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Uma Vida Nova

Mais ambicioso do que nunca, Coldplay rompe com o passado em quarto disco

Evan Serpick Publicado em 09/04/2008, às 15h41 - Atualizado em 15/05/2008, às 17h43

Em uma noite de sábado no final de fevereiro, o Coldplay está em seu quartel-general na zona norte de Londres, escutando a mixagem de novas músicas. Depois de passar meses compondo e gravando com o produtor Brian Eno, a banda agora chegou à parte da finalização de seu quarto álbum, Viva la Vida. Algumas semanas antes, Eno os abandonou para trabalhar no novo disco do U2, sobrando para os rapazes do Coldplay a tarefa de mixar, gravar overdubs e discutir quais faixas entrariam ou não. "Uma vez, ouvi uma frase de Bono dizendo que 'as bandas não devem brigar por causa de dinheiro, e sim por causa da lista de músicas em um álbum'", conta o líder Chris Martin. "Nada poderia ser mais pertinente a esta altura."

Mais cedo, naquele mesmo dia, o grupo concordou em uma seleção central de seis músicas para ancorar o álbum - e fez um pacto para finalmente parar de gravar e se concentrar somente na mixagem. Enquanto três integrantes estão acomodados em uma sala, escutando uma mixagem de "Strawberry Swing", Martin irrompe estúdio afora e pede ao guitarrista Jonny Buckland que regrave algumas partes de "42". A faixa - uma viagem musical em três partes, com pianos, cordas e batidas repetidas - é uma das músicas que a banda adora e que encabeça a disputa pelo posto de primeiro single.

Com uma rápida revirada de olhos, Buckland segue Martin para dentro do estúdio, onde os dois passam a hora seguinte experimentando seqüências de guitarra cada vez mais pesadas. Finalmente, quando Martin pressiona Buckland para que repita mais uma vez, o guitarrista retruca: "Acho que está ótimo assim", ele diz, antes de concordar em fazer mais uma tentativa. "Parece que já estamos terminando o álbum há seis meses", Buckland declara mais tarde. "O estágio inicial foi agradável - não ficamos arrancando os cabelos. No estágio intermediário, de repente, a gente começa a pensar: 'Bom, precisamos descobrir quais músicas são as boas'. E, neste estágio final, que já se estica há um bom tempo, as coisas ficam cada vez mais intensas."

Com Viva la Vida, o Coldplay promove uma ruptura abrupta dos hinos de piano e guitarra que foram seus maiores sucessos. "Era como se os três primeiros álbuns tivessem sido uma trilogia", diz Buckland. "Agora, queríamos fazer algo diferente."

Uma das maiores mudanças está na voz de Martin, que passou do falsete que já é sua marca registrada para um tom mais profundo. "Minha professora de canto disse que ficava excitada quando eu cantava com a voz grave", conta.

Apesar dos 11 milhões de álbuns que o Coldplay já vendeu, Martin considera Viva como uma proposta ao estilo "ame-os ou deixe-os". "Pode ser a nossa última chance de fazer muito sucesso", ele afirma. "Tem uma coisa na minha cabeça, uma relevância artística. Existe uma voz que aparece às 3 da manhã com canções. Pode chegar uma idade em que a gente diz: 'Ah, que se foda, vou voltar a dormir'. Mas eu ainda estou naquele ponto em que me levanto para trabalhar na idéia. Foi Tom Waits ou Bob Dylan quem disse que essas coisas ficam incomodando até você dar um jeito nelas. Acho que é parecido com a vontade de se masturbar." O baixista Guy Berryman completa: "Grandes bandas como Pink Floyd e Beatles viviam explorando".

De volta ao estúdio, perto das 2 da manhã, Buckland e Martin tocam a parte do meio de "42" repetidas vezes, tentando criar a linha de guitarra perfeita. Esses overdubs no meio da madrugada foram inspirados por um comentário informal que Martin ouviu de alguém, dizendo que a canção se parecia com Radiohead. "Não há nada de errado em parecer o Radiohead", diz. "É só que, quando eu escuto na minha cabeça, não é o que me parece. Então precisamos fazer tudo funcionar."