderna confirmaram de forma brilhante as idéias de Friedrich Engels e Karl Marx, mas demonstram a absoluta necessidade do método dialético no terreno das ciências, que cada vez mais se chocam com as limitações da lógica formal. A superioridade do marxismo nunca foi mais evidente do que no momento atual. Essa afirmação pode ser demonstrada facilmente. Se tomarmos qualquer livro burguês, seja qual for, escrito há 150 anos, hoje em dia, esse livro não terá mais do que um mero interesse histórico. Entretanto, se lermos o Manifesto do Partido Comunista, escrito por Marx e Engels há mais de 150 anos, veremos imediatamente que esse é o livro mais contemporâneo que existe. Hoje em dia, em nível mundial, o sistema capitalista se encontra em bancarrota: econômica, política, moral e filosófica. O único problema é que a consciência das massas está atrasada em relação aos acontecimentos".

Outra perspectiva da realidade indica que, apesar de o barril de petróleo ter ultrapassado os 105 dólares, a renda petroleira per capita na Venezuela de Chávez, ou seja, o produto bruto per capita que só a existência de petróleo produz no país, é hoje de 1.900 dólares por habitante, enquanto que, em 1974, o anterior ciclo de petróleo caro foi de 3.500 dólares por habitante. A causa: apesar de a Venezuela ter reservas gigantescas, as exportações caíram 31%. Em 1974, o país exportou 140 barris de petróleo per capita e agora exporta 27 barris por habitante.

O orçamento nacional da Venezuela está construído da seguinte maneira: as entradas geradas pelo petróleo até 35 dólares por barril vão para as contas públicas, tudo o que entra acima de 36, por exemplo agora os 105 dólares, vai para o Fondem, Fundo de Desenvolvimento Macroeconômico, que depende diretamente de Chávez e não segue as normas de controle como o resto dos ingressos públicos.

Em Barinas não se usam tantos números para explicar por que, em um país com uma conjuntura tão favorável, a pobreza continua crescendo: "É que com a PDVSA sustentamos quatro países: Venezuela, Cuba, Nicarágua e Bolívia". O mesmo dizia Yeltsin na Rússia dos anos 90: "Chega de manter os cubanos, norte-coreanos ou angolanos. A Rússia deve gastar seu dinheiro melhorando o nível de vida dos russos".

A inflação é um sério problema: no ano passado foi de 23%, mas, nos primeiros dois meses deste ano, já acumulou 7% e a projeção anual indica que superará a barreira dos 30%. O Banco Central da Venezuela, que avalia o índice da inflação, está introduzindo mudanças na metodologia e comunicação desse índice.

Em 4 de fevereiro passado, cumpriram-se 16 anos do golpe de Estado que Chávez tentou contra o presidente Carlos Andrés Pérez. Chávez foi seu ajudante e havia jurado lealdade. Nesse dia, o ex-presidente, de seu exílio nos Estados Unidos, declarou: "A Venezuela vai sair deste pesadelo. A data está próxima. Não há leite, pão, carne, frango, os alimentos mais básicos na cesta básica. A falta de segurança condena os venezuelanos a viverem confinados em suas casas. Crescem o desemprego e a inflação porque Chávez arrasou com o aparato produtivo nacional e dependemos de maneira exclusiva das entradas do petróleo. Não é preciso ser muito inteligente para prognosticar que um governo assim se encontra à beira do colapso". Um dado confirma esse prognóstico: 80% do que é consumido hoje na Venezuela é importado.

Deixemos a chata economia e voltemos aos detalhes cotidianos que pintam um quadro mais fresco: o governo disse que não havia censurado Alejandro Sanz (sucesso no Brasil foi a música "Corazón Partío", tema de novela das 8). Foi publicado que os hotéis cinco estrelas se negaram a hospedar o cantor espanhol "por pressão do regime". O próprio Chávez respondeu: "Não, senhor Sanz, venha aqui se quiser e cante em Miraflores, eu lhe empresto a Praça Bicentenária para que cante o que quiser".

O bicentenário é um ponto em comum entre Chávez e os argentinos Kirchner. Cristina fala sobre a importância de ser "a presidenta do Bicentenário" de 2010 e Chávez está obcecado para chegar a 2021, quando se cumprem 200 anos do nascimento da Venezuela. Seu período presidencial chega até 2012, por isso ele promete, depois de sua derrota no referendo de dezembro passado, voltar com outro que habilite a reeleição indefinida.

No momento, ele deve se preocupar com o crescente descontentamento social mais a possível derrota nas eleições regionais do fim do ano, que poderiam impulsionar a oposição para algum caminho heterodoxo como, por exemplo, um referendo revogatório. A nova Constituição de 1999 afirma que, depois da metade do mandato de um presidente - que é de seis anos e Chávez foi reeleito em 2006, portanto seria no ano que vem -, se 15% dos votantes pedissem um referendo revogatório, todo o país deveria ir às urnas para decidir se o presidente continua ou se as eleições são antecipadas. Uma das várias partes estranhas de uma Constituição que mais se parece com um decreto de necessidade e urgência do que com uma Carta Magna. Quando o presidente anterior e fundador do partido COPEI (Cooperação de Organização Política Eleitoral Independente), Rafael Caldera, lhe entregou a faixa presidencial, ficou surpreso quando o atual presidente disse: "Juro sobre esta moribunda Constituição". Essa "moribunda" Constituição havia levado a uma das democracias mais estáveis da América do Sul, sem governos de fato desde 1958, enquanto muitos de seus vizinhos eram governados por juntas militares. Nela, o período presidencial era de 5 anos, que Chávez mudou no ano seguinte, para seis e, no último referendo que perdeu em dezembro, pretendia passar para períodos presidenciais de 7 anos com reeleição indefinida.

Pessoalmente, lembro-me com afeto daquela Constituição: quando terminou a Guerra das Malvinas e a ditadura militar argentina mandou me prender sob a acusação de traição à pátria, a embaixada da Venezuela me deu asilo. Cada vez que vejo as fotos de Chávez com o retrato oficial de Bolívar atrás dele, que está em todos os órgãos públicos, lembro-me das noites que dormi em um sofá debaixo do quadro de Bolívar, que era meu único companheiro. Aquela democracia venezuelana tinha militares democráticos e profissionais, e a Venezuela era um exemplo para a América Latina em relação ao respeito aos direitos, entre eles a liberdade de imprensa e o direito a asilo. Não me animaria a dizer que hoje não é assim, mas, ao escutar o ministro do Interior Rodríguez Chacín [ver box no final desta reportagem] acusar os meios de comunicação de "traição à pátria" por difundir a posição de Uribe no conflito com a Colômbia, fico em dúvida.

O que acontecerá no dia em que Chávez perder o poder? Será certo que padece da "síndrome de Galtieri" [o aloprado general argentino que, em 2 de abril de 1982, invadiu as Ilhas Malvinas declarando guerra ao Reino Unido] e busca alguma guerra que vire o jogo? Que não só se sente presidente da Venezuela mas também comandante de uma revolução continental socialista e nacionalista contra os Estados Unidos? O que significa quando diz: "Pátria, socialismo ou morte"?

É preciso reconhecer que cada vez que se enfrentou com a possibilidade de que o sangue venezuelano fosse derramado - no golpe que liderou contra Carlos Andrés Pérez em 1992 e no que sofreu em 2002 -, Chávez preferiu não avançar em direção a uma guerra civil. Não há um Chávez, Messias e Satanás, salvador da pátria e déspota em uma só pessoa, como escreveu García Márquez. Um homem que não se parece uma má pessoa e que, ao mesmo tempo, parece um louco.

Jorge Fontevecchia é jornalista e diretor-presidente do grupo argentino Editorial Perfil S.A.